A decadência do modo petista de governar

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Ora, pois, as pesquisas de opinião dizem que a presidente Dilma Rousseff ainda se elege no primeiro turno em qualquer dos cenários apresentados. Mas a sua margem de segurança caiu a zero. Ou seja, se ela continuar em queda corre o risco de uma derrota fragorosa. Lula, seu padrinho e guru, e toda a militância do PT, assim como os aliados de sempre e os de ocasião, também sabem disso.

A última pesquisa Ibope colocou a presidenta Dilma com seu pior resultado e a desaprovação do governo superou a aprovação pela primeira vez. Em comparação com a pesquisa anterior, realizada há quatro meses, a aprovação de Dilma caiu nove pontos, de 43% para 34%, e a desaprovação subiu cinco pontos, de 43% para 48%.

O resultado aponta aspectos importantes para a campanha de reeleição da presidente, pois nenhum governante com menos de 35% conseguiu se manter no poder. Para piorar, 64% das pessoas que declararam querer mudanças esperam que elas venham de outro candidato.
Há dois pontos novos a se destacar nesta pesquisa do Ibope. O mais relevante para a disputa presidencial é que pela primeira vez a soma de “nulos e brancos” com “não sabe” empata com as intenções de votos de Dilma ou fica ligeiramente abaixo, a depender do cenário.

Compra da refinaria Pasadena, nos EUA, é tratada abertamente como um mau negócio feito pela Petrobras em 2006. Valor pago na época supera o atual valor de mercado da refinaria

Compra da refinaria Pasadena, nos EUA, é tratada abertamente como um mau negócio feito pela Petrobras em 2006. Valor pago na época supera o atual valor de mercado da refinaria

Outro destaque da pesquisa é que não apenas a presidente Dilma está caindo na preferência dos eleitores — de 40% para 37% —, mas também o ex-presidente Lula, quando apresentado como opção a Dilma, cai para 42%, quando já teve até 55% dos votos. A má notícia para Dilma é compensada por essa má notícia para Lula.

Embora se mantenha como franco favorito quando surge como candidato, Lula está empatado tecnicamente com a presidente Dilma, o que pode indicar que o que está decaindo no gosto popular é a maneira petista de governar.

Contribuiu para o desgaste do PT o acúmulo de notícias ruins, como a crise na Petrobras e o caso da ligação do deputado André Vargas com um doleiro preso. O Mensalão continua sendo um processo desgastante para o partido, e as denúncias de novas corrupções só reforçam a imagem ruim, doze anos depois de o PT chegar ao poder.

A insatisfação com a situação econômica também está na pesquisa. A desaprovação ao governo já é maior que a aprovação (48% a 47%), um indicador clássico de tendência de queda de votação. A avaliação negativa subiu de 27% para 30%, aproximando-se do nível de julho de 2013, durante as manifestações populares, quando o índice foi de 31%.

Não apenas Dilma está caindo na preferência dos eleitores, mas também o ex-presidente Lula cai para 42%, quando já teve até 55% dos votos

O pepino de 2015

Com a popularidade em queda, o patrimônio de “gerente competente” corroído e sob ameaça de uma CPI da Petrobras, a presidente Dilma Rousseff determinou aos ministros que adotem a estratégia de proteção do governo. Pressionada por eleitores que exigem mudanças, como revelou a última pesquisa Ibope, Dilma quer destacar que muitos dos programas mencionados hoje por seus adversários são conquistas da administração do PT e representam “só um começo”.

Mesmo sendo um economista “menos crítico ao governo”, como ele mesmo diz, Luiz Gonzaga Belluzzo acredita que é importante realinhar a rota do governo: “é preciso dar mais peso ao investimento do que ao consumo e elevar a meta de superávit primário”, diz.
Na sua avaliação, outra tarefa prioritária é se dedicar à solução de problemas estruturais, como a indexação, que faz a inflação persistir, e o baixo crescimento. Entre as estratégias que defende está o fortalecimento da Petrobras, que pode contribuir com a reindustrialização, e a permanência da política de campeões nacionais. “Você não pode entrar na competição global com uma carroça e concorrer com os caras que estão em carros de Fórmula 1”, disse Belluzzo.

