Paisagem na neblina

A neblina nascia pela manhã, cortava as ruas rasteira, para deixar a cidade encoberta até o fim do dia. Tudo lembrava a tela “Impressão: nascer do sol” (1872), de Claude Monet (1840-1926), nome que deu origem ao movimento Impressionista, no século 19, durante a Belle Époque, na França, e exprime estas características: impressão, emoção, percepção. Lembra também a literatura de Mallarmmé e Kerouac, no ritmo distinto de cada escrita.

A cada quadra vem uma música, lembra um verso, aparece uma cena. Hitchcock e David Linch estavam ali, com suas nuances densas, a estética aguçada e cenários impactantes. Nada é tão comovente como ver a cidade dos sonhos. A transgressão de Andy Warhol, Jimmy Hendrix e Janis Joplin ressoava alto como a sua arte. Ideias, pulsação, revolução.

A cidade se amalgama e se reinventa todo dia, em cada espaço, para depois deixar impressa na pele, na retina, no pulso, os acordes e a paisagem surreal, que ora é neblina, cinza, desfocada em brancos, ora é sol escaldante, mar, imagem em super 8. Nítida, viva, carregada de cor.

O vento, ele sempre no presente, agora vem forte, intenso, esparrama ao redor das margens, reinventa outro cenário e não deixa nada no lugar, nem como era antes. A cada segundo, movimento, leveza e a certeza do coração selvagem.

Ouço E.E. Cummings:

 

“que tal se um nem de um quem de um vento

põe verdades nos falsos verdes

sangra com folhas zonzas o ar

e arranca estrelas do seu lugar?”

 

Por fim, a neblina se transforma em véu, invade as esquinas e percorre a memória do futuro, e, neste momento, Cummings continua:

 

 “que tal se um sim de um som de um sonho

corta o universo em dois,

descasca sempres de seus sepulcros

e espalha nens entre mim e vós?

Dá hoje ao nunca e nunca ao dobro

(dá vida ao não, dá morte ao foi)

– o nada é só outro imenso lar;

o mais que morre, o demais que é ser”

 

E encontro um lugar secreto, um imenso lar, onde há apenas sim, som e sonho.

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