A ira santa

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A candidatura da senadora Gleisi Hoffmann ao Governo do Paraná foi lançada em grande estilo pelo PT, que organizou um encontro em São José dos Pinhais e para garantir público interno e enquadrá-lo a contento, trouxe a principal atração da turma. O ex-presidente Lula subiu ao palanque, discursou, tripudiou, pediu desculpas ao ex-adversário Osmar Dias e acabou por insultar e ofender outro político, agora ex-aliado, o senador Roberto Requião de Mello e Silva.

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos, mas ficou a mágoa de Requião, que costuma ser um adversário difícil de encarar. E ele já deu mostras de sua disposição de ir à guerra contra o PT e seus comandantes. A começar por Lula, cujo gesto de pedir desculpas por tê-lo apoiado em 2006 classificou de coisa de cafajeste e ingrato. “Isso eu não tolero, vou à guerra”, declarou.

A sensação é a de que Lula não pensou bem o que fazia naquele momento, talvez ainda sob os efeitos do vinho do almoço que teve com empresários para pedir apoio logístico para a campanha de Gleisi Hoffmann, para o governo, e Dilma Rousseff, que tentará a reeleição na Presidência da República.

Até o governador Beto Richa achou estranha a declaração e resolveu opinar. “Lula devolve apoio de Requião em cinco eleições com ingratidão. Memória curta. Esqueceu a lealdade ao apoiar novo aliado.”
Assim falou sobre o pedido de desculpas públicas de Lula para Osmar Dias (PDT) por ter apoiado Roberto Requião (PMDB) nas eleições de 2006. Lula se disse arrependido pelo apoio ao peemedebista que disputou, e venceu, a eleição ao Governo do Paraná contra Osmar Dias. E este saiu à francesa, sem declarar se é ou não é, especialidade sua nas vésperas de eleições.

“Na política há coisas que faço claramente, outras que recuso abertamente, mas repilo ingratidões e canalhice comigo.
Daí é guerra!”
Requião

Ira de Requião

“Na política há coisas que faço claramente, outras que recuso abertamente, mas repilo ingratidões e canalhice comigo. Daí é guerra! Beto é horrível, mas você o trocaria por Delúbio, Gaievski ou Paulo Bernardo? Pense bem!” A declaração é de Requião, que se sente usurpado pelo PT de Gleisi Hoffmann e seu marido, Paulo Bernardo, hoje seu inimigo de estimação.

Gleisi sabia que a reação de Requião seria essa e em entrevista aos jornais do Norte do Estado deixou escapar que não espera mais nada do PMDB. “Acho que nós vivemos um momento conjuntural em que o PMDB está se posicionando do outro lado”, disse a petista. Gleisi criticou a convocação dos ministros, articulada pelo PMDB, na Câmara dos Deputados.

“Penso que isso só depõe contra a classe política. Acho que os deputados, tanto do PMDB quanto do PT, precisam ser muito cautelosos para que isso não vá contra aos próprios políticos.” Na verdade, sentia-se atingida pela convocação do marido, Paulo Bernardo.

Já os deputados federais do PMDB do Paraná descartam Gleisi e acreditam apenas na candidatura própria ou no alinhamento com o PSDB. “Nem se cogita a possibilidade de aliança com o PT no Paraná”, disse o deputado João Arruda, que é sobrinho de Requião e cujas palavras sempre são associadas ao posicionamento do senador.

Ilegalidade: Lula lança a candidatura de Gleisi Hoffmann ao governo, saúda Osmar Dias como aliado e pede desculpas por ter apoiado Requião na eleição de 2006. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Ilegalidade: Lula lança a candidatura de Gleisi Hoffmann ao governo, saúda Osmar Dias como aliado e pede desculpas por ter apoiado Requião na eleição de 2006. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

O presidente do PMDB, deputado Osmar Serraglio, é um dos maiores defensores da coligação para a reeleição de Richa. Segue, dessa forma, o gesto de um dos mais experientes políticos brasileiros, o gaúcho Pedro Simon, que afirma que a aliança do PMDB com o PT para manter Michel Temer como vice de Dilma Rousseff está sufocando o partido.

Hoje, com planos de deixar a vida pública no final do ano, Simon vê com ceticismo a ameaça do seu partido de deixar o barco petista e romper a aliança com Dilma: “Podia até ter o rompimento, mas a expectativa dos cargos é muito grande para mudar de lado. Hoje o governo está tão misturado ao PMDB que não é fácil em uma convenção querer mudar os rumos”.

Simon afirma não simpatizar com o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), líder da bancada na Câmara, que comanda uma rebelião na base governista. Mas admite méritos ao colega pelas derrotas impostas ao Palácio do Planalto: “É o tipo da coisa que nunca se conseguiu mexer. Mas ele jamais vai ser meu representante, não identifico nele coisa nenhuma”.

