As girafas e o senso comum

girafa

Vicente Ferreira é homem de hábitos. Nos encontramos sempre na Praça da Espanha, em um café cheio de ideias, vozes e literatura. Ele insiste em manter os nossos encontros nesse café, embora se irrite com a indigência cultural que nos cerca e que nos envolve na algaravia irritante de chavões, frases vazias e citações.

Há um advogado dado a literaturas. Tem um falar afetado, repleto de fórmulas convencionais, leitor de Eça, Vicente Ferreira comenta.
— Nosso Conselheiro Acácio é assíduo.

É perfeito. O advogado está há mais de hora a desfiar seu discurso vazio, enfeitado, pomposo, sem conteúdo, que beira o ridículo. Fala dos gregos sem dizer nada, mas com uma empáfia que corresponde ao tamanho de sua ignorância.

Nosso acaciano sabe que os gregos são fundadores da cultura ocidental. Repete essa obviedade em todas as situações, com deslumbrada ênfase, como se fosse verdade recém-descoberta e inapelável. É o mestre do senso comum. O jovem de hoje é o adulto de amanhã, repete em suas divagações sobre o futuro sombrio da humanidade.

Vicente odeia o senso comum. Detesta a mediania dos pregadores do bom senso. Respira fundo e desfia seu raciocínio. O mundo do senso comum é tão reduzido diante do universo, os dados dos sentidos são tão enganosos, que o melhor método para averiguar novas verdades é entender o oposto do que aconselha o senso comum.

— Os maiores avanços do pensamento humano foram feitos por pessoas à beira da loucura.
Vicente Ferreira pede mais um café e lembra que a teoria de Zenon de Eléa, de que a flecha não se move, que a tartaruga jamais será alcançada por Aquiles; ou, como Hume, que o eu não existe; ou, como Berkeley, de que o universo inteiro é uma fantasmagoria, certamente seriam tratadas como ridículas manifestações de loucura pelo senso comum.

— Um tribunal que julgasse em nome do senso comum, condenaria ao manicômio Zenon, Parmênides, Berkeley, Hume, Einstein.
E, no entanto, continua Vicente Ferreira, é incrível pensar que o senso comum tenha tanto prestígio nas escolas, nas universidades, entre os políticos e os governantes, apesar de todas as besteiras que defendeu: o geocentrismo, a evidência de que a Terra é plana, o realismo ingênuo e tantas outras.

— Se o senso comum prevalecesse não teríamos computadores, internet, aviões. Nem Dostoievski ou García Márquez. A América não teria sido descoberta.
Devemos muito aos homens que tiveram a coragem de desafiar o senso comum que condenou Galileu e Giordano Bruno, que levou à fogueira os visionários com ousadia suficiente para pensar além do que a observação comum permite aos comuns.

— O senso comum que faz a cabeça dos homens medianos rechaça os fantasmas desconhecidos, mas acredita piamente nos fantasmas há muito conhecidos e repetidos. Ele se jacta de sua astúcia, que consiste em não acreditar no fantástico, e, no entanto, podemos afirmar que vivemos num mundo inteiramente fantástico, diz Ferreira.

Ao sairmos, Ferreira lembrou o que aconteceu aos camponeses de Mark Twain que assistiam a um show de circo. Quando as girafas entraram no picadeiro, um oh! de indignação. Os camponeses se levantaram e exigiram a devolução imediata do dinheiro da entrada. Se consideraram vítimas de um engodo. Para eles, que nunca as tinham visto, as girafas não existem.

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