Curitiba em verbetes

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No ano em que o Brasil recebe a Copa do Mundo de 2014, a editora baiana Casarão do Verbo teve a ideia de apresentar literariamente, em forma de verbetes, as cidades-sedes do mundial deste ano. O projeto Dicionário Amoroso é inspirado em um livro de mesmo nome, publicado na França, em 2008, pelo escritor Denis Tillinac.

A editora convidou 12 autores locais para que eles produzissem um registro de suas cidades a partir dos seus olhares. Um registro literário e subjetivo, que passou longe dos tradicionais guias já publicados sobre as capitais. O time reúne autores de expressão, como Altair Martins (Porto Alegre), Ignácio de Loyola Brandão (São Paulo), Álvaro Costa e Silva (Rio de Janeiro) e Tércia Montenegro (Fortaleza). Para escrever sobre Curitiba, a editora convidou o contista Marcio Renato dos Santos.

Em um trecho da orelha do próximo livro de contos do autor curitibano, que será lançado ainda no primeiro semestre de 2014, o escritor André Sant’Anna escreveu: “Marcio Renato dos Santos é um escritor muito estranho. Mas essa esquisitice toda é tão sutil, parece tão cotidiana no universo de uma cidade provinciana e literária e poética, como Curitiba, que acontece sem que a gente quase não a perceba”.

Para tentar entender a esquisitice do escritor no universo da literária Curitiba e saber um pouco mais sobre o Dicionário Amoroso de Curitiba, a revista Ideias foi ouvir o autor.

 

Marcio Renato. Foto: Lina Faria

Marcio Renato. Foto: Lina Faria

Como surgiu o convite para participar do projeto?
Há 1 ano, recebi uma mensagem, por e-mail, de Rosel Soares, o editor da Casarão do Verbo. Era o convite para participar do projeto Dicionário Amoroso. A encomenda não foi para um dicionário convencional, e sim para eu escrever verbetes a partir de memórias, do meu repertório e da minha vivência em Curitiba.

 

Como você classificaria o Dicionário Amoroso de Curitiba? Em qual gênero você escreveu o livro?
O livro não é um guia tradicional. Portanto, não há menção a pontos turísticos, restaurantes, hotéis, bares e a nenhum festival de entretenimento. O livro também não é um dicionário. Os verbetes não são crônicas, possivelmente nem verbetes são. Podem ser uma prosa entre o jornalismo e o conto, linguagens por onde transito. Antes de tudo, é uma resposta a essa pergunta: O que é Curitiba? É um olhar sobre a capital do Paraná, hoje uma cidade polifônica e não mais aquela cidade de um passado, onde havia apenas um escritor, um engenheiro, um poeta, um músico, um cirurgião, um historiador etc.

 

Em seus dois livros de contos publicados (Minda-au e Golegolegolegolegah!) e nas crônicas e contos que você já publicou na Gazeta do Povo e na revista Ideias, o leitor pôde conhecer sua ficção. De que modo essa voz aparece no Dicionário Amoroso de Curitiba?
Quando lancei meu livro anterior, Golegolegolegolegah!, ano passado, pela Travessa dos Editores, muitos leitores comentaram que os narradores de Golegolegolegolegah! são pedestres, como eu sou. “Os contos mostram detalhes que somente uma pessoa que caminha pela cidade pode perceber”, disse, na época, o meu irmão Rafael.
A fotógrafa Lina Faria também percebeu essa tendência, esse olhar de pedestre, nos contos de Golegolegolegolegah! É esse olhar de pedestre, de alguém que caminha pela cidade, que dá unidade a todos, ou a quase todos, os verbetes deste Dicionário.

 

Falando na unidade do Dicionário, como foi a escolha dos verbetes? Você pensou em alguma unidade temática ou até mesmo em um possível fio condutor na narrativa?
Antes de escolher os temas a respeito dos quais escreveria, fiz uma lista daquilo que não deveria entrar. Não iria escrever, evidentemente, a respeito de clichês questionáveis, como o suposto sotaque local, nem sobre uma tese, defendida por alguns publicitários e jornalistas, segundo a qual não existe carnaval na cidade – é evidente que há, basta ver, ouvir e dançar. Há verbetes sobre chuva, pinhão, banda Blindagem, Karol Conká, almoço de domingo, autofagia e outras palavras que dizem respeito ao cotidiano de quem vive em Curitiba.

 

Há espaço para o lugar-comum no livro?
Decidi não repetir mitos, construídos por meio de discurso, por exemplo, a respeito da suposta fala local. Mas o curitibano não tem um sotaque peculiar? Não. Talvez em alguma rua ou bairro, quem sabe em um passado, distante, que já se extinguiu; mas em 2014, não. Faço também uma leitura diferente da autofagia, que seria a prática dos locais em tentar destruir o semelhante. A autofagia em Curitiba é, na minha opinião, suave, quase inoperante, em relação ao que se pratica em São Paulo e no Rio de Janeiro.

