Do bullying à bolinagem

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Neste mês, em São José dos Campos, um maníaco se aproximou de uma jovem que telefonava num orelhão e, valendo-se do descuido, com um celular filmou por baixo as partes pudendas da desatenta. Um segurança percebeu a manobra e prendeu o agressor.

Essa é uma das muitas criatividades desenvolvidas em lugares de concentração de massa como terminais rodoferroviários e no interior de ônibus e metrôs. Nos anos 40 lembro na subida da avenida João Gualberto, ali onde emergiam mansões dos milionários do mate, no bonde em que viajávamos, uma senhora, revoltada, sombrinha em punho transformada em arma, perseguia um senhor aos gritos de “um bolina, um bolina!”. O cara se safou pela lateral aberta, já que o condutor, com seu boné heráldico, nada podia fazer, ainda mais num ponto íngreme.

Se em bonde naquela sociedade singela havia discretos e até ousados atletas da bolina nas passageiras dá para imaginar o que acontece hoje especialmente nos horários de pico nos nossos ônibus. Num dia de clássico da suburbana entre Iguaçu e Trieste em Santa Felicidade num ônibus cheio que saiu da Tiradentes, uma moça não suportou o assédio de um desses atletas e com uma expressão pouco parlamentar e diplomática disse: “Ô cara quer baixar essa espada?”.

Flagrado na sua furtiva ocupação, o cidadão tocou a campainha e desceu todo sem jeito, esgueirando-se, com o paletó à mão cobrindo a evidência apontada.

 

O panterão

Um vereador curitibano, recentemente, sugeriu a criação do “panterão”, um ônibus cor-de-rosa só para evitar bolinadores e encoxadores. Não espanta, pois em Recife a frequência dos assédios no metrô levou algumas mulheres ao pleito de vagões com gênero exclusivo, o que também não garante a paz interna.

A deformação na sexualidade é tão rica quanto a variedade de posições do Kama Sutra: há refinamento nas atitudes, uns simulando até defeitos físicos para como um homem-aranha pervagar seios e nádegas com o cotovelo, a mão boba aparentemente descuidada, a atuar sorrateira com uma desenvoltura de pasmar.

Já os descuidistas se valem parcialmente de tais rituais para roubar carteiras, talões de cheque ou cartões de crédito. É o mimetismo sexual a serviço da rapinagem.

Do ato infantil do espelhinho para ver as róseas coxas da professora a essas acrobacias no transporte coletivo um passo da curiosidade lírica ao atrito do contato, prenhe de imaginário, nas esfregações cotidianas, o bolina (como os antigos o chamavam) é uma presença constante na fauna das viagens: dá, às vezes, a impressão que é uma espécie de homem borracha capaz de ampliar o alcance de qualquer parte do corpo para suas pulsões. Há os que vão além do tato e se sentem no nirvana cheirando o corpo das pessoas, os que simulam encontros de corpos como acidentais, enfim uma fauna tão variada que parece impossível classificá-la.

De tudo isso, entre o chio rústico da mulher assediada contra a espada (se fosse um florete pareceria frescura de linguagem) e aquele cenário quase de filme mudo de Carlitos no bonde do Juvevê, anos quarenta, eu me deslocando à ginástica do Ginásio Paranaense, com a senhora indignada levando o bolina, em desespero, a atirar-se com o veículo em movimento sem que o motorneiro pudesse pará-lo, essa é a visão mais forte, quase vitoriana, do pudor exaltado. Leva a lembrar da marchinha carnavalesca “Seu condutor dim-dim// seu condutor dim-dim// pare o bonde pra descer o meu amor”. Mais do que a onomatopeia da campainha do veículo – o dim-dim intermitente –, a variedade do amor naquele cenário tão estreito, mas festivo nos carnavais ou nos retornos do futebol e esse tipo de sexo furtivo, talvez a arte de tristes introvertidos da sociedade repressora como a senhora, ao tempo das sufragistas inglesas, de sombrinha às mãos, como uma lança para botar pra fugir o taradinho encabulado.
Bolinar, encoxar, é bullying também nesses tempos de politicamente correto?

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