Ucrânia, Rússia, crise e guerra

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Conheça o histórico da região e entenda os motivos que levaram o Leste Europeu à beira do colapso

 

A Ucrânia vive uma das piores crises institucionais de sua história. Os protestos, que ocorrem desde novembro, deixam um rastro de sangue, violência e destruição no país. O próprio Ministério da Saúde do país confirmou que existem ao menos 77 mortos e 577 feridos desde o acirramento dos confrontos, no dia 18 de fevereiro.

A situação no país é catastrófica, mas não merece análises simplistas. O país está em uma localização geográfica estratégica entre a Europa e a Ásia. Para compreender o que está acontecendo na Ucrânia é necessário se debruçar sobre a história e as motivações existentes no país.

 

O contexto histórico

As raízes da Ucrânia atual estão na Rus Kievana – o principado de Kiev. A Crônica de Nestor nos diz que o viking sueco Rorik fundou, em 862 a.D, o condado de Novgorod, no mesmo lugar onde se encontra, hoje, a cidade de nome similar. Em 880, aproximadamente, a capital do condado foi transferida para Kiev.

A primeira observação importante precisa ser feita aqui: essa data também é considerada a data de fundação da Rússia como Estado. Ucrânia, Rússia e Bielo-Rússia consideram essa data o marco originário de seus Estados nacionais. Com a dissolução do Principado de Kiev, no século XIII, parte da herança cultural eslava acabou indo para Moscou. O fato é que muitos russos ainda consideram Kiev (e a Ucrânia, como um todo) como parte histórica de seu território, tendo em vista que o país se originou do Principado de Kiev.

A região de Kiev esteve, até o século XVII, sob domínio de lituanos e poloneses. Nessa época, os cossacos organizaram uma rebelião contra o reino polonês, que impunha um regime de servidão aos habitantes das margens do Dniepre (rio que corta a Ucrânia e passa por Kiev). Esse momento histórico é importante porque, em 1648, o Império Russo se aliou aos poloneses para reprimir a rebelião cossaca. E, como recompensa, se apropriou do território em definitivo, no ano de 1654.
Nesse período, russos e ucranianos já eram povos distintos, inclusive no idioma. Enquanto os russos levaram consigo a herança do Principado de Kiev para expandir seu Império após o recuo dos mongóis, no século XIV, os ucranianos tiveram mais contato com a cultura bizantina, polonesa, húngara e com os povos do Cáucaso.

Essa compreensão não era compartilhada pelo Império Russo. No século XIX, os czares implantaram uma política de “russificação” ostensiva no território ucraniano e proibiram a utilização do idioma ucraniano em lugares públicos. Qual a importância disso? Essa “russificação” começou a mudar o perfil demográfico do leste e do sul da Ucrânia, tornando predominantes na região os habitantes de etnia russa.

Com a Revolução Russa e a anexação da Ucrânia pela União Soviética, em 1921, o processo se agravou. Stálin combateu o nacionalismo ucraniano por todo o seu governo. Na década de 30, a arma de Stálin foi a coletivização forçada, que causou a grande fome de 1932-1933, conhecida como Holodomor, reconhecida como genocídio étnico por mais de 20 países. Após a 2ª Guerra Mundial, o exército soviético combateu milícias nacionalistas até esmagá-las definitivamente, em 1955. Tudo isso serviu para alimentar o ressentimento histórico dos nacionalistas ucranianos contra a opressão dos russos.

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A independência

Com a derrocada do bloco soviético, a Ucrânia declarou independência em 24 de agosto de 1991. O processo político de independência foi relativamente tranquilo, com a Rússia enfraquecida. Mas o processo econômico não foi. Na década de 90, a Ucrânia passou pelo maior processo de empobrecimento que um país “em paz” sofreu, durante o século XX. Foram dez anos seguidos de recessão econômica. No final de 2000, o valor do PIB ucraniano representava apenas 41% do valor do PIB ucraniano em 1991. Reparem na insanidade dos dados de crescimento econômico ucraniano no gráfico abaixo.

Existem dois problemas nesse processo de empobrecimento. O primeiro é o mais óbvio: nenhum país empobrece de tal forma sem consequências catastróficas. O empobrecimento provocou o aumento da violência, a emigração em massa de ucranianos para outros países da Europa, como Portugal, e o enfraquecimento do governo do país, que já era débil.