Tudo indica que o buraco é mais embaixo, como gostava de dizer Aníbal Curi. Turbinada pela alta dos preços dos alimentos, a inflação para o consumidor, medida pelo IPCA, continua se aproximando do teto da meta fixada pelo governo. Os analistas do mercado financeiro já trabalham com a hipótese de a inflação acumulada em doze meses ultrapassar, de maio a julho, o patamar de 6,5%, pois, em igual período do ano passado, os índices foram mais bem comportados, e dificilmente, em 2014, devido, inclusive, a essa pressão dos alimentos, ficarão abaixo dos percentuais registrados em 2013.

A inflação não teve ainda forte impacto negativo sobre os níveis de emprego, mas o IBGE detecta em suas últimas pesquisas uma queda no ritmo de aumento dos rendimentos médios das pessoas ocupadas. É um risco, para o próprio governo, tentar empurrar esse quadro com a barriga até depois das eleições gerais de outubro. A disputa política tende a deixar os mercados mais ansiosos, pela expectativa de mudanças na política econômica, dificultando o já complexo controle da inflação.

O Banco Central tem elevado as taxas básicas de juros, mas os equívocos cometidos anteriormente na política econômica causaram tamanho desgaste que o aperto monetário não foi até agora suficiente para neutralizar as expectativas pessimistas quanto à trajetória futura da inflação. Pesquisas de opinião revelam que o pessimismo contaminou empresários e consumidores, sem distinção. O represamento de preços importantes (combustíveis, energia elétrica) funcionou como um bumerangue. Os agentes econômicos percebem que um ajuste será inevitável, o que equivale a uma bomba-relógio sem data precisa para detonar.

O mistério Heads

 

A revista Veja revelou que, nas conversas com deputados, o deputado André Vargas também citou como algo que o PT não gostaria de ver revelado o caso da agência Heads Propaganda, do Paraná. “A Heads é esquema deles”, teria declarado Vargas a colegas de partido. “Eles” seriam a senadora Gleisi Hoffmann e o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. Na gestão Dilma, a agência tornou-se líder em verbas recebidas do governo. A escalada meteórica está sob investigação do Tribunal de Contas da União (TCU).

A Heads é de Cláudio Loureiro, amigo do casal Gleisi e Bernardo, e faturou R$ 320 milhões em 2013 em contas do governo federal. Neste ano, assinou contrato de R$ 110 milhões para cuidar da imagem da Petrobras.

“Eu conheço o Cláudio Loureiro, que é o presidente da Heads, é do Paraná, temos uma relação cordial com ele, um empresário do Estado, mas nunca tive nenhum serviço prestado pela Heads, que nunca fez nenhuma campanha, nunca me assessorou em nada. O fato de ser do Paraná e de nós conhecermos não pode ensejar uma definição de que nós o ajudamos a ter contratos. Várias empresas do Paraná têm contratos com o governo federal, com os governos locais. Isso é do processo e é um procedimento empresarial”, de Gleisi Hoffmann (PT-PR) ao responder à Folha de S. Paulo, após a Veja publicar que a agência Heads “é esquema deles”, segundo o deputado André Vargas (PT-PR).

“Não tive nenhuma prestação de serviço da Heads para as minhas campanhas, nunca. Sempre fiz campanha com outras agências. Inclusive, desde 2006, tirando a minha campanha de prefeitura, nas minhas duas campanhas de Senado, a responsável pelo marketing, pela propaganda é a mesma agência”, completou a petista.

