Um troféu é sempre um troféu

susana-149

Quando o conheci, me fazia rir, me distraía da vida e me contava coisas divertidas e um monte de novidades do passado.
Fazíamos caminhadas, olhávamos flores e apartamentos, árvores e carros, livros e lojas.
Tinha muito café em nossa rotina: em casa, na padaria, no mercado, nos hotéis.
Também passeávamos por restaurantes, auditórios, salas de concerto.
Ele segurou minha mão, beijou minha boca e fez convite.
Aceitei.
Na certeza da rotina e nas declarações que eu era um grande prêmio para sua vida tão cheia de enganos ele esqueceu da regra primeira, de adubar, de regar, de cultivar.
Passei a ser troféu na estante, com coleção de elogios externos que mais serviam para contar suas vontades equívocas de grandes feitos aos amigos.
Um troféu tem graça na hora da disputa, depois vira objeto sem ser notado no meio de tantos outros.
Quando o tempo fez seu trabalho e nossos interesses se dispersaram, me transformei em sucata sem valor, que representava para ele vida fútil, rasa, boba. Bugiganga barata a esperar flanelinha para mostrar brilho depois do polimento.
Taça na prateleira, virei depósito de reclamações, alvo de bolinhas de papel, cesta para jogar os descontentamentos do mundo.
Mas um troféu é sempre um troféu e volta e meia ele me usava para fazer figuração em suas festas, exibir dotes imaginários e afirmar sua conquista.
Um troféu é sempre um troféu, nunca uma mulher, nunca um amor.
Cansei.
Contei das insatisfações, mostrei vida própria, recusei a flanelinha e fiz alguns silêncios, os mais perigosos. Passei a rebater cada reclamação, devolvi as bolinhas de papel e exigi perene cuidado.
Ruídos.
Diante das minhas vontades de eterna conquista, ele só queria arear o metal. Eu, que já não tinha há muito endereço de prateleira, arrombei as portas, saí de casa, joguei as chaves e me deixei ventar.
Ressurreição.
Sou flor que precisa de cuidados, pétala por pétala, para não virar mal-me-quer, mal-te-quero contínuos. Sou natureza viva, sujeita a tempestades e a dias de sol. Sou força e fragilidade, com tudo que o humano carrega. Carne, osso e espírito, nunca metal.
E é bem assim que se chega ao final de uma história.

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