Arnesto e o Barão

1999

A ala dos mais decepcionados bateu forte, disse que o aristocrático DNA do Barão Philippe de Nicolay Rothschild não resistiu – há pouco tempo morando em São Paulo já incorporou, no tamborim e no pé, o costume lamentado no Samba do Arnesto, aquele que deu o bolo na turma convocada para uma festa no Braz. Dar o bolo, vide Aurélio, é não comparecer, deixar plantados os convidados. Pois foi assim. E olhe que o encontro havia sido planejado no detalhe, vigorosa mobilização mal ele comunicou o desejo de se reunir em Curitiba com um grupo de apreciadores de bons vinhos. O Barão Philippe de Rothschild vem de uma dinastia fundadora da poderosa rede bancária hoje presente em 43 países. É membro do board da instituição. O pessoal, entretanto, não estava aí para esse seu lado, o do financista, mas em outro, um negócio que deve ter como secundário, a propriedade em Bordeaux do Château Mouton Rothschild, que divide com os dois irmãos e um primo.

O Mouton dispensa apresentações, tem excelência e história. A classificação dos vinhos de Bordeaux, lançada em 1855, considerou-o um segundo grand cru. Os primeiros, na pole position, eram apenas quatro. A casa nunca aceitou, achava imerecida, vexatória a posição.

Repleta de intrigas e lances curiosos, divertidos até, a batalha para reverter a decisão durou mais de um século. O maior obstáculo sempre foi o veto à ascensão oposto por um dos quatro, o Château Lafite, que é também Rothschild, mas de outro ramo. As antigas desavenças somente foram superadas em época recente, por obra de um casamento entre membros dos dois clãs. Abertas as portas, o Mouton enfim ascendeu em 1973 à seleta primeira linha por decreto do então presidente francês Georges Pompidou, essa a única mudança até hoje havida na classificação de 1855.

Além da concórdia, a paz trouxe prosperidade ao reino dos Rothschilds. Passaram a investir em projetos comuns, como o da compra de vinhedos em Champagne, onde já iniciaram a produção de vinhos borbulhantes fadados a ombrear com os melhores (a marca é Barons de Rothschild e já está no mercado). As primeiras vindas do Barão ao Brasil foram a trabalho.

Mas aí conheceu Trancoso, no litoral baiano, lugar pelo qual se apaixonou a ponto de lá construir casa à beira-mar. E logo outra paixão brasileira: Cris Lotaif, diretora da Dior, com quem se casou, fixando residência em São Paulo. Cuida da importação dos vinhos da família através da BR Bebidas, empresa por ele criada que está elegendo, em cada capital, uma loja para representá-la. Curitiba e Brasília serão os próximos passos.

O encontro, portanto, estava ligado também ao interesse de tatear o mercado local, num almoço desses sem hora para acabar, com oito participantes, cada qual levando uma garrafa bem escolhida. E como o Barão logo adiantou que viria com um Chateau Lafite de bom ano, a reação foi à altura. A pretexto de homenagear a pátria dos Rothschilds, a seleção de vinhos incluía apenas borgonhas e bordaleses, o que foi mesmo pretexto – em qualquer situação esses seriam os preferidos. A montagem do cardápio quase enlouqueceu a cozinha do Durski, já que seguiu ordem inversa, os pratos é que deveriam combinar com os vinhos, nada de temperos que encobrissem o brilho das taças. No dia e hora marcados, tudo impecável, todos lá, menos o Barão. Chega então a notícia: ele se desculpava, não viria, preso à enfermaria por culpa do indigesto repasto da véspera. Não o tivemos, mas sempre teremos a França. Os vinhos estavam magníficos, os pratos idem, o nobre ausente alvo de incontáveis brindes pela ideia desse memorável encontro. Adoniram Barbosa, autor do samba, conta na letra que a turma ficou com “uma baita de uma reiva” do Arnesto, prometendo que de outra vez “nóis num vai mais”. Pois ninguém ficou com raiva, Barão. Marque outra. Nóis vai, pode crer.

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