Desejo de mudança

A pesquisa captou um desejo crescente de mudança. O índice de brasileiros que querem alterações profundas no governo chegou a 68% em abril, segundo o levantamento. O descontentamento com o governo Dilma aumentou muito entre os jovens e também entre tradicionais eleitores do PT, como beneficiários do Bolsa Família. A avaliação negativa da gestão, feita por pessoas que moram na periferia, subiu 11 pontos, passando de 27% no mês passado para 38% agora. São índices próximos ao que Dilma obteve no período posterior aos protestos de junho do ano passado.

O “inferno astral” do governo é atribuído, nos bastidores do PT, a turbulências na economia, com o aumento da inflação, e à “desconstrução” da imagem da Petrobras, abalada por denúncias de corrupção e sob ameaça de uma CPI no Congresso. “A oposição continua sendo hipócrita. Nem o mais ingênuo dos políticos vai acreditar que uma CPI transcorrerá de forma técnica e sem contaminação política, principalmente começando em abril ou maio, com prazo de 180 dias, para acabar no período eleitoral”, afirmou o ministro das Relações Institucionais, Ricardo Berzoini.

No Planalto, Berzoini já começou a seguir a recomendação de Dilma para multiplicar as marcas do governo. “Essa é uma eleição para fazer um debate profundo do que foi o Brasil no passado e do que o Brasil é hoje em termos de desemprego, renda, salário mínimo, Minha Casa Minha Vida, Prouni e Bolsa Família”, insistiu ele.

Para Eduardo Campos, a estratégia indica que o PT vai apostar no “terrorismo eleitoral”, acusando a oposição de querer acabar com programas sociais. “Eles sabem que sabemos fazer. Não podemos ficar sem alternativas nesse debate do presente e do passado”, argumentou o ex-governador, ao formalizar a ex-ministra Marina Silva como vice de sua chapa.

“O problema não é o Brasil; é o governo que está aí”, afirmou Aécio no programa de TV do PSDB. O tucano abriu ofensiva contra o PT ao dizer que o governo “não reconhece que a inflação está saindo do controle”.

 

Lula assume o comando

Diante do desastre anunciado, Lula volta à cena para comandar a reação. E mostra que não fará economia em seu estilo. Já colocou em prática suas especialidades: criticar as elites, estimular e manter em alta o antagonismo entre ricos e pobres. Esses motes sempre lhe valeram bons frutos. Como ninguém, Lula consegue com o mesmo gogó desancar e afagar os endinheirados. E ainda usufruir deles. Mas essa habilidade de iludir o público, xingando aqueles que o patrocinam – a ele e ao PT – é única.

O recado de Lula foi direto: o governo precisa partir para a ofensiva, rebater as denúncias e defender “com unhas e dentes” a Petrobras. Como assim? Como será possível defender a estatal quando pairam sobre ela contundentes denúncias de transações mal feitas, teias de corrupção e escândalos, sob a inexorável constatação de que ela vale, hoje, cerca de R$ 175 bilhões, menos da metade dos R$ 380 bilhões estimados em 2010, quando o preço do petróleo subiu aos picos e o pré-sal vitaminava a euforia do PT?

Luiz Inácio, como se diz no vulgo, quer fazer do limão uma limonada. A sugestão dará certo? Pelo menos é a mais criativa. Como se sabe, ante uma situação embaraçosa, ao ator político resta escolher entre duas estratégias: a de negociação e a de confronto.

Não vai ter Copa: manifestações tomaram conta das ruas. A população questiona o dinheiro gasto com os preparativos para receber o mundial e critica a falta de investimento em setores como educação, saúde e segurança pública

Não vai ter Copa: manifestações tomaram conta das ruas. A população questiona o dinheiro gasto com os preparativos para receber o mundial e critica a falta de investimento em setores como educação, saúde e segurança pública

Outra versão que se pode fazer da visão de Lula é a de que a campanha eleitoral, mesmo não sendo ele candidato, será desenvolvida sob seu condão. Assume de vez o comando geral. Afinal, trata-se de consolidar o projeto de poder do PT.

Cochilos, desvios de comportamento por parte de petistas, borrascas na economia, inflação na área de alimentos, arruaças na Copa, apagão de energia ou até falta d’água nas torneiras, a par de erros de estratégia, ameaçam o empreendimento petista.

