Uma ofegante epidemia

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Dona Ivone Lara, criadora, ao lado de Jorge Aragão, de Enredo do meu samba

As músicas do carnaval nosso de cada dia

 

Se o samba é a carteira de identidade brasileira e o Carnaval é, pelo menos em tese, a sua comemoração máxima, a festa do ritmo, é natural que a temática que envolve a folia dos dias de Momo invada o ano civil, carregue e inspire a MPB com confetes e serpentinas, máscaras e fantasias.

Vamos ao desfile inesgotável do que não sacudiu passarelas, blocos ou salões mas que assumiu todas as alegorias do Carnaval para se misturar às outras possibilidades da música brasileira.

Assis Valente, como sabemos desde a primeira audição, era uma alma que se dedicava ao reparo do entorno, um cronista a relatar suas observações de um jeito muito particular. Em 1938, de frente para a agitação carioca em dias de folia, escreveu Camisa Listrada. A música conta sobre o velho costume masculino de aproveitar os dias de festa para desafiar os psicanalistas de plantão, se vestir de mulher e esquecer de todos compromissos diários. O protagonista, figura importante que tirou do dedo o certificado de doutor para não estremecer sua credibilidade, usou toda a criatividade para estar de fato caracterizado: “Levou meu saco de água quente pra fazer chupeta / Rompeu minha cortina de veludo pra fazer uma saia  / Abriu o guarda-roupa e arrancou minha combinação / E até do cabo de vassoura ele fez um estandarte para seu cordão” e se esbaldou na festa: “Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí / Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati / Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão / E sorria quando o povo dizia: sossega leão, sossega leão”.

Outro que ficou de olho nas fantasias carnavalescas foi Geraldo Pereira, que, sentado no Café Nice no Carnaval de 1944, a conversar com Roberto Martins, foi surpreendido pela mulher do amigo fantasiada de baiana. Apesar de toda indumentária, ela era avessa à folia e o marido observou: “Olha aí, Geraldo, a falsa baiana”. Foi o mote para que o compositor se esbaldasse na causa: “A falsa baiana quando entra no samba / Ninguém se incomoda, ninguém bate palma / Ninguém abre a roda, ninguém grita ôba / Salve a Bahia, senhor”.

E quantos fizeram a analogia entre o amor e o desfile de Carnaval? Muitos! Dona Ivone Lara e Jorge Aragão cantaram em Enredo do Meu Samba as desventuras de um relacionamento a utilizar vários elementos que conhecemos espalhados pelas passarelas:  “Meu coração carnavalesco / Não foi mais que um adereço / Teve um dez em fantasia / Mas perdeu em harmonia / Sei que atravessei um mar de alegorias / Desclassifiquei o amor de tantas alegrias / Agora sei, desfilei sob aplausos da ilusão / E hoje tenho esse samba de amor por comissão / Fim do carnaval, nas cinzas pude perceber / Na apuração perdi você”.

Benito di Paula, o rei da queratina, denunciou a falseta da amada em Retalhos de Cetim: “Ensaiei meu samba o ano inteiro / Comprei surdo e tamborim / Gastei tudo em fantasia / Era só o que eu queria / E ela jurou desfilar pra mim […] Mas chegou o carnaval / E ela não desfilou / Eu chorei na avenida, eu chorei / Não pensei que mentia a cabrocha, que eu tanto amei”.

E Gilson de Souza escreveu, para vários interpretes se aventurarem, Orgulho de um Sambista. O gatilho também é o calote que o protagonista levou da amada: “Você falou que junto comigo não mais desfilava / Se a minha escola perdesse, você não ligava […] Pois trocou nossa escola de tempos / Por um simples amor de três dias / Sufoquei minha dor em sorrisos para não chorar / Tudo isso ajudou minha escola a ganhar / Esse orgulho vou levar comigo pro resto da vida / Me contaram que você chorou quando a passei na avenida”.

Quatro Ases e um Curinga, É com esse que eu vou

Quatro Ases e um Curinga, É com esse que eu vou

A antiga piadinha diz que há malas que chegam de trem; mas há também sambas que vêm pela ferrovia: o trem que ligava Vitória a Belo Horizonte na primeira metade do século passado era lento, paisagem a passar devagar, horas a arrastar viajantes. Cada um passava o tempo como podia e num desses comboios, em 1946, estava Pedro Caetano. O gatilho que lhe serviu de temática foi a ideia de um bloco com o desejo de fazer uma música animada e vibrante sobre o Carnaval. Assim nasceu É com esse que eu vou, que foi lançada pelo Quatro Ases e um Curinga, numa gravação bem como o autor a compôs. Quase três décadas depois, Elis Regina fez nova interpretação que mudou divisão, andamento e harmonia. “É com esse que eu vou sambar até cair no chão / É com esse que eu vou desabafar na multidão / Se ninguém se animar eu vou quebrar meu tamborim / Mas se a turma gostar vai ser pra mim / Quero ver o ronca-ronca da cuíca / Gente pobre, gente rica, deputado, senador / Quebra-quebra que eu quero ver uma cabrocha boa / No piano da patroa, batucando / É com esse que eu vou”.

