As linhas de Lilian

Foto: Daniel Snege

“A arte é uma apercepção pessoal”, disse Paul Cézanne a Émile Bernard, as linhas de Lilian Gassen provam. Cada qual que passa os olhos por sua arte reflete uma perspectiva, uma sensação diferente. Arte é isso, Merleau-Ponty parece ter escrito que “O artista fala como o primeiro homem falou e pinta como se jamais houvesse pintado”. Vendo uma obra de Lilian, ela fala, ela grita com as cores, com os caminhos, com os traçados.

Bruno Oliveira com muita astúcia disse: “Neste jogo clássico do linear e do pictórico, é preciso entender que Lilian Gassen não usa o desenho para dar forma aos corpos e a cor como preenchimento deles. Já no seu processo, o desenho e a cor estão juntos. Quando a pintura fica pronta, isso se intensifica. Desenho e cor se tornam ainda mais imbricados, inseparáveis e indiscerníveis. O desenho já não vem antes, como no processo, mas une-se ao colorido, na simultaneidade da pintura. Ambos parecem se tornar uma mesma coisa e funcionam ao mesmo tempo, no instante em que se olha para a pintura. Neste instante, a cor é preenchimento e contorno, pois, ao mesmo tempo em que preenche, contorna. De fato, muitas vezes uma linha que atravessa a pintura é preenchimento em determinada área, para ser contorno em outra. Esta ambiguidade, alcançada na dialética entre desenho e colorido, é extremamente importante nas suas pinturas, por que é através dela que se estabelece o diálogo entre a pintura e o observador”, de um jeito diferente é mais ou menos como de novo Cézanne disse: “O desenho e a cor não são mais distintos; à medida que pintamos, desenhamos; quanto mais a cor se harmoniza, mais é preciso desenho… Quando a cor está em sua riqueza, a forma está em sua plenitude”. O estilo do francês e de Lilian são absolutamente diferentes, mas parecem falar da mesma coisa, a cor e o desenho estão tão intrínsecos que é inconcebível a existência de um sem outro e outro sem um, seja em Cézanne ou em Gassen.

As pinturas dela não permitem um olho sempre a boiar, a metade do seu olhar está chamando pra luta, aflita!, com seus contornos sem começo ou fim. E o outro olho nunca vai desmanchar toda a pintura. Olho tanto e de tanto olhar a arte de Lilian descubro ângulos, as descobertas nunca chegam ao fim, pois o olhar sempre chama pra luta e lá se encontra uma nova descoberta, uma nova linha, um novo desenho, formato e perspectiva.

Uma arte ansiosa, inquieta, umas cores e uns traços que não nos permitem parar de contemplar, dá vontade de sempre buscar um novo jeito de ver, uma nova linha que não se apresentou, uma cor que escapou pela tangente. É pulsante, é viva. A arte dela ultrapassa as quatro linhas que delimitam o quadro, sorte de quem tem um quadro de Lilian pra si e pode ficar buscando tudo o que lhe escapa, azar de quem tem um quadro dela pra si, pois imediatamente torna-se um escravo da sua contemplação. Jogo duro esse.

A exposição 328.954,32 na galeria Casa da Imagem é como diz os letreiros do Torto Bar, “é igual à caverna do dragão, todo mundo quer ir embora, mas ninguém consegue”. Portanto, vá preparado, o jeito de conseguir deixar a Rua Dr. Faivre, 591, é levando um pouco de Lilian Gassen junto, caso contrário, esteja ciente de que não conseguirá desenrolar-se de suas linhas.

 

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Foto: Daniel Snege

 

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Foto: Daniel Snege

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