 

Muito se discute sobre a presença da ficção autobiográfica na literatura. De algum modo seu cotidiano e sua história interferiram na produção do livro?
O convívio com a minha esposa, Fabiola, curitibana, foi decisivo para ler Curitiba. Da mesma maneira que a relação com os meus pais, Luiz e Júlia, e o meu irmão Guilherme, me fizeram compreender o que é a capital paranaense. Mas foi, em grande parte, o caminhar contínuo pelas ruas, em meio, principalmente, a temporadas de garoas e chuvas que molham das meias ao cabelo, o que me apresentou a cidade, os seus personagens, mitos, delírios, fantasmas e sutilezas.

Mais que tudo, foi o Vitor, meu filho, hoje com 5 anos, quem definitivamente me abriu os olhos a respeito do que poderia ser a matéria-prima deste livro. O Vitor vive em Curitiba, mas sofre o impacto, brutal, da internet, do conteúdo da tevê a cabo, de referências do mundo todo. Hoje, uma pessoa está em uma cidade, não é, necessariamente, de uma cidade. Evidentemente que tradições e práticas locais ainda são fortes, mas, em 2014, Curitiba é a cada dia menos província ou, dito de outro jeito, a cada segundo a cidade se torna mais universal, polifônica, múltipla.

 

capa_perspectiva_CuritibaCuritiba, recentemente, tem aparecido com grande relevância na cena literária nacional. A literatura curitibana pautou o livro de alguma forma?
Curitiba é a capital do conto. Isso não é novidade. Diz respeito a uma tradição, que tem como pioneiro Newton Sampaio (1913-1939). Antes dele, não há registro de nenhuma manifestação literária que mereça comentário. Foi Sampaio, um contista, o primeiro autor moderno do Paraná, quem preparou o terreno para aquele que seria, e é, o grande nome da literatura curitibana: o contista Dalton Trevisan, que aparece nesta obra, onde também há verbetes sobre outros prosadores, como Valêncio Xavier, Manoel Carlos Karam, Wilson Bueno e Jamil Snege. Há autores das mais variadas vozes possíveis em atividade em Curitiba, entre os quais destaco Fábio Campana, Luci Collin, Benedito Costa Neto, Assionara Souza, Antonio Cescatto, Rogério Pereira, Luís Henrique Pellanda, Otto Winck, Cezar Tridapalli, Luiz Rebinski Jr, Guido Viaro e Paulo Venturelli.

 

Como foi a escolha do ilustrador?
Conheci o Osvalter Urbinati na Gazeta do Povo, onde trabalhei entre 2007 e 2011. Nós dois gostamos do Rony Cócegas, nome artístico do comediante Ronilson Nogueira Moreira (1940-1999), que interpretava, entre outros, o personagem Galeão Cumbica. Tivemos empatia logo de cara. Ele era o designer do Caderno G e juntos fizemos muitas parcerias, sobretudo no G Ideias. Se um dia eu tivesse uma oportunidade para convidá-lo para um livro, faria o convite. Surgiu a oportunidade. Sou fã do Osvalter. Ele desenha com perícia, tem a manha. E tem humor. Na conversa e no traço.

 

O que é Curitiba?
Curitiba? É chuva, é garoa, é céu azul, é a prosa de seus escritores, é o som da Karol Conká, é a revista Ideias, é a revista Helena, é a Travessa dos Editores, é a inteligência do Omar Godoy, é o cinema do Fernando Severo, é a pintura da Teca Sandrini, é o comentário do Luiz Geraldo Mazza, é o sorriso do Mazzinha, é o texto do José Carlos Fernandes na Gazeta do Povo, é a vaia dos vizinhos, é o pastel da Brasileira e mais: a resposta está nas 168 páginas do Dicionário Amoroso de Curitiba. Aproveito para convidar todos os leitores e as leitoras da Ideias para uma leitura do livro.

 

Doze livros, doze capitais e um time de escritores renomados. Um projeto reforçado pelo apelo da Copa do Mundo de 2014. Quais são suas expectativas para este lançamento?
Espero que os livros da coleção encontrem leitores. E que o Dicionário Amoroso de Curitiba venha a ser lido como de fato é: não um guia, nem um dicionário, mas um livro que flerta com o conto, com jornalismo, acima de tudo, é um livro de humor.

 

Serviço

Lançamento do Dicionário Amoroso de Curitiba, de Marcio Renato dos Santos, com ilustrações de Osvalter Urbinati.
Dia 6 de maio (terça-feira), a partir das 19 horas.
Local: Livrarias Curitiba – Shopping Estação (Av. Sete de Setembro, 2.775, Centro, Curitiba-PR).
Bate-papo com Marcio Renato dos Santos, Osvalter Urbinati e Rosel Soares, editor da Casarão do Verbo. Em seguida, autógrafos.
Preço do livro: R$ 30. 168 páginas.
Mais informações pelo telefone (41) 3330-5119.

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