O ocaso da vida

Lucius-Annaeus-Seneca

Dias atrás revi o premiado filme Amor de Michael Nike, austríaco, que, além de autor, diretor e roteirista, estudou psicologia e filosofia na universidade de Viena. Seu enfoque para a finitude da vida nesse filme foge aos clichês do final feliz, de campos floridos e doces paisagens. Até, por sua formação, traz-nos uma visão real do declínio físico do ser humano, mostrando sua fragilidade diante da inexorável passagem do tempo.

Dir-me-ão alguns que foram ressaltados aspectos duros demais da senilidade, que em um primeiro momento são até chocantes, porém, creio que reside justamente aí a ideia do autor, obrigar-nos a uma reflexão profunda, não apenas sobre a pessoa que vai, mas também sobre aquela que fica. Mostra-nos a relação de amor e admiração entre um casal de músicos aposentados, até que ela sofre um “derrame” (acidente vascular cerebral) que passa a limitar extremamente sua vida, dando início a uma outra relação que é a de dependência do outro. Traz à mostra não só as dificuldades físicas, mas, principalmente, as emocionais do parceiro cuidador, que em algumas vezes se exaspera pelo fato de ela estar aos poucos desistindo de viver.

Há, ainda, a presença de uma filha, que mais preocupada consigo mesma, aumenta a sensação de abandono e desamparo da velhice.
Mesmo não sendo baseado em uma história real específica, é, sim, baseado em histórias reais que nos trazem o alerta da necessidade de uma percepção melhor das fases da vida.
Somos, muitas vezes, tão soberbos quanto à nossa condição humana no alto de nossos 40,50 ou 60 anos, achando-nos o suprassumo da criação divina, que quando nos deparamos com situações como essas a que o filme nos submete, soa-nos até agressivo demais.

Sêneca, filósofo romano, nascido na Espanha e um dos expoentes do estoicismo, deixou-nos uma obra intitulada Sobre a brevidade da vida. Traçando um paralelo sobre sua obra e o filme Amor, ele nos levaria a uma inflexão surpreendente, mostrando-nos que a arte de viver passa também pelo entendimento da arte de morrer. “Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu te espantes, por toda a vida deve-se aprender a morrer”. Assim, para Sêneca, a filosofia é, a princípio, a tomada de consciência da condição humana no tocante à sua mortalidade. Sua interpretação do célebre oráculo de Delfos “conhece-te a ti mesmo” será a tomada de consciência de nossa mortalidade e nossos limites. “Vive mal quem não sabe morrer bem.” Teria então a filosofia como uma de suas principais funções afastar do homem o medo da morte.

Viver uma vida plena, dentro de um aspecto de consciência da necessidade de nosso desenvolvimento diário para sermos melhores como pessoas, traria–nos ao longo dos anos uma sensação de paz interior dentro da perspectiva de uma vida bem vivida.
A materialidade, muitas vezes, nos confunde e nos impede desse desenvolvimento, nos levando ao final de nossos anos a um vazio brutal.

Com relação a isso nos diria Sêneca: “Portanto não há por que pensar que alguém tenha vivido muito por causa de suas rugas ou cabelos brancos, ele não viveu muito tempo, simplesmente foi por muito tempo”. Aqui vemos uma clara distinção entre viver e ser. Deixar-se existir e calcular o tempo apenas pelo relógio e não pelo desenvolvimento da vida interior.
Temos perdido muito tempo com preocupações. Considero as preocupações o verdadeiro câncer mental. Preocupar-se com algo que pode não vir a ser é jogar tempo e vida pela janela.

A vida se divide em três períodos: o que foi, o que é, e o que há de ser. Destes, o que vivemos é breve, o que havemos de viver, duvidoso, e  o que já  vivemos, certo.
Viver uma vida real, baseada no presente, é  a única chance de perceber, realmente, o que é vida e o que é estar vivo, senão é passar os dias brigando com o passado ou com medo do futuro, e no ocaso dessa vida constatar que pequena é a parte da vida que vivemos, pois todo o restante não foi vida, mas simplesmente tempo.

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