A turma do jazz e os dez anos sem Jorginho Guinle

jorge

Você gosta de Charlie Parker? Quem? Eu não fazia ideia de quem era Charlie Parker. A pergunta me humilhou. Isso já tem muito tempo. Mas a verdade é que até hoje eu tenho certo medo de conversar com quem entende de jazz. É uma turma que se acha superior. E eu suponho que de fato seja mesmo. Da minha parte, pouco sei de Billie Holiday ou Louis Armstrong. Não faço ideia da diferença entre cool jazz e jazz fusion. Ainda assim, certa vez resolvi arriscar. Em um bar com amigos que entendiam do tema, disse, com todo o comedimento que se aconselha aos neófitos: Bacana este jazz. Isso é blues, me corrigiu um amigo. Nunca mais me meti a dar palpite.

O mais perto que eu chego do jazz é pela Bossa nova. São parentes, costuma dizer Ruy Castro. De jazz — ou de blues — eu nunca entendi nada. Mas no Brasil tem gente que entende de jazz? Alguns, suponho. Mas nosso maior nome do jazz era Jorginho Guinle. Nunca tocou saxofone ou qualquer outro instrumento, mas conviveu com os jazzistas americanos e escreveu um livro sobre o tema: Jazz Panorama (lançado em 1959 e reeditado em 2002, pela José Olympio). A apresentação é de Vinicius de Moraes: “De Jorge Guinle posso dizer que ninguém no Brasil, e muito pouca gente no mundo, possui a sua cultura e o seu cabedal jazzístico”. Há outros livros brasileiros sobre jazz (Sergio Porto tinha um). Mas só mesmo Jorginho podia dizer que viveu o jazz americano.

Jorginho morou nos Estados Unidos. Passou longos períodos em Nova Orleans (cidade que está para o jazz como o Rio está para a Bossa nova). Assistiu ao vivo aos grandes nomes, inclusive Charlie Parker (aquele de quem eu não ouvira falar). Conviveu com Billie Holiday e Louis Armstrong. E também com Stan Getz — o tal que gravou “Desafinado”, de Tom Jobim, nos Estados Unidos (Ruy Castro a me contar, é óbvio). No tempo em que passou em Los Angeles, tinha um grupo de amigos para ouvir jazz, frequentado por Orson Welles e pelo próprio Vinicius, à época morando por lá como diplomata brasileiro.

A propósito, grande vida teve Jorginho Guinle. Muitos dizem que o brasileiro mais bem-sucedido fora do Brasil foi Ruy Barbosa, por conta da atuação na Conferência da Paz, em Haia. Respeito, é claro, os admiradores de Ruy. Mas para mim o mais bem-sucedido foi Jorginho Guinle. Lá fora ninguém sabia o que era o Brasil na metade do século vinte. Sem nenhum talento específico, baixa estatura e apenas um bom dinheiro, Jorginho esteve não apenas com os maiores nomes do jazz. Conviveu com Marilyn Monroe, Rita Hayworth, Kim Novak, Ava Gardner, Marlene Dietrich e, entre outras, Greta Garbo. E o mais impressionante: namorou algumas delas.

Jorginho era nosso embaixador cultural nos Estados Unidos. Por algum tempo, aliás, foi relações públicas do Brasil nos Estados Unidos, nomeado por Getúlio Vargas. Era amigo do pai de John Kennedy. E de Nelson Rockfeller. Conheceu cinco presidentes americanos. Conhecia tudo mundo. Foi o único brasileiro convidado para o casamento de Grace Kelly com o príncipe Rainier, em Monte Carlo.

Os críticos de Jorginho Guinle acham que não passou de um playboy que torrou a fortuna da família. Em primeiro lugar, Jorginho não pode ser colocado no mesmo time de outros playboys, como Baby Pignatari ou Rubirosa, para citar um exemplar internacional. E pelo amor de Deus, não vale citar o jeca do Chiquinho Scarpa. Jorginho era outro mundo. Sabia das coisas, como disse Vinicius, referindo-se ao conhecimento cultural de Jorginho. Conhecia política. Dizia-se marxista. Estudou filosofia no Collège de France. E torrar a fortuna da família não me parece uma acusação. Hedonista confesso, gastou vinte milhões de dólares sem nunca ter trabalhado. Seu empenho estava apenas em se divertir, como ele tratou de contar em sua biografia: Um século de Boa Vida (Editora Globo). Um pouco mal escrita, reconheço, mas deliciosamente narcisista.

No final da vida a grana acabou. A parcela sádica da natureza humana fez alguns vibrarem com a dureza de Jorginho. Pura bobagem. Jorginho não ficou ao relento. Ajudado por amigos, manteve uma boa vida no Rio de Janeiro.

Em 2003 eu estava a trabalho no Rio. Li no finado Jornal do Brasil a programação do Tim Festival. Entre as atrações de jazz, o saxofonista Illinois Jacquet. Eu sabia quem era? Claro que não. Nunca tinha ouvido falar. O que me chamou a atenção foi a anunciada presença de Jorginho Guinle, então com 87 anos. Não tive dúvida. Comprei um ingresso e fui ao Tim Festival, na Marina da Glória. A tenda do show era pequena e lá estava Jorginho Guinle, tomando uma dose de uísque com os amigos. A plateia ligada no show do tal Illinois Jacquet; eu me detive mais em Jorginho. Morreu apenas alguns meses depois. E soube morrer como poucos, na suíte 153 do Copacabana Palace — hotel construído pela família Guinle.

Como li dias depois, Jorginho teve o diagnóstico de um aneurisma. Preferiu não ser operado. Assinou um termo de responsabilidade, beijou a mão do médico e, ateu que era, disse: “Eu vou para o céu. É o Copacabana Palace”. No hotel, jantou um estrogonofe de frango e pediu um sorvete de framboesa de sobremesa. Subiu, ouviu música e morreu antes de amanhecer. Pediu à filha que fizesse constar sobre o túmulo apenas um “aqui jazz”. Há exatos dez anos Jorginho jaz no Cemitério São João Batista, na zona sul do Rio de Janeiro. Indo ao Rio, acho que vou passar lá e deixar algumas flores.

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