Roberto Campos, o homem mais lúcido do Brasil, era meu parente

O Roberto Campos era irmão da ex-mulher do tio-avô da Ana Luisa, minha mulher. Para dizer de outra forma: Campos era irmão da ex-cunhada da avó da Ana Luisa. Dando nomes: a irmã do senador, conhecida como “Catitinha”, era casada com o “Tito”, irmão da “Vó Cô” (Clotilde), mãe da minha sogra, Heloisa Caron. Não é propriamente um parentesco consanguíneo, admito. Trata-se de um parentesco transversal, por afinidade e, não ignoro, longínquo. Quem sabe as regras do Código Civil nem me reconheçam como parente, o que importa nada. Considero-me parente. Ponto.
Fiquei os primeiros anos da minha vida sem o parentesco. Só veio com o casamento, por afinidade, como acabei de explicar. A afinidade ideológica veio um pouco antes. Mas foi avassaladora.

Durante muito tempo me entendi de esquerda. Tinha todas aquelas certezas de manual. Em determinado momento, mais ou menos como confessou Paulo Francis em memórias, minha cabeça começou a me lançar sinais contraditórios. Quanto mais eu buscava explicações para a queda do muro nos livrinhos coordenados por Emir Sader, mais me convencia do contrário. O script de todo e qualquer esquerdista incluía certa ojeriza por Bob Fields, como tinha sido pejorativamente batizado. Durante um tempo, acompanhei de longe, com discreta admiração, a carreira de Campos. A leitura de seus textos foi fatal para minhas já titubeantes convicções esquerdistas.

Da biblioteca do meu pai eu peguei Além do Cotidiano. Lembro muito dos artigos sobre a Petrobras e, mais ainda, o que havia escrito sobre a bizarra reserva de mercado de informática. Depois os Ensaios Imprudentes (mais mercado; menos estado). Fui de fato apresentado a Hayek e Misses por Campos. Logo em seguida foram outros ensaios, agora reunidos em O Século Esquisito, entre os quais A propósito do socialismo. Começou a me dar certa vergonha de ter acreditado e defendido tanta bobagem. Quando lançou Antologia do Bom Senso (prêmio Jabuti de 1997), eu já era um admirador de carteirinha de Roberto Campos. Nelson Rodrigues chamava Campos de “fanático da coerência”. Irresistível coerência.

Quase foi padre. Sorte nossa que não seguiu a carreira eclesiástica. Teria sido um desperdício. Diplomata de carreira (primeiro lugar no concurso), aos 25 anos já era adido comercial da embaixada brasileira em Washington. Foi tudo na vida, em vários governos. Se os militares tivessem prestado mais atenção em Campos (foi ministro do Planejamento apenas de Castelo Branco), estaríamos mais próximos do que fizeram os chilenos em tempos de Pinochet. Falo aqui apenas de economia, é claro.

O inusitado. Aos 65 anos abandona a Embaixada do Brasil em Londres para ser candidato ao Senado pelo Mato Grosso. “Democracia é ótimo”, dizia Campos, “o que aborrece é esse negócio de precisar de votos”. Mas ele conseguiu os votos necessários e se elegeu senador. Depois ainda se elegeu duas vezes deputado federal pelo Rio de Janeiro e, por muito pouco, não voltou ao Senado com os votos dos cariocas na última eleição que disputou. Perdeu para Saturnino Braga. Um crime, convenhamos. Ainda teve tempo de ganhar uma última e merecida eleição para a Academia Brasileira de Letras.
“Estive certo quando tive todos contra mim”, costumava dizer mais no final da vida. Hoje é possível dizer que a história deu razão a Roberto Campos.

Ao vivo e a cores, vi Campos uma única vez. Veio a Curitiba para uma palestra a convite de Cristiane Mocellin. Dois anos antes de morrer. Eu estava lá. Já com mais de oitenta anos, Roberto Campos deu um show. No final, hesitei e acabei não me apresentando. Achei que seria um tanto difícil explicar que era genro da sobrinha do ex-marido da irmã dele. Bobagem a minha. Morri sem cumprimentar meu parente. Grande arrependimento.

Deixe uma resposta