Pagus indignadas em palanques

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As mulheres que amam a liberdade

 

Donas do próprio nariz, resolvidas com suas escolhas e a deixar para trás qualquer culpa por julgamentos alheios, há na MPB um time interessante de personagens que avança a caminhada com a cabeça levantada e o olhar atento às próprias vontades.

A liberdade feminina aqui não segue estudos, não acompanha o chato do politicamente correto e nem tem vontade de servir de estereótipo para as mudanças da sociedade, ela só vive arbítrios peculiares e inunda a música nacional com humor e a certeza de que regem suas vidas de acordo com a própria batuta.

A primeira a ser lembrada é justamente aquela que está separada por estrofe da que ganhou o troféu de submissa da MPB. Em Saudades da Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago, a mulher que leva todas as pratas de um homem que morre de saudade de outra, mas que mesmo assim continua a viver esse amor, aparece logo no início: “Nunca vi fazer tanta exigência / Nem fazer o que você me faz / Você não sabe o que é consciência / Nem vê que eu sou um pobre rapaz / Você só pensa em luxo e riqueza / Tudo o que você vê, você quer”. A rival de Amélia vive a própria vida, dá adeus aos sonhos de seu admirador e não tem problemas em assumir suas vaidades. O interessante é que esse homem, sofredor e saudosista, apesar dos lamentos, continua com ela. Ora!, se Amélia é que era mulher de verdade, por que não ficou com ela ou procurou outra de semelhantes características?

Outra que desperta o desespero masculino é A Rosa, parceria de Chico Buarque e Djavan. Cheia de contradições, faz o que lhe dá na veneta e deixa seu apaixonado a seguir, com amor e redenção, seus rastros confusos: “Arrasa o meu projeto de vida / Querida, estrela do meu caminho / Espinho cravado em minha garganta, garganta / A santa às vezes troca meu nome, e some / E some nas altas da madrugada […] Ah, Rosa, e o meu projeto de vida? / Bandida, cadê minha estrela-guia? / Vadia, me esquece na noite escura / Mas jura / Me jura que um dia volta pra casa”.

E quem é essa de Totalmente Demais que Caetano Veloso cantou ao emprestar a composição de Tavinho Paes, Arnaldo Brandão, Robério Rafael? Com o apetite sexual completamente livre, ela, ao mesmo tempo em que puxa a curiosidade de quem passa, estampa as liberdades adquiridas nas décadas de 1960 e 70: “Esperta como ninguém / Só vai na boa / Só se dá bem! / Na lua cheia tá doida / Apaixonada, não sei por quem / Agitou um broto a mais / Nem pensou, curtiu Já foi! / Foi só pra relaxar / Totalmente demais”.

E as Frenéticas? Lá no auge da discoteca, no tempo totalmente demais das febres cariocas e da facilidade do exercício do erotismo, elas surgiram como garçonetes de boa sacada comercial de Nelson Motta e não demorou muito a ganharem palcos, discos, rádios, TVs, sempre a explorar com dose de humor e sensualidade os limites do que poderiam cantar as donas de casa, as professorinhas, as meninas e as liberadas em geral. A música que as apresentou ao Brasil é uma parceria entre Roberto de Carvalho, Rita Lee e Nelson Motta, Perigosa: “Eu sei que eu sou bonita e gostosa / E sei que você me olha e me quer / Eu sou uma fera de pele macia / Cuidado, garoto, eu sou perigosa! / Eu posso te dar um pouco de fogo / Eu posso prender você, meu escravo / Eu faço você feliz e sem medo / Eu vou fazer você ficar louco, muito louco / Dentro de mim”.

Há, houve e sempre haverá em qualquer lugar do planeta azulzinho as mulheres que contestam a condição, sina ou destino de rainha do lar. Elas estão a pensar em outras paradas, a planejar a vida diferente, a querer emoções mais fortes. Elas têm sangue vibrante que pulsa das veias pras ruas, do lar para o bar, do cárcere para a liberdade. Elas não têm medo de trocar o que muitas se esforçaram para ter, são corajosas que assinam a própria alforria e se jogam em seus desejos.

