Exilado em Macondo

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Li Cem Anos de Solidão em 1967, quando o regime fardado me hospedou como perigoso subversivo da ordem ditatorial. Tinha 20 anos e uma sede insaciável de liberdade. Refugiei-me em Macondo. Passei a viver um universo paralelo de personagens delirantes, cenas prodigiosas em que mito, fantasia e realidade se confundiam. Morreu García Márquez e ele está em mim desde a primeira vez que o li.
Fascinado, li e reli o livro e dividi com Cordato Pasqualini, companheiro de cela, a inventiva deslumbrante de García Márquez. Organizamos numa página colada à parede da cela a grande árvore genealógica dos Buendía. E repetíamos à exaustão o esplêndido início do romance.

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de casas de barro e taquara, construída à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las havia que apontá-las com o dedo.”

Ao avesso do que se espera, no instante do fuzilamento, o coronel Aureliano não pensa na morte e sim na tarde em que, conduzido pelo pai, conheceu o gelo, o que banaliza o caráter trágico da cena.  O personagem rompe com o presente e recupera um fato remoto, que ao lado de certas antecipações do futuro é processo nuclear da composição do texto, fazendo com que passado, presente e futuro mantenham entre si divisórias flutuantes, por vezes imperceptíveis.

Cem Anos de Solidão constrói um mundo ficcional fascinante. Com suas infinitas superposições de sentidos; com sua quase inacreditável coerência interna, levando-se em conta a multiplicidade de ações e a galeria de pelo menos 60 personagens importantes; com seu eixo girando em torno de várias temporalidades em que o mágico e o racional se chocam e se confundem; com suas seis gerações da mesma família sendo amaldiçoadas pela culpa, pela sede de viver e pela abrasadora necessidade de decifrar o absurdo da existência; com seu poder de apresentar o mais convincente simulacro da vida real mediante um estilo luminosamente poético.

O final do livro é extraordinário. Precedido por ataque de formigas e por vozes que chegam do passado, o mundo anacrônico de Macondo inicia a sua decomposição sob o efeito de um terrível ciclone, enquanto o último dos Buendía, Aureliano Babilônia, começa a decifrar os pergaminhos do cigano Melquíades, onde tudo estava antevisto: o destino da estirpe e da cidade, ambas inexoravelmente conduzidas pela fatalidade  à destruição, ao fracasso existencial, cristalizado na irrevogável solidão que acompanha os seres na travessia enganosa do tempo, e à inutilidade das ações humanas diante do abismo do nada.

O texto atribuído a Melquíades é também claramente histórico: ali estão a Colômbia, com suas guerras fratricidas, seus coronéis de uniforme ou de pijama, a companhia bananeira, as chuvas tropicais, o nascimento, o progresso e o declínio de um ciclo econômico e de um tipo de sociedade dominada pela consciência sacral do mundo. Contudo, os pergaminhos ultrapassam o cotidiano, o mito e a história. Aureliano Babilônia descobre na página final que eles desvelam a passagem arrasadora do tempo,  o império da morte e da condenação ao esquecimento a que todos os seres são submetidos. A incessante busca pelo significado daquelas palavras enigmáticas chega ao fim. Não há retorno, não há segunda oportunidade sobre a terra. Há apenas a solidão. O último dos Buendía descobre que não escapará à desintegração da cidade que seus antepassados fundaram.

Depois vieram a mim os outros livros de García Márquez. Dos anteriores aos Cem Anos de Solidão, do La Hojarasca, Ninguém escreve ao coronel, Os Funerais de Mamãe Grande. E os maravilhosos O amor no tempo do cólera, Crônica de uma Morte Anunciada e os Doze contos peregrinos. Nunca mais me distanciei de García Márquez e de Macondo. A sua inesgotável proliferação de episódios, centrados em torno dos Buendía, em que avultam crimes, ímpetos guerreiros, ódios e paixões familiares, excentricidades, sexo irrefreável, relações incestuosas, perversas, poéticas, num formidável desfile de personagens arrastados pela espiral do tempo e contaminados pela praga da solidão.

A dualidade não resolvida entre dois processos civilizatórios engendra tensões e, sobretudo, a possibilidade de García Márquez romper com todas as amarras do realismo trivial através de uma imaginação criadora transbordante, em que o arbitrário, o hiperbólico, o humor corrosivo e as distorções mais fantasiosas tornam-se convincentes.

Tamanho é o poder de sua escrita que podemos vislumbrar Macondo e sua gente se alçando por sobre o pavoroso tufão que varre o mundo, erguendo-se por sobre as contingências do Juízo Final – para sobreviver. Eles sobrevivem em nossas mãos, transformados em palavra escrita, a superar o tempo, ultrapassar a morte, negar o seu destino, criaturas perenes convertidas em frases, em urdiduras sem fim, em tempo e espaço infinitos, indestrutível matéria literária que desabrocha, consolida-se e salva-se em pergaminhos anacrônicos.

Que outra literatura mais se aproxima da realidade que nos oferece personagens e situações como os descritos por García Márquez em seu discurso ao receber o Nobel de Literatura? Que outra ficção se pode escrever num mundo que viu o “general Antonio López de Santana, que foi três vezes ditador do México, mandar enterrar com funerais magníficos a perna direita que perdeu na chamada Guerra dos Bolos. O general García Moreno governou o Equador durante dezesseis anos como monarca absoluto, e seu cadáver foi velado com seu uniforme de gala e sua couraça de condecorações, sentado na poltrona presidencial. O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teósofo de El Salvador que fez exterminar numa matança bárbara 30 mil camponeses, tinha inventado um pêndulo para averiguar se os alimentos estavam envenenados, e mandou cobrir de papel vermelho a iluminação pública para combater uma epidemia de escarlatina”.

Devemos agradecer a Gabo pela paixão tardia de um ancião de 90 anos por uma adolescente virgem. Pelo amor de Firmina Dazo e Florentino Ariza, que demorou 53 anos, 4 meses e 11 dias para se concretizar. Pela morte anunciada de Santiago Nazar. Por nos dar Macondo e um universo onde podemos exilar a imaginação para sobreviver a este cada vez mais insípido vale de lágrimas.

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