Tom Lisboa, profissão: artista

ensaio-150

Um dos mais criativos trabalhos em que o artista rompe com a ideia da fotografia somente como um registro visual, uma janela, agora a misturar vários signos, onde a sua arte atinge uma maior abrangência, obra interativa, conceitual, participativa, que tive a oportunidade de conhecer, é o de Tom Lisboa. Dele e de seu magnífico trabalho nada sabia, culpa de meu recolhimento, e que já há alguns anos está à disposição dos interessados em arte de um modo geral. Graças a amiga Isabela França entrei em contato com ele. Conversamos um bocado sobre o seu trabalho e fui presenteado com cinco livros de sua autoria: Ação Urbana Lugar: Paraná, Ficções urbanas – o documentário, (In)visível Real, Polaroides invisíveis e Mirando(a). Sem ter visto as exposições, se é que assim pode se chamar alguns de seus trabalhos, os livros que vi dão uma dimensão exata e forte de seu trabalho. Posso afirmar que Tom é um artista no que essa palavra tem de maior. Ao fugir do establishment, ao criticá-lo em suas obras foi, curiosamente, adotado pelo mesmo. Sem procurá-las as instituições abriram-lhe as suas portas. Penso que esse é o reconhecimento da força de suas obras.
E para melhor falar de sua singular obra, selecionei trechos de um texto que mestre Fernando Bini escreveu.

 

Tom Lisboa, no limite da norma

 

O perfil de Tom Lisboa é curioso, graduado em Informática com especialização em Marketing e mestre em Comunicação e linguagem; no entanto começou suas atividades artísticas como pintor e, então após o ano 2000, começa esta sua série de trabalhos numa direção mais conceitual e de interferências urbanas, com um desejo intenso de olhar e fazer olhar a cidade.

 

A arte contemporânea pôs em crise o fenômeno arte e o seu lugar de exposição ao retomar a questão da separação do universo da arte do universo da estética, assim um grande número de artistas se dirigiu em direção mais às teorizações de seus trabalhos do que a sua realização concreta. Hoje não se pode mais conceber um artista que se descuide da formulação teórica da sua obra. É neste o universo que trabalha Tom Lisboa, o seu conhecimento e a sua fluidez teórica é o que nos atrai para uma conversa e também argumenta sua produção artística.

 

Mas ele prefere uma outra dimensão da atitude crítica que é o do contexto no qual a obra é produzida; é clara a sua atitude de contestação, “contra a ordem estabelecida”, que pretende não só produzir um efeito sobre a realidade do mundo, mas principalmente sobre a consciência dos indivíduos que, querendo ou não, se tornam os espectadores ativos da sua obra.

 

Sua contestação aos espaços estabelecidos da arte, como os Museus e Galerias, é porque os jovens artistas, que se entendem como profissionais da arte, não encontram seus espaços. Como encontrar então alternativas para mostrar os seus trabalhos se não interrogando a obra de arte e o local de exposição. Por que não utilizar do espaço público e dos meios de comunicação globalizados?

 

(…)

 

Ferdinand de Saussure, linguista suíço, chamou a atenção para a noção de que uma ideia (um significado) necessita de um suporte material (um significante) para construir um signo e que este significante e a sua respectiva imagem mental estão intrinsecamente ligadas tal qual “o verso e o anverso de uma folha de papel”. Tom manipulando e reinventando o meio fotográfico recria signos, muitos deles já presentes no nosso imaginário, pois são nossos clássicos: para Ítalo Calvino nós não lemos os clássicos, nós sempre os relemos.

 

Ele traduz, pela re-apropriação dos dados de nossa cultura, a apresentação na qual o texto qualifica ao mesmo tempo a cenografia da exposição e o seu conteúdo significativo e ideológico. Ao escolher partes de textos e os colocar em evidência mostra também o seu desejo de leitura, o prazer do conhecimento e a transmissão das ideias que só são possíveis através dos livros.
“Para sonhar, não se deve fechar os olhos, é preciso ler”, afirmava Michel Foucault.

 

(…)

 

O filósofo Ludwig Wittegenstein no seu Tractatus, nos afirma que tudo o que pode ser pensado pode também ser dito, mas deixa a advertência de que todos os nossos problemas metafísicos decorrem da tentativa de “se tentar dizer o que não pode ser dito”.

 

Toda a obra do Tom Lisboa é uma referência ou à literatura ou ao cinema, através dela ele constrói suas imagens que se dissolvem no ambiente urbano, ousada e incômoda, mas humana e nunca agressiva, e como ele mesmo afirma, estão “no limite da norma”. Sempre começando como marginais, mas que podem ser absorvidas pelo circuito oficial, e é assim que ele nos ensina a olhar, mas com um olhar que pensa.

 

 

Fernando A. F. Bini
Professor de História da Arte e Crítico de arte.

 

 

Polaroides (in)visíveis

Polaroides (in)visíveis

 

 

Polaroides (in)visíveis

Polaroides (in)visíveis

 

 

Polaroides (in)visíveis

Polaroides (in)visíveis

 

 

Mirando(a)

Mirando(a)

 

 

Mirando(a)

Mirando(a)

 

 

Projeto cinematografo

Projeto cinematografo

 

 

Still life

Still life

 

 

Blow up

Blow up

 

 

Still life

Still life

 

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *