Samozřejmě*

Gin

* Muito natural, tradução livre do livro Milena, de Margarete Buber-Neumann. Em tcheco: samozřejmě (trad.: é claro, naturalmente)

 

De Kafka eu conhecia alguns de seus livros. De Milena Jesenská apenas um exemplar pousado na estante, intocado e ainda com cicatrizes de um papel de cera caído desavisadamente ali, que lhe rasgara a capa. Provavelmente, o tenha adquirido por ser ela a protagonista do livro Cartas a Milena, escrito pelo poeta. Não me recordo. Ele sempre me atraiu, já Milena, que eu conheceria um pouco mais na obra de Margarete Buber-Neumann, foi esquecida temporariamente, creio que por conta das primeiras páginas relatando os dias passados pelas duas, que se tornaram amigas, em 1940, no campo de concentração Ravensbrück, sob comando nazista, a razão do adiamento da leitura.

Clarice Lispector e a receita do café – Ideias nº 148 – me encheram de coragem para abrir a obra já amarelada e descobrir que Milena e Kafka foram muito mais do que amigos. A sensual cantora Maísa disse numa entrevista que estava fascinada pela vida da corajosa militante comunista tcheca. Foi o sinal. Corri para o lugar dos meus livros e lancei-me na leitura de descobertas dessa jornalista e tradutora, rompi as primeiras páginas, as poucas a relatar o difícil dia a dia do campo de condenados, para o meu alívio, conhecendo a vida de uma grande mulher.

Estando em Madri recentemente em busca de novidades gastronômicas, esbarrei em alguns mitos e, tomada por uma incontrolável timidez e insegurança absurdas, poucas palavras troquei, segui com a mesma, imagino, dificuldade de encarar o mundo real, tal qual o escritor, querendo descobrir que doce um alemão que morava em Praga no começo do século passado comeria, sei da predileção dele pelas amoras e cerejas, e logo veio a imagem de um clafoutis, ou ainda o que cozinhava Milena para seus inquilinos na improvisada pensão na sua casa criada para ajudar a sustentar-se ou acolher seus amigos na miséria quando separada do seu primeiro marido, Ernst Polak. Precisava encontrar uma receita para ilustrar este espaço. Uma sopa? Pensei, já que ele tendia ao vegetarianismo. Com esse calor que nos assola? Não era o caso. Quem sabe os bolinhos fritos que a avó tcheca de Milena, que não aceitava e não cumpria o horário de verão, fazia para os oito filhos? Me perguntei. Simples demais, procurava por algo forte, marcante, como seus escritos, ou alguma coisa para abrir o apetite. Samozřejmě! Claro: gin tônica, afinal é a bebida dos chefs e é um drinque clássico.

Mesmo com a informação de que Kafka era abstêmio, sei que apreciava os aromas, e isso a bebida escolhida tinha, eu sabia. Carreguei na mala de volta da última viagem uma caixa de especiarias para incrementar o coquetel que costuma aparecer lá em casa, além de dois rótulos especiais da bebida. Depois, preparar um drinque não é apenas misturar ingredientes, assim como na cozinha há que se pensar nas combinações, estilos e principalmente na qualidade dos ingredientes, por isso, não se trata aqui de qualquer gin, ou qualquer tônica, sinto não dispor de exemplares ingleses, mas temos os produtos de sabor acentuado, os temperos, e me conformo. Enfim, quero acreditar que Kafka aprovaria minha escolha, afinal a água com quinino é revigorante, o que ajudaria sua saúde frágil, outro devaneio meu, e a bebida e as espécies são aromáticas. A escolha do gin vai do gosto de cada um, claro, é preciso experimentar vários para definir sua preferência. Escolho os ingleses, que criaram a bebida, o Beefeater – experimentei o Beefeater 24, que carrega o número de ervas do rótulo para equilibrar o teor alcoólico mais elevado e gostei muito –, o Hendricks, que é um pouco mais adocicado, com pétalas de rosa e pepino na composição, e o London nº 3, ainda não experimentei a edição especial nº 1, que me aguarda no bar privativo. Tim-tim!

 

Gin tônica

8 pedras grandes e firmes de gelo numa taça grande e larga (pedras de gelo pequenas vão derreter mais rápido e diluir o sabor da bebida)
60 ml de gin
120 ml de água tônica
2 rodelas de pepino

Modo de preparar
Coloque o gelo na taça e mexa várias vezes com a ponta da colher de coquetel para gelar a taça.
Tire a água do gelo derretido com uma peneira apropriada.
Coloque o pepino e o gin, depois acrescente a água tônica aos poucos, deixando escorrer com a ajuda da colher de coquetel até o fundo do copo.
Acrescente duas sementes de zimbro (opcional) e decore com uma rodela de pepino. Não mexa.

Fotos: Romildo Voss Jr.

Fotos: Romildo Voss Jr.

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