Saudades do Brasil

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Tenho a impressão que o Brasil já foi um lugar bem melhor onde viver.
Escrevi que tenho ‘a impressão’ e não ‘a certeza’ porque, tendo eu chegado àquela idade em que não mais me constranjo em admitir que um certo pragmatismo urgente e egoísta me fez abandonar algumas de minhas mais caras ilusões, percebo também, ao mesmo tempo, que — como costuma acontecer com os idosos — ando a mitificar meu passado ainda recente, e, assim, numa comparação talvez injusta, desvalorizo o dia a dia presente aqui da pátria amada.

Mas, cá pra nós, é possível, em sã consciência, valorizar o momento presente que vivemos no Brasil?
De que adianta termos uma das dez maiores economias do planeta se continuamos entre os últimos colocados no ranking dos países com os piores índices de desenvolvimento humano? Como admitir o vergonhoso desempenho de nossos serviços públicos de saúde, educação e segurança se, ao mesmo tempo, pagamos impostos altíssimos, entre os mais elevados do mundo?
Como podemos viver bem aqui sabendo que são assassinadas mais de 50 mil pessoas por ano e que outro tanto morre em acidentes no trânsito caótico de nossas cidades e em nossas péssimas estradas?
O que podemos esperar, no curto prazo, de nossa medíocre e corrupta classe política?

Não consigo citar o nome de nenhum político atuante hoje que me pareça capaz de assumir o poder e consiga, ao menos, lançar as bases para que se encontrem as soluções para nossos enormes problemas estruturais. Admito que essa não é uma tarefa fácil, bem ao contrário, é dificílima, justamente pelo altíssimo nível de corrupção, clientelismo e corporativismo atualmente incrustados em nossas instituições.

Aqui cabe um parêntese: a bem da verdade, nunca tivemos uma mesma geração de políticos honestos, competentes e habilidosos em quantidade suficiente para, ao compararmos nosso presente com este momento inexistente de nosso passado histórico, podermos dizer algo como ‘naquela época sim era bom’.

Mas e na área da cultura? O que dizer de nosso presente quando comparamos nosso quadro atual com o de nosso passado recente?
Quem são hoje os nossos Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Pedro Nava, Otto Lara Rezende, Manoel Bandeira, Clarice Lispector, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, para citar só alguns dos mais conhecidos?
Quem são os novos Gilberto Freire, Sergio Buarque de Holanda, Roberto Campos, Mario Henrique Simonsen, Raimundo Faoro?
E os novos Tom Jobim, Millôr Fernandes, Ivan Lessa e Paulo Francis?

Não se constrói uma nação livre e desenvolvida sem a contribuição social, intelectual e política de seguidas gerações de cidadãos capacitados, livres e conscientes de suas obrigações com a sociedade. No Brasil de hoje estamos mesmo priorizando os investimentos na capacitação de nossa juventude ou nossas ‘melhores’ universidades públicas estão sucateadas e totalmente aparelhadas politicamente e utilizadas como centros de difusão de retrógradas ideologias?

Sei lá, como eu disse antes, é bem provável que eu esteja sofrendo da mesma síndrome que atinge muitos idosos que lamentam a morte de seus heróis da juventude, a perda de suas ilusões e de um tempo em que, acreditam, amarravam seus cachorros com linguiça.
O fato é que quando penso que o Brasil que criou a Bossa Nova hoje balança o traseiro ao som do tal Lepo Lepo, me convenço, entre decepcionado e indignado, que fizemos muitas escolhas erradas, nos perdemos e não somos hoje, nem de longe, o país que poderíamos ter sido.

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