Música erudita. Ed. 151

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A música na internet

Ângela Chiarotti

Foto: Sylvia Lelli

Foto: Sylvia Lelli

O maestro venezuelano Gustavo Adolfo Dudamel Ramírez é o mais vistoso e provavelmente um dos últimos produtos de um sistema agonizante. Durante todo o século 20 a indústria fonográfica fez sucederem-se gênios da batuta promovidos e exaltados por um pesado esquema promocional e empresarial. Dudamel, que assumiu a direção artística da Filarmônica de Los Angeles, é legítimo produto desta máquina parideira de geninhos: nasceu em El Sistema, projeto musical de inclusão social venezuelano.

Não deixa, porém, de ser curioso que, mesmo titular em Los Angeles, Dudamel continue a maravilhar a Europa com a Orquestra Jovem Simon Bolívar, formada por integrantes do Sistema. A Universal acaba de lançar no mercado nacional um CD gravado ao vivo em janeiro do ano passado em Caracas. No repertório, duas das mais gravadas obras de Tchaikovski: a Sinfonia nº 5 e o poema sinfônico Francesca da Rimini. A brilhante execução da Orquestra Simon Bolívar é mesmo um espanto. Projetos sociais costumam promover de fato a inclusão social, mas carecem de qualidade artística. Pois este é o inédito mérito do Sistema: rigor na formação técnica musical. Dudamel é espetaculoso ao reger, mas sabe fazer música como poucos. Tchaikovski não é fácil. Sucesso justo, portanto.

O caso é que a fórmula convencional já está com prazo de validade vencida. É preciso aproveitar este bom momento e ampliar o público potencial da música clássica. Isso se faz desengessando o ritual do concerto, formato do século 19 hoje obsessivamente cultuado apenas pela chamada tribo erudita. O que vale é mesmo a música ao vivo, mesmo que gravada e lançada em disco. O avassalador balde de democracia da internet na produção e recepção de música transformou a derrocada anunciada da indústria num inesperado e promissor recomeço. Músicos e seu público estabelecem agora contato imediato. Exaurido de tanta intimidade virtual, o indivíduo quer sentir-se parte do acontecimento artístico. Pode ser a utopia do retorno a uma situação primitiva. Não custa sonhar. Ainda bem.

A impetuosidade do Quarteto Talich

Márcia Campos

O Quarteto Talich em sua formação atual, com Vladimír Bukač (viola), Jan Talich Jr (Primeiro violino), Roman Patočka (Segundo violino) e Petr Prause (cello). Foto: Divulgação

O Quarteto Talich em sua formação atual, com Vladimír Bukač (viola), Jan Talich Jr (Primeiro violino), Roman Patočka (Segundo violino) e Petr Prause (cello). Foto: Divulgação

Conhece a expressão “ouvir é ouro, falar é prata”? E quando ambos se complementam, gerando uma simbiose perfeita a ponto de transcender?
Existe isso? É possível? Sim, é possível, e se deu com o Quarteto Talich. Este grupo tcheco, formado em 1964, é considerado um dos melhores quartetos de cordas do mundo.

Inicialmente formado por Jan Talich, Petr Messiereur, Jan Kvapil e Evzen Rattay, o Quarteto Talich tem esse nome como uma forma de homenagear o famoso maestro Vaclav Talich – tio de Jan –, que durante anos foi o detentor da batuta da Filarmônica Tcheca.

Ao longo dos anos foi somando gravações de obras inteiras de nomes de peso, como Mozart e Beethoven, recebeu prêmios significativos, como o Diapason d’Or, o Grand Prix du Disque, o Diapson du siècle e o Gold Disque Supraphon, dentre outros.

Músicos virtuoses, impetuosos, extraem o máximo das cordas de seus instrumentos musicais, sons capazes de falar ao nosso sentido mais passivo, que é a audição. E se nenhum dos sentidos pode nos desequilibrar tanto quanto a audição, eles se encarregam disso, pois colocam na música o que Wolfgang Amadeus Mozart costumava apregoar: “Para fazer uma obra de arte não basta ter talento, não basta ter força, é preciso viver um grande amor”.

O Quarteto Talich vive esta história de amor há 50 anos, passando de geração a geração este amor incondicional pela música. Agora, a segunda geração assumiu o posto, desde 1997, de maneira tão brilhante como a formação inicial. Com agenda lotada, as apresentações em concertos mundo afora são de altíssimo nível, aliando intensidade, paixão, profundidade e elegância em seu estilo – um modo talichniano de tocar.

Já estiveram em plagas brasileiras, participando da série de circuitos de música erudita em espaços culturais. Passaram como cometa deixando rastros, ou seja, uma legião de fãs da boa música e de interpretações capazes de unir ao mesmo tempo a audição e a fala, pois é difícil segurar um comentário como “esplêndido”.

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