O segundo problema é o de que nenhum empobrecimento dessa dimensão ocorre naturalmente. A Ucrânia foi espoliada na década de 90. A economia nacional sofreu na mão de diversas máfias, que contrabandeavam tudo o que podiam de um país caótico, sem um governo exercendo um mínimo de controle. De armas a produtos agrícolas, as perdas enfrentadas pela Ucrânia na década de 90 foram inestimáveis. E inserem um novo componente de ressentimento aos ucranianos: a grande maioria dessas máfias era de origem russa, muitos “mafiosos” da época se apropriaram depois de empresas russas e até mesmo tomaram parte em governos como o de Vladimir Putin.
Estava armada a bomba.

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O contexto atual

Um país empobrecido, em crise econômica e dividido politicamente. Era assim que a Ucrânia adentrava o século XXI. Nesse cenário, a divisão política na Ucrânia passou a oscilar entre o nacionalismo extremo e os “russistas” extremos, que querem ver o país sob comando russo de novo. O resultado dos últimos dez anos de eleições mostra claramente a divisão política e étnica do país.

Na eleição de 2004, Viktor Yushchenko (pró-Ocidente) foi envenenado e a eleição foi fraudada pelo presidente da época, Viktor Yanukovich (o mesmo que foi eleito em 2010 e comandou a Ucrânia até o dia 22 de fevereiro). A fraude e o envenenamento culminaram na “Revolução Laranja”, pacífica e de caráter nacionalista. Yushchenko assumiu o poder em 2005.

É bom lembrar que a Rússia não vê com bons olhos a aproximação da Ucrânia com o Ocidente. Exemplo disso é o das crises no fornecimento de gás natural da Rússia para a Ucrânia, em 2006 e em 2009. Durante governos ucranianos pró-Ocidente. É bom frisar que o gás natural é essencial para o aquecimento das casas durante o rígido inverno do país, e que, durante a crise de 2006, em que o fornecimento de gás chegou a ser cortado pela Rússia, foram registradas diversas mortes por conta do frio na Ucrânia.

No entanto, os governos pró-Ocidente da Ucrânia, de Yushchenko e Yulia Tymoshenko, foram marcados pela corrupção e pela crise econômica de 2008 (reparem nos 15% de queda do PIB ucraniano em 2009, no gráfico com as taxas de crescimento do PIB ucraniano).

Nesse cenário de crise, Viktor Yanukovich ganhou as eleições presidenciais de 2010 e adotou uma estratégia política de reaproximação com o regime de Putin. Além disso, promoveu o que a oposição julgou como “perseguição política” de seus adversários: a Justiça da Ucrânia prendeu Yulia Tymoshenko em 2011, por corrupção e abuso de poder em contratos de gás natural, com base em leis existentes na época da União Soviética. O Parlamento ucraniano só aprovou a sua libertação da prisão recentemente (sim, três anos depois, em meio à crise institucional).

O estopim para o início das manifestações foi a recusa de Yanukovich em assinar um acordo de aproximação do país com a UE, em novembro de 2013. O problema é que a reação de Yanukovich às manifestações foi a pior possível: reprimiu os protestos e conseguiu incentivos de R$ 36 bilhões do governo Putin. Isso inflamou os nacionalistas do país. E deu protagonismo aos setores mais extremistas, com ligações com a extrema direita.

É bom ressaltar que o conceito de esquerda e direita é muito obtuso na Ucrânia, que passou cerca de 70 anos sob uma ditadura de esquerda. Em um cenário de opressão histórica, de luta por afirmação nacional e de crise econômica quase permanente, o nacionalismo ucraniano adquiriu caráter fortemente anticomunista.

Existem muitos neonazistas entre os nacionalistas ucranianos, por uma razão histórica bizarra: a nostalgia da luta nazista contra a União Soviética, na 2ª Guerra Mundial, que na época foi apoiada pela UPA (Ukrayinska Povstanska Armiya) – o Exército Insurgente Ucraniano. Historicamente, foi a última vez em que a Ucrânia não esteve totalmente sob domínio soviético, até 1991.

É uma espécie de Síndrome de Estocolmo política: os nazistas e comunistas eram genocidas iguais. Mas para os nacionalistas de extrema direita ucranianos, qualquer coisa parece ser melhor que a Rússia.