Sérgio Cabral, onde se junta o futuro, o passado e o presente

Sérgio Cabral, onde se junta o futuro, o passado e o presente

Na segunda metade da década de 1970, Rildo Hora e Sérgio Cabral criaram samba em homenagem à Mangueira. Todo o clima da escola está estampado nas frases da música, em passeio que une o passado, figurado na grandiosa história do lugar: “Carlos Cachaça, o menestrel / Mestre Cartola, o bacharel / Seu Delegado, um dançarino”, ao futuro, representado pelos meninos que ainda começam seu caminhar pela história do samba: “O menino da Mangueira / Recebeu pelo natal / Um pandeiro e uma cuíca / Que lhe deu papai noel / Um mulato sarará, primo-irmão de dona Zica / E o menino da Mangueira / Foi correndo organizar / Uma linda bateria / Carnaval já vem chegando / E tem gente batucando / São os meninos da Mangueira”. O grande momento da composição está justamente onde passado e futuro se encontram, o tempo de um presente simbólico que serve como grande guarda-chuva para tudo que cabe nesse mundo verde e rosa: “E a velha guarda se une aos meninos lá na passarela / Abram alas, que vem ela, a Mangueira toda bela […] E onde é que se junta o passado, o futuro e o presente / Onde o samba é permanente, na Mangueira, minha gente”.

No tom da Mangueira

No tom da Mangueira

As escolas de samba sempre foram prato cheio para inspirar autores. Da elegância do que desfila ao que acontece em cada agremiação, são infindáveis as homenagens: Chão de Esmeraldas (Chico Buarque e Hermínio Bello de Carvalho), Estácio, Holly, Estácio (Luiz Melodia), Sala de Recepção (Cartola), Piano na Mangueira (Tom Jobim e Chico Buarque), Vou de Vai-Vai (Itamar Assumpção), Sei lá, Mangueira (Paulinho da Viola) e a lista é imensa e só cresce…

Se Caetano Veloso nos ensinou que atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, os blocos que formam essa multidão que se esbalda nas frases dos dias de folia têm todo tipo de possibilidades. Fausto Nilo e Moraes Moreira, por exemplo, encontraram um Bloco do Prazer, que não há quem não tenha vontade de se arriscar por ali: “Pra libertar meu coração / Eu quero muito mais / Que o som da marcha lenta / Eu quero um novo balance / O bloco do prazer / Que a multidão comenta / Não quero oito nem oitenta / Eu quero o bloco do prazer / E quem não vai querer?”.

E o Sérgio Sampaio, hein? Cheio de protesto, de esperança, de revolta e denúncia, tudo isso fantasiado de Carnaval: “Há quem diga que eu dormi de touca / Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga / Que eu caí do galho e que não vi saída / Que eu morri de medo quando o pau quebrou […] Eu quero é botar meu bloco na rua / Brincar, botar pra gemer / Eu quero é botar meu bloco na rua / Gingar, pra dar e vender”.

Fernando, Anadir, Dalton e Lápis, o Bitten IV

Fernando, Anadir, Dalton e Lápis, o Bitten IV

Há também a fatia marcha-rancho, que, como ritmo, tem origem nos grupos de sopro das orquestras dos conjuntos de Carnaval. Em muitos casos, não só a composição musical foi importada, mas a temática das letras também, caso de Marcha da quarta-feira de cinzas, de Carlos Lira e Vinicius de Moraes, e Noite dos Mascarados, de Chico Buarque. Em 1970, o Bitten IV, formado por Lápis, Fernando Oliveira, Anadir Salles e Dalton Contin, subiu ao palco da Tupi para concorrer com outras 3.600 músicas no Festival de Músicas de Carnaval do Rio de Janeiro. O resultado? Oitavo lugar. A marcha-rancho Dia de Arlequim, de Lápis e Paulo Vítola, se transformou num orgulho da cidade e numa espécie de manifesto de que por aqui há Carnaval também.

Não há Brasil sem Carnaval, não há Carnaval sem música, não há música sem história, sem vivência, sem mulheres e homens que emprestam suas experiências mais íntimas e subjetivas para que outros possam se descobrir, se reconhecer ou se revelar. E o Carnaval também é um pouco isso: saber-se por uns dias arlequim ou colombina, rei ou pirata, cabrocha ou mestre-sala, para poder encontrar na fantasia explicações, refresco, sonhos, vontades para o real.

Quando a música veste-se de Carnaval em outras épocas é como usar black tie para a pizza de sábado à noite: não muda o gosto da comida, mas confere curiosidade à ocasião e, dependendo, até certo charme, afinal de contas, é assim, de alegria fugaz em alegria fugaz, que se fazem sambas populares…

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