Wilson Batista, que criou ao lado de Ataulfo Alves, Ó Seu Oscar. Foto: Divulgação

Wilson Batista, que criou ao lado de Ataulfo Alves, Ó Seu Oscar. Foto: Divulgação

Lá pela década de 1940, a gíria carioca batizava como Oscar o marido estulto e ingênuo e foi esse o nome que Ataulfo Alves usou para batizar o sofredor de Ó Seu Oscar, composição que originalmente se chamaria Está fazendo meia hora. O parceiro, Wilson Batista, deu a ideia do retrato do drama doméstico e os dois se dividiram em letra e música que conta a historinha de uma dona que larga tudo e se entrega a outros prazeres: “Cheguei cansado do trabalho / Logo a vizinha me chamou: / Ó Seu Oscar / Tá fazendo meia hora / Que a sua mulher foi embora / E um bilhete dei-xou / (Meu Deus que horror!) / O bilhete assim dizia: / Não posso mais. Eu quero é viver na orgia!”.

Outra que anunciou a partida de casa, mas essa sem contar o que ia fazer, foi a mulher de outro marido tolo, o Mané, que Adoniran Barbosa criou a também pensar em crônica cotidiana: Inês sai de casa para comprar pavio para o lampião e deixa o marido à beira do fogão a esquentar água para o café de todo dia. A demora faz com que ele se desespere e, do hospital à polícia, revire a cidade em busca da amada. Qual o quê? Só na volta a verdade se revela em bilhetinho sem muitos pormenores: “Voltei pra casa triste demais / O que Inês me fez não se faz / E no chão bem perto do fogão / Encontrei um papel escrito assim: / – Pode apagar o fogo, Mané. Eu não volto mais”.

Riachão: Ela quer me ver bem mal, vá morar com o diabo que é imortal! Foto: Divulgação

Riachão: Ela quer me ver bem mal, vá morar com o diabo que é imortal! Foto: Divulgação

Há ainda aquelas que fixam o pé mas não aceitam as obrigações, o bônus sem ônus como cantou Riachão em Vá morar com o diabo, a sina do marido à beira de um ataque de nervos: “A nega lá em casa não quer trabalhar / Se a panela tá suja ela não quer lavar […] Se o lixo tá no canto não quer apanhar / E pra varrer o barracão eu tenho que pagar […] A esteira que ela dorme não quer enrolar / Quer agora um cadilac para passear / Ela quer me ver bem mal  / Vá morar com o diabo que é imortal”.

A protagonista de O X do Problema não se deixa seduzir por nada. Não há tentação, oferta ou promessa que a faça largar o que lhe prende e liberta: “Você tem vontade que eu abandone o largo de Estácio / Pra ser a rainha de um grande palácio / E dar um banquete uma vez por semana / Nasci no Estácio não posso mudar minha massa de sangue / Você pode ver que palmeira do mangue / Não vive na areia de Copacabana”.

Patrícia Rehder Galvão, escritora e jornalista, que, entre outras, entrou para história como a primeira mulher a ser presa no Brasil por causas políticas, ficou conhecida como Pagu. E como Pagu inspirou outras tantas mulheres em causas feministas, em causas comunistas, em causas modernistas, em causas agrárias, em causas teatrais, em tantas causas que é impossível citá-las e às vezes até aceitá-las, a que cabe aqui foi a trajada por Rita Lee e Zélia Duncan, em canção que leva o nome da musa, Pagu. E é com essa representante desse e de outros tempos que essa coluna rosa-choque, sem provocação, chega ao final: “Mexo, remexo na inquisição / Só quem já morreu na fogueira / Sabe o que é ser carvão / Eu sou pau pra toda obra / Deus dá asas à minha cobra / Minha força não é bruta / Não sou freira nem sou puta / Porque nem toda feiticeira é corcunda / Nem toda brasileira é bunda / Meu peito não é de silicone / Sou mais macho / Que muito homem […] Sou rainha do meu tanque / Sou Pagu indignada no palanque”.

Patrícia Rehder Galvão, Pagu, musa de muitas causas. Foto: Divulgação

Patrícia Rehder Galvão, Pagu, musa de muitas causas. Foto: Divulgação

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