04-procuradoPara piorar, Yanukovich promulgou em janeiro uma lei “antiterrorismo” para reprimir manifestações, nos moldes da que está tramitando no Congresso Nacional brasileiro. Com isso, a situação degringolou de vez. Protestos se tornaram mais violentos, a repressão policial também, e a Ucrânia ficou à beira de uma Guerra Civil. A revogação da lei, duas semanas depois, não teve muito efeito prático sobre as manifestações.
O presidente Yanukovich perdeu legitimidade dentro do país e também no exterior. Ao mesmo tempo em que chamava os líderes opositores para negociar, selando um acordo em 21 de fevereiro com os líderes de oposição Arseniv Yatsenyuk, Oleh Tyahnibok e Vitaly Klitschko, usou a polícia para reprimir fortemente os protestos, provocando dezenas de mortes.

Com isso, surgiram lideranças mais extremistas protagonizando os protestos na rua, como o partido ultranacionalista Svoboda (de Oleh Tyahnibok) . Além dessas lideranças, havia uma massa imensa de jovens ucranianos apartidários e desiludidos com a política protestando em diversos lugares. O foco dos protestos estava em Kiev, mas também surgiram acampamentos de manifestantes em cidades como Lviv e Odessa. Alguns prédios públicos, como delegacias de polícia, foram ocupados em diversas cidades no oeste do país.
No dia 22 de fevereiro, Viktor Yanukovich deixou Kiev, e o Parlamento ucraniano votou por sua deposição, por 328 votos a zero. Os parlamentares do partido de Yanukovich se retiraram antes da votação (o Parlamento ucraniano tem um total de 450 deputados). No mesmo dia, Yulia Tymoshenko, que ficou presa por três anos, foi libertada e discursou na Praça da Independência, em Kiev. Arseniy Yatsenyuk assumiu como presidente interino até as eleições presidenciais.

Eleições gerais foram marcadas para 25 de maio. O oposicionista Vitali Klitschko e o líder do Svoboda Oleh Tyahnibok se lançaram candidatos, mas o líder das pesquisas é o empresário e ex-ministro Petro Poroshenko, que tem uma postura nacionalista moderada, tendo sido ministro nos governos de Yulia Tymoshenko e Viktor Yanukovich.

Yanukovich não reconheceu sua deposição, continua se considerando presidente do país e acusa o Parlamento de promover um golpe de Estado. Apareceu em Rostov-on-don, na Rússia, em 28 de fevereiro. No mesmo dia em que discursou pedindo paz na Ucrânia, pediu para que Vladimir Putin, presidente da Rússia, invadisse a Crimeia para garantir os interesses dos cidadãos russos na região. No dia seguinte, Putin conseguiu aprovação, junto à Duma (o parlamento russo), do envio de tropas à Ucrânia. E desde então, vem aumentando a presença militar na Crimeia. Atualmente, Yanukovich é procurado pela polícia na Ucrânia e corre o risco de ser preso se voltar ao país.

06-stop-russian-agression-closeA Crimeia é uma região autônoma no sul da Ucrânia que só foi incorporada ao país em 1954 e tem maioria étnica de russos. Não apoiou em nenhum momento os protestos realizados em Kiev e nem a deposição de Viktor Yanukovich. Logo após a deposição de Yanukovich, elegeu um governo próprio, pró-Rússia, que em 06 de março convocou um plebiscito unilateral, programado para 15 de março, em que os habitantes da região votarão a anexação da região pela Rússia.

Diversos países e organismos internacionais já condenaram a iniciativa russa de enviar tropas para a Crimeia como violação da soberania ucraniana, incluindo os EUA e a União Europeia. Por outro lado, a Rússia não reconhece o governo ucraniano e diz que a invasão “é humanitária, para proteger os russos étnicos que estão sob risco de ataque na Ucrânia”.
A União Europeia aprovou um pacote de ajuda de 11 bilhões de euros para a Ucrânia no dia 05 de março. Os EUA devem ajudar com mais US$ 1 bilhão. O valor é necessário para reconstruir a economia de um país empobrecido e que ficou praticamente parado com a indefinição institucional dos últimos meses. E que agora corre o risco de perder uma das partes mais ricas e estratégicas de seu território.

