Prateleira. Ed. 151

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Paulo Mendes Campos

É hora de revisitar a obra poética do cronista Paulo Mendes Campos. Mineiro de Belo Horizonte nascido em 1922 e falecido em 1991, viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Livros como O domingo azul do mar fizeram dele um dos melhores poetas de sua geração. Como cronista, foi, ao lado de Fernando Sabino e Rubem Braga, um dos responsáveis pelo enorme prestígio que o gênero ganhou no país nos anos 1950-60. Marcada pelo humor e pelo lirismo, sua obra, em que se incluem livros como O cego de Ipanema, Homenzinho na ventania, O colunista do morro, permaneceu esgotada durante anos antes de ser reorganizada pelo jornalista Flávio Pinheiro e ganhar novos títulos, entre eles O amor acaba, Cisne de feltro, O gol é necessário e Artigo indefinido. Leiam o Poema Didático, para perceber a poesia de Campos.

 

Poema didático

Paulo Mendes Campos

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,
Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar?

Meu instante agora é uma supressão de saudades. instante
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.
Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.
E não olhei a ferrovia – mas o homem que sangrou na ferrovia –
E não olhei a fábrica – mas o homem que se consumiu na fábrica –
E não olhei mais a estrela – mas o rosto que refletiu o seu fulgor.
Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ?
O mundo, companheiro, decerto não é um desenho
De metafísicas magníficas (como imaginei outrora)
Mas um desencontro de frustrações em combate.
nele, como causa primeira, existe o corpo do homem
- cabeça, tronco, membros, aspirações e bem estar…

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética
Ou vaga advinhação de poderes ocultos, rosa
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.
O mundo nasceu das necessidades. O caos, ou o Senhor,
Não filtraria no escuro um homem inconsequente,
Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem
É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -
Se podemos admiti-lo – não se redime em injustiça.
Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo
Entre os filhos da terra. Força – aos que o herdaram -
É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,

Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,
sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento
De todos: se multipliquei a minha dor,
Também multipliquei a minha esperança.

Apresentando André Viana

Cosac Naify publicou em abril o romance de estreia de André Viana, O doente, que narra, no formato de uma série de entrevistas gravadas, os principais momentos da vida de um homem sem nome a partir da morte do seu pai, de câncer, no dia do seu aniversário de onze anos.
Para apresentar André Viana ao público leitor, uma breve entrevista com o escritor:

 

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Foto: Kiko Ferrite

Você trabalha há muitos anos com jornalismo. Como foi migrar para a ficção? Já tinha escrito outros textos ficcionais antes deste romance?
Na verdade, minha migração é quase o inverso. Meu pai, Antonio Carlos Viana, é escritor (quem não conhece, corra já até a livraria mais próxima). O tema da ficção, portanto, é algo que me acompanha desde criança: as conversas entre meus pais, os livros sempre presentes na decoração de casa (eu não lia tudo, obviamente, mas sabia de cor a posição de cada livro na estante). A Faculdade de Letras, no fim, era o destino que me parecia mais natural. Mas aconteceu que no ano em que prestei vestibular, 1994, a Universidade Federal de Sergipe inaugurou o curso de Jornalismo. E eu sucumbi à tentação. Assim que me formei, em 1997, fui chamado para fazer o Curso Abril de Jornalismo, na editora Abril, em São Paulo, e logo emendei com meu primeiro emprego, e a vida seguiu. Claro, desde a faculdade tinha minhas tentativas secretas de escrever textos que pareciam contos, embora no fundo eu soubesse que não eram nada. Felizmente sempre tive bom senso e gavetas dentro de casa.

 

O personagem central, que narra sua história a um interlocutor “mudo”, é uma figura de opiniões fortes e histórias pesadas. Qual foi sua inspiração para criar tal personagem?
A resposta a essa pergunta é quase uma continuidade da anterior. Em 15 anos de jornalismo, por supuesto, fiz muitas entrevistas, encontrei pelo caminho o mais variado tipo de gente. O personagem de O doente, como muitos personagens, é o resultado de muitas “opiniões fortes e histórias pesadas”. Toda vez que eu ouvia algo interessante, armazenava em algum escaninho cerebral, talvez um, pensando agora, no qual estivesse escrito “para futura ficção”. Comecei a escrever O doente em 2002, o que marca precisamente 12 anos entre a primeira frase escrita e a publicação (curiosidade: a primeiríssima frase que escrevi para o que viria a ser O doente é a que inicia a segunda carta, página 113). Eu estava, portanto, com 27 para 28 anos. Ainda tinha uma carreira jornalística a consolidar e nenhuma pressa ou desejo de me tornar ficcionista. Escrever O doente durante todos esses anos foi um modo de não deixar meu pensamento enferrujar. Minha amizade com o personagem foi se consolidando com o tempo. A tal ponto que uma hora achei que seria maldade minha mantê-lo encarcerado no meu computador, e achei por bem libertá-lo. Ele estava precisando, coitado, vida sofrida danada, merecia ter a chance de uma vida nova.

 

Livros que giram em torno de uma figura presa em sua própria diatribe é a marca registrada do austríaco Thomas Bernhard — citado nominalmente em O doente. Qual a influência de Bernhard em sua escrita?
o-doenteO que pode haver de Thomas Bernhard na minha escrita, e não só na minha escrita, mas no jeito como enxergo a arte, é o modo como ele usa a raiva como motor para sua literatura. Mas, nesse ponto, talvez meu maior exemplo literário esteja mesmo dentro de casa, com meu pai. De todo modo, a raiva de Thomas Bernhard ou de Antonio Carlos Viana não é mais influente na minha escrita do que a poesia de Carlos Drummond de Andrade, outro citado nominalmente. Ou as músicas do Radiohead, que ouvi muito enquanto escrevi o livro. Ou todos os filmes citados no livro. Agora, se há um Thomas importante em O doente, esse Thomas é o Mann, autor da epígrafe e do epitáfio do livro — e esse ponto de chegada e partida em O doente não é mera coincidência, claro. É bom lembrar que era para Hans Castorp, personagem principal de A montanha mágica, passar apenas três semanas no Sanatório Berghof, visitando o primo Joachim. Terminou vivendo sete anos lá em cima. Esse longo “estado de suspensão”, essa “figura presa”, é uma — senão a — grande influência para o personagem de O doente.

 

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