Com açúcar, com afeto

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Ninguém pode dizer quantas vezes aquele caderninho foi aberto. Centenas de vezes. Milhares, quem sabe? Há páginas que denunciam o uso pelas nódoas. Marcas onde o papel fica transparente do óleo ou amarelinho da gema. Algumas folhas são enfarinhadas como a massa de macarrão que descrevem, passo-a-passo.
A capa do caderno é dessas rajadinhas, tipo pedra granito, daquelas que não se vê mais, exceto em livro-caixa de venda de interior. Pelo menos no que eu imagino sejam as vendas do interior.

img_01351O recheio de receitas, copiadas com letra bonita, conta a história das aulas de caligrafia à caneta tinteiro e mata-borrão de outros tempos. Letra de professora.
E as receitas são um mundo mágico de lembranças açucaradas, de gostos e aromas, de comadres e vizinhas, de costumes e infâncias. Passados de mães para filhas, cadernos de receita eram como álbuns de retrato da família. Afinal, há pouco da nossa vida que escape aos rituais da comida.

São obras de arte em extinção, esses pequenos documentos da memória gastronômica nacional. Nossa tradição culinária restará talvez nos livros de receita, que não guardam com tanta graça nem tanto detalhe as peculiaridades da cozinha caseira. Não levarão aos netos as nódoas de gema de ovos que marcavam as melhores receitas, ou os títulos que homenageavam os autores dos quitutes. Empadão da Dona Sônia, Sonhos da Vó Erminda e por aí vai.

Não que alguém se importe. Quase ninguém cozinha hoje em dia. Há uma moda gastronômica, isso lá é verdade, mas toda cheia de firulas e aparatos. Todos querem aprender a fazer risoto e a enrolar sushi. Pouco interesse sobra para a cozinha diária, do arroz com feijão. Ninguém tem tempo para isso, melhor mesmo é comer no quilo ou preparar aquela lasanha de micro-ondas, não é verdade? É só noventa por cento da sua vida comendo mal.

Divago. Voltando aos livros de receita, não têm aquela graça pessoal dos caderninhos da vovó, mas são, ainda assim, os arquivos das tradições alimentares dos povos mundo afora.
Houve um tempo em que os livros de culinária eram mais do que manuais, também se prestavam à memória gastronômica. Os maiores ainda são esses, os escritos como reminiscências ou biografias, de La Varenne, Carême, Escoffier, Alexandre Dumas, Brillat-Savarin e até Petrônio.

Os livros desses gênios são como aquele caderninho de receitas da vovó, cheios de histórias para contar, mas de mesas como as dos imperadores romanos, a de Talleyrand-Périgord, do Kaiser Guilherme II ou dos hotéis Savoy e Ritz em pleno auge.
Desta mistura de comida e história surgiram a pizza Marguerita, os biscoitos Garibaldi e até os mexilhões do banquete de suicídio de Satíricon.

Nada parecido com o que se encontra hoje nos livros de receitas. Livretos cheios de fotos desfocadas e com regras passo-a-passo para idiota nenhum botar defeito.
Verdadeiro aglomerado de regrinhas de como medir o açúcar e a farinha para cozinhar a verdadeira comida chinesa inventada nos Estados Unidos na sua própria casa em apenas 15 minutos.

O caderninho e suas histórias se perderam no tempo, assim como as comadres e as vizinhas. Sobrou o micro-ondas.

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