O que pode agravar a situação na Ucrânia:

• A Ucrânia é o único país do mundo que renunciou voluntariamente ao seu arsenal nuclear (que era o terceiro maior do mundo em 1994, atrás apenas de EUA e Rússia). Essa renúncia foi formalizada através do Memorando de Budapeste. Esse memorando, assinado por EUA, Grã-Bretanha e Rússia, garantia a segurança e a integridade do território ucraniano contra invasões de qualquer tipo. Ou seja: se a Ucrânia fosse atacada, os países signatários do acordo seriam obrigados a defendê-la. Como isso obviamente não se aplica à Rússia, EUA e Grã- Bretanha, em tese, têm a obrigação de proteger o território ucraniano.

• Independente do que vai ocorrer daqui em diante, um efeito negativo é certo: ninguém renunciará ao seu programa nuclear tão cedo. Desde a invenção da bomba atômica, na década de 40, nenhuma potência nuclear do mundo teve seu território invadido. E a Ucrânia provavelmente não estaria sendo invadida se não tivesse renunciado ao seu arsenal atômico em 1994.

• Além disso, países como Polônia, Lituânia e Grécia já declararam apoio à Ucrânia. A Polônia chegou a movimentar tropas para a região da fronteira. O poderio bélico desses países é irrelevante, mas o gesto é simbólico: são todos países-membros da OTAN, em áreas fronteiriças, que não tolerarão nenhuma tentativa de avanço das tropas russas para a região.

Por que a Rússia preocupa?

• Repressão às minorias, como os gays (que motivou protestos nas Olimpíadas de Inverno em Sochi).

• Inexistência de liberdade de imprensa: a Rússia não tem imprensa livre, e a situação se agravou nos últimos anos. Os órgãos que tinham postura crítica ao governo Putin foram fechados e só sobraram as agências oficiais de imprensa • ou que apoiam o regime de Putin. O levantamento anual da Freedom House coloca a Rússia como um dos países em que não há imprensa livre, no mesmo patamar de ditaduras africanas e países como Cuba e Coreia do Norte.

• Sufocamento da oposição: a oposição russa é sistematicamente reprimida pelo governo de Vladimir Putin. Caso emblemático é o das Pussy Riots, que passaram dois anos presas por criticarem o regime de Putin. E um caso mais antigo, que mostra bem o poderio russo, é o envenenamento do ex-espião e crítico do governo russo Alexsander Livtinenko, com polônio.

• Corrupção: dentre os 177 países analisados pela Transparência Internacional para a construção do Corruption Perception Index em 2013, a Rússia está apenas na 127ª posição, atrás de países como Guatemala e Serra Leoa.

• Não reconhecimento do novo governo ucraniano: além de abrigar Viktor Yanukovich, o governo de Putin segue não reconhecendo o novo governo ucraniano e ignorando as chamadas para negociação feitas pelo gabinete em Kiev. Uma declaração do primeiro-ministro Dmitry Medvedev no Facebook pode dar o tom da estratégia do governo russo: Medvedev falou que “com certeza haverá uma segunda revolução que tirará do poder esse governo ilegítimo”. De acordo com a declaração de Medvedev, a estratégia russa pode ter duas frentes nos próximos dias: enquanto tropas invadem e dominam a Crimeia, protestos contra o governo ucraniano são fomentados no restante da Ucrânia. De fato, protestos massivos contra o governo vêm ocorrendo desde o dia 28 de fevereiro em cidades do leste da Ucrânia, como Donetsk, Mariupol e Kharkhiv.

Por que a Ucrânia preocupa?

• Leniência com o neonazismo: é preciso deixar bem claro que o governo da Ucrânia não é neonazista “por si”. O gabinete do presidente Arseniy Yatsenyuk não tem tendências neonazistas ou algo do tipo. Mas o governo conta sim com participação de neonazistas. Especialmente do partido Svoboda, de Oleh Tyannybok. Tyannybok participou das negociações frustradas com Viktor Yanukovich juntamente com Yatsenyuk e com o ex-campeão de boxe Vitaly Klitshcko. E, após a deposição de Yanukovich, viu o Svoboda assumir três ministérios, após uma recusa inicial à entrada no governo. É o tipo de atitude que alimenta o discurso de ilegitimidade do governo por parte da Rússia e de Yanukovich. Além disso, setores de extrema direita chegaram a atacar com pichações sinagogas no país, sem repressão governamental.