O PMDB do Rio Grande do Sul escolheu seu candidato ao governo gaúcho. Chama-se José Ivo Sartori. Foi prefeito da cidade de Caxias do Sul. Prevaleceu na disputa interna sobre Paulo Ziulkoski, presidente da Convenção Nacional dos Municípios. Abriu uma vantagem de 72% dos votos: 994 a 374.

Sartori é apoiado pelo pedaço do PMDB estadual que se opõe à aliança nacional com o PT de Dilma Rousseff. Deve abrir seu palanque para um dos antagonistas dela: Aécio Neves (PSDB) ou Eduardo Campos (PSB). Na sucessão de 2010, o PMDB gaúcho apoiou o tucano José Serra.

Pedro Simon, um dos mais experientes políticos brasileiros, afirma que a aliança do PMDB com o PT está sufocando o partido

Requião no ataque

A verdade é que o convescote do PT acabou por provocar a ira de Requião e o colocou no ataque. Munição não lhe falta. O PT tem dado contribuições significativas para a sua própria derrota. Seu principal operador no Paraná em todas as eleições anteriores, Henrique Pizzolato é o mensaleiro que fugiu para a Itália para não cumprir a condenação do Supremo Tribunal Federal.

Há assunto mais escabroso. Continua preso o ex-prefeito de Realeza, braço direito de Gleisi Hoffmann na Casa Civil, Eduardo Gaievski, que é acusado de pedofilia. Abusou de meninas de até seis anos de idade quando era prefeito.

Termo de Vistoria do Ministério Público: carne de carneiro, transportada em carro da Secretaria de Educação de Peabiru, foi paga com dinheiro público da merenda escolar do município.

Termo de Vistoria do Ministério Público: carne de carneiro, transportada em carro da Secretaria de Educação de Peabiru, foi paga com dinheiro público da merenda escolar do município.

Além disso, o Tribunal de Contas recusou os recursos e manteve a condenação de Lygia Pupatto (PT) por irregularidades na compra de computadores durante a sua gestão na Secretaria de Ciência e Tecnologia. O Tribunal encontrou irregularidades na compra de 8.435 computadores para equipar as universidades estaduais. O valor total da aquisição, realizada por meio do pregão eletrônico, somou R$ 11,17 milhões.

A principal irregularidade, apontada em 2010 pelos técnicos do TCE, foi a compra de 905 computadores além do número autorizado pelo governo estadual, que havia sido de 7.530 unidades. Isso resultou em um acréscimo de R$ 1,31 milhão no gasto total. As outras foram a abertura do pregão cinco dias antes da autorização formal do governador e a falta de publicidade da licitação: não houve publicação do edital do pregão eletrônico e do respectivo extrato da ata de preços registrados.

E para completar a lambança petista, surgiu a denúncia do carneiro, que correu como rastilho de pólvora nas redes sociais. Acontece que o prefeito de Peabiru, Claudinei Antonio Minchio (PT), deverá explicar como foi adquirido e qual era o destino de um lote de carne de carneiro temperada localizado no interior de uma Kombi da Secretaria Municipal de Saúde da cidade, utilizada para transporte de pacientes.

O Ministério Público de Peabiru flagrou o transporte irregular da carne ao realizar uma operação embasada em denúncia que informava que a carne encontrada fora adquirida com recursos destinados à merenda escolar do município e seria transportada para Curitiba, onde seria servida em almoço oferecido ao ex-presidente Lula, preparada como “Carneiro ao Vinho”, prato típico de Peabiru.

A informação foi desmentida pelo diretório estadual do PT que em nota afirmou ser “absolutamente fantasiosa, em toda a sua íntegra, a publicação”. Apesar do desmentido, o Ministério Público lavrou um Termo de Vistoria durante a operação e deu prazo de dez dias para que a prefeitura apresente explicações.

O documento do MP, assinado pelo promotor André Del Grossi Assumpção, confirma a operação, motivada por denúncia. O procedimento foi registrado no MP de Peabiru, contendo várias fotos do lote de carne localizado e das duas Kombis da prefeitura vistoriadas. Servidores da prefeitura ouvidos pelo promotor alegaram que os veículos estavam emprestados à Secretaria de Administração e que a carne seria destinada “a preparação do prato típico da cidade por ocasião de determinada reunião governamental”. Não conseguiram informar o local da “reunião governamental” e nem apresentaram notas fiscais da compra da carne.

Como se vê, a campanha eleitoral será quente e cheia de denúncias. Requião deverá participar como livre atirador. Mas desde já com alvos preferidos e declarados. O PT e sua turma, de Gleisi Hoffmann a seu marido, Paulo Bernardo. Sem esquecer de Lula, Delúbio, Gaievski, Pizzolato, Gilbertinho Camargo et caterva. Quem mandou mexer com vara curta?

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