Noivas apaixonadas, maridos enlouquecidos

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O casamento na MPB

 

Lá na Europa, há muitos séculos, quando os casamentos ainda eram uniões marcadas pelas escolhas políticas e sociais dos pais, sem o amor estar envolvido na situação, os pares eram arranjados de acordo com as mais diferentes circunstâncias da família, e muita coisa era levada em consideração. Nada da vontade dos noivos e tudo sobre manter grupos sólidos, fortes, poderosos, capazes de proteção e ataque. Tudo sobre estratégia pela sobrevivência e nada de sentimentos – bem parecidinho com o que vemos por aí, vez ou outra.

De tanto fechar o cerco e procurar fortalecer cada vez mais as estruturas, duas realidades coexistiram assim, meio em guerra meio em paz: grandes incestos que garantiam a solidez das famílias e um marido e muitas esposas, que proporcionava o crescimento dos grupos.á na Europa, há muitos séculos, quando os casamentos ainda eram uniões marcadas pelas escolhas políticas e sociais dos pais, sem o amor estar envolvido na situação, os pares eram arranjados de acordo com as mais diferentes circunstâncias da família, e muita coisa era levada em consideração. Nada da vontade dos noivos e tudo sobre manter grupos sólidos, fortes, poderosos, capazes de proteção e ataque. Tudo sobre estratégia pela sobrevivência e nada de sentimentos – bem parecidinho com o que vemos por aí, vez ou outra.

Se distraidamente rolasse um affaire o lance ficava tenso. Era preciso romper a ordem, traçar plano de fuga, rapto, pacto, engazopar a vontade dos pais, da família, do mundo. Casamento não tinha dessas coisas, o amor era subversivo – muito semelhante com o que, de quando em vez, observamos em nossa modernidade.

Ah! Tantos Tristões e Isoldas a perambular almas pelo mundo…

A História da humanidade aconteceu de muitos jeitos e para muitos lados até chegar aonde estamos hoje. A política, a Igreja e os interesses das nações conseguiram que fossem proibidos laços incestuosos e acabou sendo necessário expandir a área de busca e de interesses.

E o casamento virou tudo: símbolo cristão, certidão de alforria, carta de sujeição, bons negócios, perpetuação da espécie, fortalecimento de culturas, sexo seguro, DRs, adultério, pensão alimentícia, advogados, inseminação artificial, problemas com a sogra e até, pasme!, amor com final feliz.

Nos tempos de hoje, que é o desse último século que ficou pra trás, fomos todos testemunhas de que para uma pá de muitas mulheres o casamento era mais que um sonho, acabava se transformando em objetivo da vida. Planejar festa, pensar vestido, preparar enxoval. O casamento, o evento, era a linha de chegada, o alvo, a meta. Pouco se pensava, além da ideia fantasiosa e idealizada, sobre o que viria depois – e quase sempre o que viria depois da festa era muito parecido com o que sabemos do começo da civilização: um negócio.

Essa coluna vai, essa coluna vem, para que tudo termine em música. Como são os casamentos na MPB? Eles são muitos e de variados tipos, noivas nervosas, maridos enlouquecidos, uniões felizes. Como na vida, tem de tudo.

Tem gente que se detém na partilha de bens, “o disco do Pixinguinha é meu”

Tem gente que se detém na partilha de bens, “o disco do Pixinguinha é meu”

A primeira parada é lá em 1917, com o glorioso e sempre presente por aqui Pixinguinha. Ele fez a música que até hoje é cantarolada, e um modesto mecânico do Méier, Otávio de Souza, escreveu-lhe os versos. Decerto ele estava muito apaixonado e com intenções de casamento, porque a certa altura de sua declaração ele revela: “Oh meu Deus o quanto é triste / A incerteza de um amor / Que mais me faz penar em esperar / Em conduzir-te um dia / Ao pé do altar / Jurar, aos pés do onipotente / Em preces comoventes…”.

Otávio de Souza nem pensava que o altar não dá garantias a ninguém. Marino Pinto e Zé da Zilda compuseram em 1942 para um monte de gente boa cantar aqui e além Aos pés da cruz: “Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou / E em nome de Jesus / Um grande amor você jurou / Jurou e não cumpriu / Fingiu e me enganou / Pra mim você mentiu / Pra Deus você pecou”.

E quando tudo desaba mesmo, sem chance de retorno ou de reconciliação, quando uma briguinha aqui e outra ali se transformam no inferno impossível de seguir? O jeito é ir embora. Tem gente que se detém na partilha de bens, “o disco do Pixinguinha é meu”, e tem gente que vai logo despachando as tralhas alheias, como Itamar Assumpção e Alice Ruiz em Vê se me esquece: “Venho por meio desta / Devolver teu faroeste / O teu papel de seda / A tua meia bege / Tome também teu book / Leve teu ultraleve / Carteira de saúde / Tua receita de quibe / De quiabo, de quibebe / O diabo que te carregue”. Ou como Ivan Lins e Vitor Martins em Bilhete, que organizaram tudo para dar fim ao que já estava acabado: “Arrumei a sala, já fiz tua mala / Pus no corredor […] Jogue a cópia da chave por debaixo da porta / Que é pra não ter motivo de pensar numa volta / Fique junto dos teus/ Boa sorte, adeus”.

