Os franceses

predio

Quem assistiu ao filme Amour do diretor Michael Haneke teve um exemplo clássico de como os franceses são práticos e desprezam o sentimentalismo estéril. Certamente saberão do que eu estou falando. O negócio deles é resolver o problema sem incomodar ninguém. Pois bem! Como em todo mundo, a moradia própria e a sobrevivência com dignidade na aposentadoria são problemas que atingem duas faixas contrapostas de idade: os mais jovens e os velhos. Dizem que o brasileiro é criativo, tem jeitinho pra tudo e coisa e tal. Mentira. Os franceses é que são os espertos. Será?

nicholasjonesBom, certo dia em Paris, um corretor de imóvel encontrou uma solução inteligente para matar dois coelhos com uma só cajadada: propiciar aos mais jovens a aquisição da casa própria pela metade do preço e aos velhos uma aposentadoria reforçada e mais digna. A modalidade da transação chama-se en viager. Pois é, criaram o tal de viager porque, acreditem ou não, tinha gente morrendo e deixando seus imóveis caríssimos pro Estado — simplesmente por não terem herdeiros. O negócio é o seguinte: você, que quer comprar sua casa, mas não tem todo o dinheiro, pode então propor a um idoso que possui um imóvel próprio no valor de, digamos, € 500.000,00, a compra do mesmo por menos da metade, ou seja, por € 200.000,00 de entrada e ficar pagando € 1.500,00 mensais até que ele venha a falecer. Enquanto isso, o vetusto proprietário poderá permanecer no imóvel até o seu passamento e ainda por cima reforçar sua aposentadoria, melhorando assim o seu padrão vida e ainda podendo usar o valor de entrada para viajar e gozar de outros prazeres que são impossíveis de usufruir com a miserável pensão que recebe como aposentadoria. A parte chata do negócio é que você certamente ficará torcendo para o proprietário bater as botas o quanto antes para, finalmente, poder se instalar no seu lar doce lar. Até aí tudo certo, pois afinal todo mundo sairá ganhando. Será?

O problema é que o viager pode se tornar um risco enorme para quem compra. A França tem uma legião de velhos fortes e saudáveis que sobem e descem diariamente as escadarias de metrôs, andam pra cima e pra baixo sem muita dificuldade, alimentação de grande qualidade e ainda o “péssimo” hábito de praticarem atividades intelectuais, o que lhes dá uma boa longevidade. O certo é que você não sabe quantos anos o proprietário ainda vai viver. Há um caso famoso e emblemático na França que faz pensar duas vezes antes de investir num negócio desses. Jeanne Calment, uma viúva de 90 anos que já tinha sepultado a única filha e o único neto, vendeu a sua casa para um casal (o homem tinha 47 anos na época) e recebia todos os meses uma boa quantia. Trinta anos depois, o azarado comprador faleceu aos 77 anos, e a danada continuava viva e esbanjando saúde. Dizem que ainda se locomovia de bicicleta aos 100 anos e só parou de andar aos 115. A infeliz viúva do comprador teve que continuar pagando as mensalidades até que a “irritante” Jeanne falecesse, aos 122 anos de idade na qualidade de mulher mais velha do planeta. No final, a casa custou mais de duas vezes o valor negociado. Obviamente o caso virou piada de mau gosto e o viager entrou em decadência no mercado imobiliário, mas o tempo passou e a prática continua.

É divertido ler os anúncios de viager nos jornais parisienses. Além da descrição tradicional, tem em destaque, a idade dos proprietários: “Apartamento de 2 quartos em Paris, 60m², vista para a Torre, homem de 78 anos”. O histórico médico é fácil de descobrir. Basta visitar o apartamento e bater um papo “sincero” com o dono. É claro que para mostrar que o imóvel é um excelente negócio, os proprietários, orientados por um esperto corretor, contam com que frequência visitam o hospital e os problemas de saúde de que padecem… É como se dissessem: “Amigo, já tive um AVC, dois infartos nos últimos anos e o meu colesterol está explodindo! Pode assinar o contrato que você certamente vai se dar bem!”. E você? Assinaria?

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