Deixa eu falar

deixa-eu-falar

Chove e, pra mim, não faz diferença se chove, ou não, agora. Mais do que tudo, preciso falar.
— Posso?
Quero dizer tanta coisa. Lembrar que o jornal, o impresso, perdeu.
— Perdeu, perdeu, perdeu.
O impresso já não dá mais nada. Perdeu pra internet, e o jogo está perdido.
Anteriormente, tinha rádio e tevê e era possível saber das novidades antes do impresso de amanhã. Mas agora, com todas as notícias atualizadas o tempo todo, em sites e blogs, o jornal diário não marca mais, só leva gol – ou faz contra.
O Glenn vai falar que o que eu digo, sobre jornal impresso, é clichê, assunto superado, mais velho do que a Estrada da Graciosa e o Pico Marumbi. Mas eu quero, preciso dizer. Digo isso e vou dizer mais.
Mas, daí, o Nóia pode perguntar:
— De onde você está enunciando essas besteiras? Do alto de um morro? No coreto de uma praça? Ou num trono?
Num trono. Não no meu, mas o de um apartamento onde entrei por engano e, agora, bom, é melhor esquecer. Estou sentado num trono, num vaso sanitário e o papel higiênico acabou.
O jornal impresso também acabou.
— Ou não? Deixa eu falar?
A internet não é grande coisa. Posso dizer?
— O Facebook, Gabi, está me ouvindo, Gabriela?, o Face é pior que uma privada, bem pior que aqueles quartinhos, de madeira, reservados, longe das casas, onde, no passado, as pessoas entravam com a finalidade de resolver situações inadiáveis, fisiologicamente falando.
O Facebook é um horror. O pessoal ultrapassou os limites. Todos os limites. É foto com gatinho, texto copiado de enciclopédia, trecho copiado do Wikipedia, gente fazendo ié-ié, glu-glu, agressões verbais por escrito, diretas e indiretas.
— Que nojo.
No Face, Érderson, é assim: vale tudo. Não é? Texto, foto, vídeo, frase. Tudo pra receber um like, ganhar um tapinha nas costas virtual, aquele abraço. E tudo isso, Érderson, tudo parece bem pior do que aquilo que acabou de sair do meu corpo e, nesse momento, está nas águas deste vaso sanitário.
— Deixa eu falar?
Queria mesmo sair daqui, mas acabou o papel, se tivesse um jornal, impresso, poderia dar um jeito. Mas, quer saber de uma coisa? Vou sair assim mesmo.
— Pode? Você deixa?
Tem uma festa ali, já no outro lado desta porta, a partir do corredor. Vou pra lá. Abraçar a Nara, dar um beijo na Fanny, outro abraço no Luka, apertar a mão do Hermes, contar alguma coisa pro Zinho.
Agora, preciso dizer, acho que vou relaxar.
— Será?
Tem um cheiro aqui.
— Será que sou eu?
Mas todos estão alguns copos, talvez litros, a mais e ninguém vai perceber que saí do banheiro sem me limpar.
— Let me talk. I’m a nice guy. I’m a normal guy. Do you understand me? Sou o Nonô, ou Nonis, depende do ambiente.
Prefiro aqui, longe do computador, fora da internet, e também sem nenhum jornal por perto. Sabe, toda essa gente louca está a fim de esquecer de tudo. Eu também.
Queria tanto dizer, contar umas histórias, falar umas verdades, mas, sabe, fica para outra ocasião.
— Combinado?
Você deixa?
— Deixa eu falar?

Leia mais

Deixe uma resposta