Feliz, sem final

susana

Imagem: Cazzanga batista, città alta

 

Eu sabia que acontecia alguma coisa. Você não mudava o tom da voz, não fazia gestos, não olhava. Mas eu sabia que alguma coisa acontecia: meu coração aos pulos, boca seca, pensamentos constantes. Censura.

No começo recebia poesias. Distribuía-as em meu cotidiano como disfarce, bálsamo para o sufoco dos dias difíceis. Hoje sei que elas também eram isca em ponta de anzol, se não lançassem novidades a respeito das intenções, serviriam como ponte de conversa, horas de debates, comparações, descobertas e comentários. A certeza do assunto, cortinas abertas para falar de amor, de belezas.

Quando você se distraía e mandava sinal claro de vontade, imediatamente retomava a dignidade de estátua, desviava olhar e se recolhia em pensamentos. A falta de coragem, o respeito demasiado, a timidez em formol.

Eu não sabia mas você tentava, de longe, acompanhar meus passos enquanto eu corria pela cidade: olhos de harpia em meus movimentos que você disse de gazela. A distância nublava paisagem e o que era simples e de fácil explicação, se transformava em pesadelo, corpo em sofrimento, noites de imprecação.

Súbita ocorrência transformou a paisagem. Você bateu na mesa, rasgou os pudores e transformou os tormentos em ação de ciúme. Cartas à mostra.

Os meses de contemplação em silêncio me fizeram, maravilhada, abrir os olhos e entender do amor, decifrar as palavras que não se narravam, reconhecer os movimentos do espírito.
A maçã continuava na árvore e porque espalhamos vinho ao redor, permitimos que tudo fosse dito e traçamos planos e descobrimos vontades e planejamos futuro e vivemos o presente e atropelamos as regras e mordemos a fruta.

Nos jogamos em poço sem fundo, em amor absoluto para recomeçar a cada suspiro, sentir o corpo vivo e a satisfação de voz trêmula na poesia do início. Virei princesa e entendi o sublime.

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