E quem sabe manejar melhor os pauzinhos da política e das eleições? Ele, Lula, o último dos moicanos, quer dizer, o perfil que ainda exibe acentuados tons de carisma. No fundo, o que o mandachuva começa a fazer é dar as coordenadas para a administração de fatores ponderáveis que poderão influenciar o pleito.

Em sua desfaçatez, Lula assumiu o controle e passou a dar ordens, “O principal cabo eleitoral do seu governo é você mesma”, disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em conversa com Dilma, no início do mês. “Os ministros têm que divulgar as ações do governo, dar respostas mais rápidas e traduzir todos esses números para a vida real. Ninguém sabe o que é PIB. A pessoa quer saber o que pode comprar no supermercado, se a vida melhorou ou não.”

Dilma começou a pôr em prática os conselhos de Lula, mas a pesquisa Ibope acendeu a luz amarela no Palácio do Planalto. Embora o senador Aécio Neves (PSDB) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), pré-candidatos ao Planalto, não tenham capitalizado a insatisfação com o governo do PT, Dilma caiu em todos os cenários.

Os agentes econômicos percebem que um ajuste será inevitável, o que equivale a uma bomba-relógio sem data precisa para detonar

Propaganda, muita propaganda

De resto, propaganda. Muita propaganda. Se não funcionar, mais propaganda. Uma campanha publicitária sobre o Mais Médicos deverá entrar no ar em breve. Para rebater as críticas da oposição de que o governo Dilma investe no “trabalho escravo” de médicos cubanos, a propaganda na TV mostrará como o programa, com cerca de 14 mil novos profissionais, tem mudado a vida dos mais pobres, principalmente no interior. A meta é que, até a Copa do Mundo, o plano dê assistência a 49 milhões de pessoas.

Além das previsões de menor crescimento feitas recentemente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e também pelo Banco Central, os juros básicos estão hoje em 11% ao ano, acima do patamar de quando Dilma assumiu o governo, e há risco de racionamento de energia.

A “agenda positiva” da presidente até a Copa, porém, prevê “vacinas” contra as más notícias da economia, com discursos sob medida para estancar a queda de sua popularidade entre eleitores de várias faixas de renda.

Na lista dos antídotos produzidos para a nova classe média constam a entrega de mais moradias do Minha Casa, Minha Vida e a ampliação da bolsa do Pronatec. Dados do Ministério da Educação indicam que 40% das matrículas do Pronatec são de jovens oriundos de famílias com renda mensal de até três salários mínimos.

O governo federal gastou R$ 2,3 bilhões para veicular propaganda em 2013. O valor é o maior já registrado desde 2000, quando começou a ser divulgado esse tipo de dado. Até o atual recorde estabelecido pela presidente Dilma Rousseff, o maior gasto havia sido o de 2009, sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com R$ 2,2 bilhões.

Essas informações foram divulgadas pela Secretaria de Comunicação Social do Palácio do Planalto. Todos os números foram corrigidos pelo IGPM, da FGV, o indicador mais usado no mercado publicitário. Em relação ao ano de 2012, o gasto do governo federal com propaganda aumentou 7,4%, acima da inflação oficial do período, que foi de 5,91%, segundo o IPCA, calculado pelo IBGE.

Os valores incluem toda a administração pública direta e indireta. Ou seja, as grandes estatais estão nesse bolo de R$ 2,3 bilhões. Quando são considerados só os órgãos e entidades da administração direta (ministérios e Palácio do Planalto, por exemplo), o total de 2013 foi de R$ 761,4 milhões, também um recorde na última década e meia. De 2012 para 2013 os gastos totais do governo com pessoal, custeio e investimento subiram 7,2%, já descontada a inflação do período. Em 2010, ano em que Lula estava interessado em eleger Dilma como sucessora, os gastos da administração federal direta com propaganda foram de R$ 576,7 milhões.

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