O Pasquim

Em 1969, eu morava ainda na casa de meus pais, na rua Lamenha Lins, entre a Av. Sete de Setembro e a Silva Jardim. Do outro lado da rua, quase na esquina com a Sete, havia uma pequena banca de revistas.
Foi nessa banca que comprei – por mera casualidade – o meu primeiro exemplar de o Pasquim.

Penso que se eu registrar aqui que até hoje guardo não apenas aquele – o número 1 ! – mas também todos os cem primeiros exemplares, consigo dar uma ideia do quanto a leitura semanal, atenta e deslumbrada daquele jornaleco foi importante naquela fase da minha vida, deixando algumas sequelas que até hoje – passados mais de 40 anos – ainda se manifestam.

Pra quem não sabe, o Pasquim foi um semanário criado por jornalistas, humoristas, artistas gráficos e intelectuais, todos moradores do mítico bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, que se transformou – contra as expectativas dos próprios criadores – num fenômeno editorial, chegando a vender, nas bancas, inacreditáveis duzentos mil exemplares por semana.
Num tempo em que não havia internet, era uma dádiva poder acessar, através das páginas de o Pasquim, os textos de Paulo Francis, Ivan Lessa, Luis Carlos Maciel, Sérgio Augusto, Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Millôr Fernandes e os cartuns de Jaguar, Ziraldo, Fortuna, Henfil & cia.

Pra não falar das entrevistas, peças de resistência de cada edição. Jânio Quadros, Elke Maravilha, Pelé, Glauber Rocha, Ibrahim Sued, Leila Diniz, Tom Jobim, Madame Satã, Lula, entre centenas de outras personalidades das cenas artística, política e esportiva da cultura nacional foram entrevistados, quase sempre – entrevistados e entrevistadores – caindo de bêbados.

Vivíamos sob o AI-5, a censura infernizava, mas ainda não havia nascido o famigerado “politicamente correto” e, ao ser entrevistado, o vetusto e venerável líder comunista Luis Carlos Prestes ouviu, pasmo, Tarso de Castro lhe perguntar: “O Sr. já entubou?”.
Entre 1969 e 1975, pouco mais, pouco menos, o Pasquim pautava as conversas da rapaziada “ishperrta” de minha geração. Anos depois, quando, decadente, fechou as portas, de certa forma levou junto com ele uma era em que acreditávamos que, com o fim do golpe militar, resolveríamos todos os problemas do Brasil.
Não poderíamos estar mais enganados.

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