A falta que Belmiro nos faz

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— Condottiere!

— Comendatore!

 

Assim nos tratávamos. Antes de tudo, bom humor. Durante décadas me habituei a ouvir ao telefone a voz de Belmiro Valverde. Por extenso, Belmiro Valverde Jobim Castor, mineiro de Juiz de Fora, formado em Direito no Rio de Janeiro, e paranaense por afeição e raízes robustas que aqui desenvolveu, ao lado de Elizabeth Bettega Castor, as filhas Adriana e Carolina, o neto Leonardo.

Fui aquinhoado interlocutor de Belmiro e com ele aprendi muito. Em todas as áreas. Da economia, política e administração à literatura e à música. Foi colaborador desta revista Ideias desde seu número zero. Integrava o Conselho Editorial.

Não escondo uma ponta de orgulho quando lembro que a Travessa dos Editores publicou sua obra capital: O Brasil não é para amadores. Sem dúvida, o melhor texto disponível para entender esta pátria de chuteiras, esta nação que foi capaz de realizar um dos mais impressionantes processos de crescimento econômico, apesar de suas elites, que navegam em mar raso e cultuam o atraso.

Neste livro, Belmiro Valverde foi às raízes de nossa formação histórica e cultural para mostrar o que a maioria não quer admitir. Já não somos cidadãos do país do futuro. Nos ensinou que devemos nos convencer de que habitamos um país pobre, endividado, vítima constante de governantes despreparados, de uma elite política viciada porque habituada a viver das benesses e prebendas propiciadas pelo estado concentrador.

Beber da cultura de Belmiro Valverde foi um privilégio. Encontrávamo-nos para pôr em dia a conversa e as descobertas. Sempre que possível, Jaime Lerner nos acompanhava. Aprendi muito nessas conversas em torno de boa mesa, bons vinhos e boas lembranças.
Belmiro era o mais preparado dos homens públicos desta área do planeta, de quem o ex-governador Jaime Canet dizia que era o único que o Paraná podia oferecer, sem medo de fazer feio, para compor um ministério.

Não um ministério qualquer, pois Belmiro poderia assumir qualquer um deles e certamente faria mudanças administrativas capitais para melhorar o desempenho da área. Ele, doutor em Administração, Ph.D. pela University of Southern California, que recebeu o Prêmio Henry Reining, para a melhor dissertação no ano acadêmico de 1982.

Aqui foi secretário de Estado do Planejamento por duas vezes e secretário de Estado da Educação. Provou sua capacidade inovadora. Mudou estrutura e métodos administrativos. Enfrentou resistências poderosas dos estamentos que se estabeleceram com seus interesses, muitas vezes sórdidos, desde sempre.

Na iniciativa privada, foi diretor Internacional e diretor Superintendente do Banco Bamerindus do Brasil até 1996.

Mas o que Belmiro mais gostava de fazer era transmitir o que sabia e que não era pouco. Foi professor titular da Universidade Federal do Paraná, aulas interessantíssimas. Nunca a linguagem bacharelesca, empolada, hermética que caracteriza a produção acadêmica. Belmiro sabia contar, tinha estilo, texto invejável. Refinado. Saboroso. Sem comprometer o rigor do conhecimento.

Belmiro morreu no sábado, 29 de março, e deixou essa sensação de orfandade intelectual. Eu confesso que me sinto mais só e agora sem um conselheiro leal e inteligente que me ajudou a enxergar as circunstâncias nos momentos mais difíceis. Foi-se Belmiro, o amigo. E me vem à cabeça a frase inútil, o lugar-comum, inevitável nessas horas.
— Por que Belmiro, meu Deus?

 

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