Cinema. Ed. 151

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A Bela da Tarde

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Revi A Bela da Tarde, de Buñuel. Pois, pois, percebi que a racionalização completa que muitos críticos, analistas e psicólogos já tentaram, é infrutífera. Não como matéria para debate, pois aí sim muita coisa interessante pode sair, mas sim como tentativa de rotulagem, como carimbo, como algo definitivo. Grande parte das obras-primas de Luis Buñuel ultrapassam as fronteiras de definições e da necessidade que muitos têm de encontrar significado em tudo.

Afinal de contas, estamos falando do diretor e roteirista que, sentado em um quarto com seu então amigo Salvador Dalí, fez um “roteiro” para Um Cão Andaluz cuja única regra era que “qualquer cena que tivesse algum significado, seria descartada”. E assim eles fizeram. Claro que, ao longo do tempo e de sua magnífica carreira, muitos dos filmes de Buñuel deixaram de ter qualquer característica surrealista, ainda que muitos deles tenham pistas escondidas aqui e ali sobre a preferência estilística de seu diretor.

A Bela da Tarde, um de seus mais importantes trabalhos e seu filme mais famoso, desafia as convenções e as explicações objetivas. Sim, é muito fácil dizer que Séverine (Catherine Deneuve) se “transforma” na Bela da Tarde, pois ela tem uma vida amorosa insatisfatória. É também simples usar um curto flashback que Buñuel espertamente insere na obra para concluir que “ela é assim, pois foi molestada quando criança”. Esse dirigismo conclusivo chega a ser engraçado, como se crianças molestadas tivessem mais tendência de se transformarem em prostitutas quando adultas ou que uma vida apática sexualmente levasse alguém a se prostituir.

Se racionalizar um filme é seu negócio, A Bela da Tarde será um desafio magnífico. Mas a obra de Buñuel — que arrisco dizer é sua obra máxima — vai além da racionalização, além das convenções, além dos rótulos. É uma experiência como poucas que deve ser muito mais sentida do que pensada.

O Segredo de seus Olhos

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Em O Segredo dos Seus Olhos, por exemplo, em uma conversa com uma antiga amiga, quando um escritor profere à moça que “os olhos falam”, e que decorrente do exposto é melhor que eles se calem, primeiro dá para notar na manifestação facial da jovem o quão verdadeira é aquela afirmativa, e ele, por seu turno, sabendo que por mais que os seus mundos o separem, sendo assim desprovido de qualquer esperança de um relacionamento amoroso para com ela, doutra banda só tem uma única certeza que é a de que as suas pupilas, pelo menos, são sintéticas e taxativas no âmago de devolver, na mesma proporção, o que sente pela moça, bem como se fossem, destarte, aos dois lados, espelhos de emoções escondidas desejando saírem à tona e à forra. A confraternização interna, no entanto, é tão grande e intensa que se faz estender pelo restante do corpo humano; vem daí a tremedeira das pernas, o pulsar forte e rápido das veias, o suadouro, referentes ao amor e ao ódio de algo conferido, já que tampouco no primeiro sentimento, porém, nem atores tão eficientes e dotados de nuances de mudanças como Ricardo Darín e Soledad Villamil, nesta obra-prima argentina comandada pelo diretor Juan José Campanella, fogem a essa natureza dos olhares dos seus personagens. Segue-se à guisa disso, ainda, nesta configuração, o contrário que seria a crueldade e o atroz, vista em antagonistas mais impuros, sobretudo naqueles que sujam suas mãos no assassinato que é o que, infelizmente, os mantém em nexo de dada forma em tal narrativa de amor com nostalgia de policial.

 

O segredo dos seus olhos (EL SECRETO DE SUS OJOS), de Juan José Campanella. Roteiro: Eduardo Sacheri e Juan José Campanella. Baseado no livro La Pregunta de sus Ojos de Eduardo Sacheri. Produção: Mariela Besuievsky, Juan José Campanella. Montagem: Juan José Campanella. Fotografia: Félix Monti. Direção de arte: Marcelo Pont. Figurino: Cecilia Monti. Trilha sonora: Federico Jusid. Com Soledad Villamil, Ricardo Darín, Carla Quevedo, Pablo Rago, Javier Godino, Mario Alarcón, Guillermo Francella. 2009. Espanha/ Argentina. 2h e 9min.

 

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