Em busca da fé em Nevers

Bernadette-Soubirous

Bernadette Soubirous. Foto: Divulgação

Bernadette Soubirous era uma linda adolescente que vivia com sua família em extrema pobreza numa antiga cadeia pública, abandonada por insalubridade, num povoado medieval de 4.000 habitantes denominado Lourdes ao sul da França por volta de 1857. Ela teve uma infância com a saúde debilitada, padeceu de cólera e asma devido ao clima frio e à pobreza.

Certo dia, em 1858, naquele pequeno povoado, passeando com duas amigas às margens do rio Gave, que banha a cidade, ela teve uma epifania e viu numa gruta próxima, denominada Massabielle, uma luminosa senhora trajando um vestido branco com um cinto brilhante, segurando um rosário. A aparição se identificou como Maria, mãe de Jesus. Durante 15 dias aquela mulher voltou para conversar com Bernadette. Criou uma fonte para que dela Bernadette se lavasse e bebesse, pedindo pela conversão da humanidade e ainda lhe revelou três segredos sobre o destino do homem. Desde esse dia, conta-se que centenas de milagres se sucederam naquele lugarejo ao longo dos anos e hoje ele é considerado o maior Santuário em peregrinação do mundo cristão. Bernadette passou por inúmeros constrangimentos e investigações e findou retirando-se para um convento de irmãs de caridade na cidade de Nevers na França onde morreu em 1879 com a idade de 35 anos. Seu corpo exumado em 1909, para o espanto geral, não tinha qualquer odor e estava incorruptível, livre da putrefação.

Essa fantástica e arrepiante história me fascinou a vida toda e, por ela, visitei Lourdes pela primeira vez em 1994. Jamais esquecerei a fila de cadeirantes e de doentes portadores de males terríveis e incuráveis, em cima de macas, sendo carregados vagarosamente em direção à gruta e ao banho com os seus rostos cheios de esperança. Aquela demonstração de fé nunca mais se afastou de mim. Embora não seja um religioso de plantão, posso afirmar de que foi em Lourdes o lugar que mais senti o que posso denominar de “presença de Deus” no conceito ditado por São Tomás de Aquino em sua Suma Teológica. Saí de Lourdes admirando profundamente Bernadette Soubirous e prometi que a visitaria em Nevers, com ou sem motivo, para demonstrar o meu carinho e minha afeição por aquela menina extraordinária. Voltei outra vez a Lourdes porque gostei daquilo que vi e senti.

Nevers é uma pequena cidade da Borgonha nas encostas próximas às margens do rio Loire localizada ao sul a 260 km de Paris. São 2h30 de trem parando em várias cidades. É um lugar bonito e silencioso e tudo fecha na hora do almoço como toda boa cidade interiorana. Fundada pelo Império Romano, possui uma Catedral gótica em honra de Saint-Cyr-et-Saint-Jullite de uma beleza incomparável. Era um dia de sol e temperatura agradável, assim, caminho ansioso por suas pacatas e silenciosas ruas, subindo uma longa encosta em direção ao Convento das Irmãs de Caridade, um caminho que passava por um imenso parque já florido pela primavera europeia. Algumas crianças brincavam animadamente no parquinho bem ao final do parque e, barulhentos, fez-me lembrar com saudades do meu filho, um dos motivos para a minha presença em Nevers.

A capela é simples, mas não me prendo a detalhes para descrevê-la. Olho à minha direita e vejo imediatamente numa capelinha ao lado, muito, mas muito próximo, a urna de cristal de Bernadette Soubirous. A cena é impactante, observo o corpo ainda preservado. Seu rosto é lindo e compenetrado. Os cílios, as pálpebras, o nariz, a boca, as mãos e as unhas, tudo absolutamente incorruptível, perfeitos. Ela está muito próxima, jamais esperava essa pequena distância. Faço orações com um fervor nunca dantes experimentado em qualquer ocasião de minha tumultuada e capenga vida espiritual. Minha visita durou apenas meia hora, mas equivaleu a uma eternidade. Vê-la tão próxima foi uma epifania. Perguntei-me ali mesmo: o que é a fé, afinal? Que sombras de dúvidas são essas que ainda me rodeiam? Afasto-me sempre olhando para Bernadette, e dela me despeço emocionado, saindo da capela que lhe guarda o corpo há mais de um século.

Voltei a Paris com velhos questionamentos. O que é a fé para cada um de nós? O que nos move a acreditar que há um Deus e uma vida eterna? O que podemos fazer para adquirir a fé perdida se não há nada de novo sob o sol, como esclarece o Eclesiastes? Respostas não há. Alguns preferem ser dogmáticos quando o assunto é a fé, seja ela que forma tomar. Outros felizes, no limbo da ignorância, preferem tão somente acreditar que basta cumprir suas “obrigações” mandamentais que já é o suficiente para lhes garantir o paraíso.

Alguns néscios têm o conceito medieval de que sou ateu. Tal qual a bíblica citação do exemplo do fariseu orando no templo, a velha mania de emitir julgamentos sobre o coração alheio continua atual. Sei que tal julgamento advém de algumas afirmações minhas sobre conceitos de religião e fé. Claro que não sou o cristão católico romano tradicional fundamentalista e nem acredito que faltar à missa significa condenação à danação eterna e costumo, por incontinência verbal (meu pior defeito), lançar minhas dúvidas e desconfianças sobre dogmas e conceitos criados por homens ignorantes há mais de dois mil anos. Sou contra radicais em todos os sentidos e sei que o inferno, se existir, se encontra repleto de fundamentalistas “cumpridores de suas obrigações litúrgicas”. Sou sim cheio de dúvidas sobre o eterno porque é natural que o homem procure a imortalidade a qualquer custo. E ainda bem que tenho as “abençoadas” dúvidas, porque isso me apascenta as dores da vida. Duro e triste é a certeza dogmática, porque nada mais resta a fazer da vida. Sou um admirador nato de Tomás de Aquino porque numa época em que a Igreja ainda buscava em Santo Agostinho e seus seguidores grande parte da sustentação doutrinária foi ele quem formulou um amplo sistema filosófico que conciliava a fé cristã com o pensamento do grego Aristóteles (384-322 a. C.) – algo que parecia impossível, até herético, para boa parte dos teólogos da época. Mas não faço questão de discutir filosofia nesse texto porque o objetivo aqui é narrar minha jornada pessoal rumo ao imponderável e ao extraordinário conceito de fé no que vi e senti em Lourdes e em Nevers. Então meu muito obrigado vai apenas para Bernadette Soubirous, que esteve sempre presente nessa minha jornada.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *