Um pouco de lirismo com tom maloqueiro

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Quando relato, no Juvevê, que havia, ali nas proximidades do Hospital São Lucas, um parque denominado “Barcarola” e que além de quadras de esporte e choparia tinha ao fundo um estádio de futebol utilizado pelo Britânia, pelo Coritiba e também pela Federação de Futebol, que o denominava orgulhosamente de cimento armado, todos me olham com espanto. Pois quando no Ginásio Paranaense, tive aulas de ginástica naquele cenário onde despontavam os professores Custódio e José Heredia Navarro, esse ginasta e poeta, acrobata verbal, e ainda o decatleta Hamilton Saporski Dal’Lin.

Curitiba era muito mais fria do que agora, onde é possível cultivar café, graças ao microclima e ao aquecimento com a densidade das edificações. Mesmo no frio, e isso dá bem a medida da ousadia infantil e juvenil, saíamos das aulas do Barcarola para um tanque das proximidades, mais ou menos na altura da área fronteira ao Parque Pinheiros, num lugar em que arquitetos e engenheiros sepultaram as nascentes do rio Juvevê, que agora se vinga e leva a prefeitura a refazer o asfalto cinco vezes por desconhecimento do subsolo e do curso d’água que ali chegou primeiro. E os gênios ainda imaginam fazer metrô!

Era o Tanque do Grega ou do Greca, que justamente represava o Juvevê e do qual fazíamos a nossa praia, apesar da manifesta má vontade dos proprietários lindeiros e beneficiários daquele manancial. Para combater-nos, o que faziam nossos inimigos? Ora juntavam arbustos com espinhos para colocar-nos sob ameaça de ferimentos ou ainda iam ao extremo, imaginem só: de livrarem-se dos invasores quebrando dezenas de garrafas para deixar-nos ainda mais ameaçados de ferimentos e até de gangrena.

Como se fôssemos ourives tirávamos espinho por espinho, vidro por vidro, num mutirão entusiástico, esforço comunitário de toda a gangue, e em pouco tempo a “praia” estava livre daquelas minas que sapadores hábeis sabiam detectar. Na cidade que não tinha piscinas públicas, a primeira seria a do Cassino Ahu e, em seu lugar, o Tanque do Bacacheri, o do Franco, e do Atuba, da família Glaser. Afora isso os rios da cidade, incluindo o Belém, e o mais rico de todos, pelo menos em locais de banhos, o Barigui, com os frequentadores se incumbindo de nominar os acidentes como Volta Funda, em que se imaginava existir submerso um pinheiro araucária, a Princezinha, num remanso que fluía poeticamente, a Carniça, o túmulo de um corvo descuidado, enfim, a toponímia gerada por invasores às voltas com reluzentes papanás multicoloridas e, de vez em quando, uma ave de porte, um jacu, uma alma de gato.

Em nossos tempos estaríamos, sociologicamente, enquadrados como os “sem praia” e “sem piscina”, vítimas (ah, ah, ah) da exclusão social. Não sei se foi uma boa escola, não me consta que tenha surgido dali uma cota superior de delinquentes, comuns nessas estratificações. Mais hábeis do que vereadores ao nominarem ruas, sua especialidade mais frequente, consolidamos a geografia lírica da cidade e em alguns casos éramos até didáticos como no caso do lugar denominado “Toco”, em que alertávamos para o risco de algum nadador bastante descuidado ter a barriga transposta por um galho agudo de árvore.
Boa parte desse manancial é integrante do Parque Barigui, mas lá éramos como as aves migratórias, os novos ocupantes do ambiente, na marra. Hoje o lugar é muito comportado, com gente de todas as classes e não apenas os ousados piás do meu tempo, recompondo a praia possível no uso e na contemplação.

Foi o estágio maloqueiro da infância e da juventude. Felizes, sabíamos, com um secreto orgulho, das transgressões sobre os latifúndios, chácaras, restos de sesmarias, cujos muros e cercas transpúnhamos, enfrentando cães de guarda e tiros de sal (o alvo, a bunda), para roubar os pomares imaginariamente socializados.

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