Editorial. Ed. 152

Os homens são assim feitos: quando não podem dominar os fatos, conjuram os espíritos. É mais fácil.
Estamos chegando ao que promete ser a disputa mais acirrada para a Presidência da República dos últimos vinte anos e o debate político desceu ao rés do chão. Não há ideias, não há projetos, não há programas partidários. Sobram denúncias, escândalos, acusações e que tais que envenenam a alma do brasileiro.

É bom momento para os marqueteiros. A campanha política recusa argumentos e usa à exaustão os recursos da propaganda que explora as descobertas mais recentes da neurociência, que já definiu que o eleitor vota mais com a emoção do que com a razão.
O sociólogo Manuel Castells, baseado também na neurociência, diz que o medo é a emoção primária fundamental, a mais importante de nossa vida a influenciar as informações que alguém recebe. O livro de John Mearsheimer sobre o velho hábito de mentir dos governantes debruça-se sobre o que ele chama de “mentiras estratégicas”, e uma das muitas facetas dessas mentiras “para o bem da pátria” é a difusão do medo.

Eis a base da propaganda partidária do PT. Apela, sem pejo, para o receio do que classifica de retrocesso caso a sigla seja derrotada nas urnas. Para se contrapor à tendência à mudança que as pesquisas apontam como a principal motivação para o voto nesta eleição.
É interessante observar que, embora esteja na frente nas pesquisas, a presidente Dilma concorre à reeleição com dificuldades. Mas não abre mão. “É a minha hora. E vou até o fim. Perdendo ou ganhando.”

Não é de estranhar que a estratégia do medo tenha sido o caminho escolhido pelo marqueteiro João Santana, que já admitiu certa vez que, numa campanha, trabalham-se “produções simbólicas”, tentando captar “o imaginário da população”, não exatamente a verdade dos fatos.

Nessa guerra, como em todas as guerras, a verdade é a primeira vítima, na frase famosa atribuída geralmente ao senador americano Hiram Johnson. Em A República, Platão afirma que os governantes têm o direito de não dizer a verdade para os cidadãos, e até mesmo de mentir “no interesse da própria cidade”.

O governo Dilma leva essa permissão platônica ao pé da letra e cria um mundo de ficção que esbarra na realidade. É por isso que somos obrigados a testemunhar verdadeiro festival de traições nos bastidores da política, à medida que a campanha eleitoral vai se aproximando das datas marcadas pelo calendário oficial para a definição das candidaturas.
O que já desandou na estratégia política de Dilma, Lula & Cia foi a realização da Copa do Mundo como instrumento galvanizador dos anseios nacionais. Ao contrário, as necessidades da população nos grandes centros urbanos do país contrastam com a orgia de gastos públicos nos 12 estádios, colocando em xeque as prioridades do governo, definidas em detrimento das mais prementes demandas da população.
A seleção não deixará de ser “a pátria de chuteiras”, na definição perene de Nelson Rodrigues, mas o patriotismo não servirá de refúgio para as deficiências do governo.

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