Vanessa da Mata, autora com Liminha de Case-se comigo

Vanessa da Mata, autora com Liminha de Case-se comigo

Vanessa da Mata, mais moderninha, foi quem mandou o ultimato em Case-se comigo, a música, derramada em amor e em parceria com Liminha, não deixa dúvidas sobre os sentimentos da autora e a certeza de que a união é a única saída: “Case-se comigo antes que amanheça […] Antes que eu acorde e seja um pouco mais assim / Meu príncipe, meu hóspede, meu homem, meu marido”.

Gilberto Gil também desfiou proposta irrecusável para contar da vontade de união permanente com Flora. A Linha e o linho foi escrita em Paris, no Hotel Meurice (quem diria que o lugar em que Hitler fez de base para seus planos viraria quartel-general de amor?). Eu já vi uma meia dúzia de cerimônias serem embaladas por essa composição: “É a sua vida que eu quero bordar na minha / Como se eu fosse o pano e você fosse a linha / E a agulha do real nas mãos da fantasia / Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia”.

Outro que sabia direitinho dos desejos desesperados de desencalhar era Lamartine Babo. Em 1934, ele tratou de lançar mãos ao alto e cutucar a eternidade dos santos atrás de seu objetivo. A marchinha Isto é lá com Santo Antônio primeiro foi música de carnaval, depois rolou para festa junina: “Eu pedi numa oração / Ao querido São João / Que me desse um matrimônio / São João disse que não! / Isto é lá com Santo Antônio! […] Implorei a São João / Desse ao menos um cartão / Que eu levava a Santo Antônio / São João ficou zangado / São João só dá cartão / Com direito a batizado […] São João não me atendendo / A São Pedro fui correndo / Nos portões do paraíso / Disse o velho num sorriso: / Minha gente, eu sou chaveiro! / Nunca fui casamenteiro!”.

Capa do álbum de Kleiton e Kledir que lançou a divertida Maria Fumaça

Capa do álbum de Kleiton e Kledir que lançou a divertida Maria Fumaça

Os irmãos Ramil narraram, em tom gauchesco, a divertida história do noivo que tem medo de perder o próprio casamento. Passageiro da Maria Fumaça que se arrastava pelos trilhos da RFFSA, o noivo desesperado ia dando detalhes ao maquinista, unindo o desespero da pressa com os detalhes pitorescos de sua escolha: “Se chego tarde não vou casar / Eu perco a noiva e o jantar / A moça não é nenhuma miss / Mas é prendada e me faz feliz / Seu pai é um próspero fazendeiro / Não é que eu seja interesseiro / Mas sempre é bom e aconselhável / Unir o útil ao agradável […] No dia alegre do meu noivado / Pedi a mão todo emocionado / A mãe da moça me garantiu: / ‘É virgem, só que morou no Rio’ / O pai falou: ‘É carne de primeira / Mas se abre a boca / Só sai besteira’ / Eu disse: ‘Fico com essa guria / Só quero mesmo / É pra tirar cria’”.

Pedidos feitos, alguns atendidos, outros suspensos a boiar no ar. Dos que se consumaram é bom dar uma “visitadinha” ao lar, para ver como vai a vida. Chico Buarque contou em Deixa a Menina que nem sempre o cônjuge lembra-se das artes de perceber o que a companheira quer e precisa. Atenção maridos!, ouçam o Chico, ele tem lá certo jeito com as mulheres: “Cê tá de lascar / Cê tá de doer / E se vai continuar enrustido / Com essa cara de marido / A moça é capaz de se aborrecer / Por trás de um homem triste / Há sempre uma mulher feliz / E atrás dessa mulher / Mil homens, sempre tão gentis / Por isso, para o seu bem / Ou tire ela da cabeça / Ou mereça a moça que você tem”.

Mas se há tanta gente atrás de realizar o sonho de amor, o reinado da felicidade, o lar de maravilhas é porque em alguns lugares isso tudo existe. E não sejamos descrentes, quem ama sabe que não há nada que remova a ideia fixa de dividir a vida com quem nos transforma em ser melhor.

Para terminar a coluna e voltar aos sonhos de casamento, Celso Fonseca, que compôs com Suely Mesquita Minha Dalva de Oliveira, uma afirmação de bons sentimentos, declaração de quem pode ser porto seguro e incentivador, admirador e protetor: “Meu perigo de incêndio / Não esconde teu fogo / Faz fumaça e um carnival / Suja tudo de fuligem / Cria fama de louca / E acha pouca toda a confusão / Depois volta pra casa comigo / Serei sempre teu abrigo / A me prestar a esse papel / Papel maravilhoso de marido / Eu sou teu fã, eu tô contigo / E é só teu meu coração”.

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