• Corrupção: a Ucrânia é apenas o 144º lugar no Corruption Perception Index da Transparência Internacional para o ano de 2013, entre 177 países. Estima-se que, em três anos de governo, o presidente Viktor Yanukovich desviou US$ 37 bilhões de dólares do país. Para se ter uma ideia do tamanho do rombo, isso é mais de 7% do PIB ucraniano do período (que é de aproximadamente US$ 523 bilhões, somando-se os três anos). Para se ter ideia da dimensão da corrupção no país, o filho de Viktor Yanukovich ganhou 50% dos contratos do governo federal ucraniano no mês de janeiro, antes da deposição do presidente.

Com isso e com a paralisação econômica proporcionada pelos protestos, a Ucrânia está à beira da falência. O governo do país não consegue controlar a situação internamente, em situação análoga à vivida no país na crise econômica da década de 90. Essa falta de controle pode gerar uma crise de legitimidade, e essa é a aposta de Moscou: é bom lembrar que a Crimeia e o leste da Ucrânia, que são os locais onde está o maior apoio à Rússia, são as áreas mais ricas do país.

A aposta de Kiev está na ajuda externa. Os EUA ofereceram US$ 1 bilhão ao país. A União Europeia fechou um pacote de ajuda de 11 bilhões de euros.

A agressão russa à Ucrânia

O destino é cruel com a Ucrânia. Justamente no ano em que se comemora o bicentenário de nascimento de seu poeta e herói nacional maior, Taras Chevtchenko, que passou longos anos prisioneiro nas masmorras russas durante o czarismo, volta novamente a Rússia a agredir a Ucrânia.

A Ucrânia, com 48 milhões de habitantes, do tamanho do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul juntos, maior país da Europa, deseja ser ela mesma. A Ucrânia aspira ser um país livre, soberano, com todas as suas fronteiras preservadas, próspero, com pleno desenvolvimento de sua língua e cultura nacional. Para isso o povo foi às ruas. O movimento popular teve início no final do ano passado com manifestações estudantis, ampliou-se para manifestações gigantes do povo e se instalou no coração do país na Praça da Independência (Maidan Nezalezhnosti), em Kyiv. O próprio presidente Victor Yanukovych elegeu-se com uma plataforma pró-integração europeia e mudou o rumo. O descontentamento com o centralismo do governo e com a corrupção era grande.

Quando o movimento já se arrefecia em 16 de janeiro, o Parlamento baixou um pacote de oito leis draconianas que impediam na prática o exercício do direito de manifestação. Novamente o movimento toma corpo e depois do Leste e do Centro, cresce no Oeste e no Sul do país. A resistência aumenta e agora se torna política. Em função da repressão e das leis draconianas caem ministros e entre eles o primeiro-ministro, Azarov. O poder vê-se obrigado a revogar as leis e assinar um pacto com a oposição. Entretanto, o presidente Victor Yanukovych resiste a assinar a diminuição de seus poderes em favor do Parlamento – o retorno às regras da Constituição de 2004, previstas no pacto. Nova e assassina repressão aos manifestantes. Mais de 80 pessoas assassinadas com tiros na testa e no coração por atiradores de elite e mais de 600 feridos. Agora não há mais primeiro-ministro ou subalternos a serem demitidos, só existe pela frente a responsabilização do presidente Victor Yanukovych. Setenta e sete deputados do Partido das Regiões que o sustentavam deixam a legenda e passam à oposição. A maioria torna-se minoria no Parlamento. O presidente é responsabilizado e demitido por decisão soberana de dois terços do Parlamento. O presidente Victor Yanukovych queima pela metade os arquivos e deixa para trás o governo e uma mansão cafona e ricamente decorada, a fazer inveja aos faraós – agora transformada no primeiro museu da corrupção do mundo – e refugia-se na Rússia. Revela-se plenamente o saqueio dos cofres públicos pela equipe dirigente do governo. O presidente do Parlamento toma o comando do país como determina a Constituição e são nomeados o primeiro e demais ministros. E tem início uma nova frente de batalha.

A geografia também é cruel com a Ucrânia. A localização da nação no mapa da Europa a fez lutar para a sua existência milenarmente. No século XX, a Ucrânia se encontrou no olho do furacão da história da humanidade: primeira e segunda grandes guerras, a guerra civil e o holodomor (fome artificial criada por Stálin que em 1932-33 vitimou milhões de ucranianos). Tragédia maior não houve. Mas ainda viria a maior tragédia ambiental planetária que ocorreu em seu território em Chernobyl, no ano de 1986. Com o fim da União Soviética em 1991, emerge a Ucrânia como país independente no cenário internacional e como a terceira potência nuclear do planeta. Em 1994 a Ucrânia torna-se o primeiro e, atualmente, o único país no mundo que, voluntariamente, livrou-se de armas nucleares e eliminou todas as suas ações sob controle internacional, num total de mais de 300 ogivas nucleares. A condição para este passo sem precedentes em 1994 foi que a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos, posteriormente juntaram-se a França e a China, como superpotências, fornecessem as garantias de segurança à Ucrânia, fixadas no Memorando de Budapeste. A Rússia é um dos fiadores, se comprometeu a abster-se de recorrer à ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política da Ucrânia, bem como a respeitar a independência, a soberania e as fronteiras existentes do país. Por esta razão a legitimidade da Ucrânia a fazer apelo aos demais fiadores e a legitimidade dos fiadores a participarem do processo, pois são garantidores da soberania e da integralidade territorial ucraniana. A Rússia fez exercícios militares ao longo das fronteiras da Ucrânia, introduziu elementos armados camuflados na Crimeia, pôs milhares de homens armados na península e fomenta o separatismo e anexação ao país russo. A Ucrânia é um Estado soberano e independente, com território contínuo, e qualquer intervenção militar nos assuntos internos dos estados é inaceitável. A Crimeia é uma parte integrante da Ucrânia, cujo território é coberto pela Constituição e pelas leis ucranianas. Constitucionalmente, só o referendum de todo o povo da Ucrânia pode decidir sobre os destinos da Crimeia.

Os argumentos de Vladimir Putin, em proteger a população de língua russa, só têm precedentes na história europeia nos mesmos argumentos de Adolf Hitler no passado. Produtores culturais russos declararam à BBC que não existe perseguição aos russos na Ucrânia. Levanta Vladimir Putin que o governo é de nazifascistas, quando na verdade caricatos grupos de jovens participaram da resistência na Maidan com vestimentas desse estilo. Seria como caracterizar os movimentos de protesto do Brasil de junho de 2013, que foram obra só dos Black Blocks e dos arruaceiros, quando qualquer analista sério sabe que foi um movimento do passe livre, ampliado por gigantescas manifestações populares demonstrando insatisfações legítimas. As associações e personalidades da comunidade judaica da Ucrânia escreveram carta a Vladimir Putin negando a existência de perseguições à etnia. Setenta por cento do povo russo e toda a oposição russa a Vladimir Putin condenam a intervenção russa na Ucrânia. A política de Vladimir Putin é uma ameaça à estabilidade europeia. A Polônia declarou que a intervenção russa ainda não é direta ao seu país, mas que ela já se sente a ameaçada. As Olímpiadas de Sochi são só a máscara onde se esconde a velha política imperialista do novo czar.

O Brasil nos conhece. A Ucrânia deu e dá grande contribuição à nação. De Clarice Lispector ao mais simples agricultor. O Paraná nos conhece melhor, pois no meio milhão de descendentes, oitenta por cento aí reside. A Ucrânia deseja ser ela mesma: suave como a poesia de Helena Kolody e colorida como as pinturas de Miguel Bakun. A Ucrânia não pode ser aquilo que o vizinho do Norte quer. Repito que a Ucrânia aspira ser um país livre, soberano, com todas as suas fronteiras preservadas, democrática e vivendo com a liberdade europeia que sempre foi o seu berço natural. Como filhos do Brasil, há mais de um século, pedimos ao país que no espírito da sua Constituição Federal se manifeste claramente contra a intervenção russa, realize todos os esforços diplomáticos para evitá-la e que reconheça a soberania e a integridade do território da Ucrânia.

05-autor_2Vitorio Sorotiuk é advogado e professor universitário. Foi presidente do Centro Acadêmico Hugo Simas gestão 67/68 e presidente do Diretório Central dos Estudantes – DCE da UFPR – 68. Ex-secretário de Estado do Meio Ambiente do Paraná e ex-presidente do Instituto de Terras Cartografia e Florestas e do Instituto Ambiental do Paraná. Preside a Representação Central Ucraniano Brasileira – RCUB desde 2001.

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