A Copa Esquecida

A final do Campeonato Mundial de Futebol de 1942 estava sensacional. Os dois times jogando com a alma de guerreiros. O empate em 1 x 1 não era merecido por nenhuma das equipes e uma deveria sair vencedora para poder levar a taça Jules Rimet para casa. Uma verdadeira glória em tempos de guerra… Glória de uma batalha que só terminaria alguns minutos mais tarde.

O começo Tudo começou quando o conde Vladimir Otz, um milionário húngaro emigrado para a Patagônia nos anos trinta, resolveu que haveria a Copa do Mundo mesmo que suspensa pela Fifa por causa da guerra.

Sua obstinação e fanatismo pelo esporte o tornaram figura conhecida e vista como excêntrica, mas inegavelmente empreendedora. Suas generosas contribuições para o esporte e cinema levaram o governo argentino a lhe conceder o cargo de ministro dos Esportes do Reino da Patagônia.

02-filmeInconformado com a renúncia da Fifa em fazer a competição, juntou-se a Jules Rimet, o idealista presidente da federação francesa de futebol, e começou uma campanha ostensiva para que a Copa fosse realizada em sua região.
Consta que mandou mais de 200 cartas para as federações esportivas de todo o mundo alegando que a Copa de futebol seria a única manifestação que poderia acabar com a guerra. Em um pronunciamento radiofônico declarou:

“As razões que dificultam a realização do Mundial na Patagônia são as mesmas que causaram a guerra na Europa. A imbecilidade infernal do regime, a inutilidade da diplomacia e a burocracia, não matarão este esporte. Desta vez acontecerá ao contrário.”

A insana tenacidade do conde rendeu bons frutos. Enfim, em 8 de novembro de 1942, a taça Jules Rimet chegava com grande comoção popular na estação de Cipolleti. Deu-se, então, na Villa Centenario, o início do quarto Campeonato Mundial de Futebol, na Patagônia.

Para conseguir as equipes, Otz entrou em contato com os representantes das várias nacionalidades de trabalhadores que estavam construindo o dique de Barda del Medio, próximo ao rio Neuquén. Escavadores, pescadores, militares, exilados, revolucionários em fuga e alguns poucos profissionais formaram as doze equipes que disputariam o campeonato.

Alemanha, Itália, França, Espanha, Brasil, Polônia, Escócia, Suíça, Inglaterra e Irlanda eram os países que estavam sendo representados. Com a recusa dos governos da Argentina e Chile em participar de um campeonato não reconhecido pela Fifa, o conde Otz formou mais duas equipes independentes: uma que representava o seu Reinado da Patagônia e outra formada por índios Mapuches, famosos na região por sua habilidade com a bola.

O conde Vladimir Otz contratou pessoalmente alguns personagens que considerava de vital importância para o sucesso do evento. Um deles, Guillermo Sandrini, um cinegrafista e inventor de San Martin, foi escolhido como responsável pela captação de imagens da competição. Suas invenções e empolgação convenceram o conde que Sandrini era o homem certo para dirigir e produzir o material do evento, semelhante àquele que a cineasta Leni Riefenstahl havia feito com os filmes das Olimpíadas de Berlim, em 1936.

Helene Otz, filha do conde, havia recém-chegado da Europa, onde aprendera as mais modernas técnicas de fotografia artística. A linda jovem encantava a todos com sua ousadia e o vanguardismo de uma artista talentosa. Sua beleza deslumbrante encantou a todos, mas principalmente Sandrini, a quem acompanhava nas experiências de novas técnicas de filmagem inventadas pelo argentino.

Sua criatividade não tinha limites. Sandrini colocou a câmera em um capacete para mostrar o ponto de vista do jogador, criou um alçapão no gramado para filmar ao nível do solo e até mesmo adaptou uma câmera na bola. Por fim, a invenção que foi realmente utilizada foi um teleférico, onde ficava sentado filmando enquanto ajudantes deslizavam o aparelho por um cabo de aço esticado a 10 metros por sobre o campo.

Antes do início da competição, Helene produziu fotos ousadas com alguns jogadores, entre eles, Klaus Kramer, centroavante alemão que ela conhecera em Berlim e ainda mantinham um romance proibido. Klaus era um militar nazista e Helene era judia; algo só relevado por seus compatriotas porque ele era o melhor e mais experiente jogador da equipe. Kramer jogou oficialmente antes e depois da guerra. Estava ali como soldado para proteger a primeira linha telefônica que cruzava os Andes e estava sendo construída por operários alemães.

Helene se interessou também em retratar os índios da região e ficou especialmente interessada no atlético goleiro Mapuche, Nahuelfuta, mais conhecido como “El Tigre”. O interesse tornou-se mútuo e evidente depois das fotos sensuais da nudez do nativo. Publicando aquele trabalho, a jovem admitia a formação de um quadrilátero amoroso. As fotos de Sandrini, Klaus, Nahuelfuta e Helene deram um caráter romântico e sensual que nenhuma outra Copa jamais teve.

Outro personagem impensável foi contratado no jogo de estreia. O árbitro.
A violência comum naquela época e região, acrescentada pela rivalidade bélica entre as equipes, obrigou Otz a escolher um juiz a altura do perigo. O árbitro era um ex-bandido e assaltante de banco americano que se refugiou no Sul da Argentina. Seu nome era Willian Brad Cassidy, filho de Buch Cassidy, o famoso criminoso e parceiro de Sundance Kid, ambos supostamente mortos em 1908 na Bolívia. O árbitro em questão impunha respeito usando seu revólver Colt 45, como elemento de persuasão, e um grande chapéu de vaqueiro, que o destacava dos outros elementos em campo.

 

A primeira rodada

03-albumA primeira partida foi entre o campeão de 1938, a Itália, e o time da casa. Para Otz, a equipe do Reino da Patagônia era a verdadeira anfitriã, uma vez que a Argentina não apoiara a realização da Copa.
O time formado por operários do dique tinha poucas chances. Os homens trabalhavam 12 horas por dia e, depois do turno, faziam treinos táticos incentivados pelo conde Otz e o orgulho de defender sua terra. Seus jogadores mais habilidosos eram dois integrantes e acrobatas de um circo itinerante. Infelizmente suas firulas e dribles mirabolantes não assustaram a poderosa esquadra campeã. A partida terminou em 4 a 0 e eliminou o time da casa.

No jogo seguinte, com dois gols a zero, a Itália passou tranquilamente pela Polônia e, vencendo facilmente os outros jogos, se classificou para uma semifinal contra os alemães.
A equipe germânica havia chegado com ordens de ganhar a Copa sob qualquer pretexto. A honra e superioridade ariana estavam em campo. Além do craque Kramer, os outros jogadores faziam parte da elite do exército alemão e ninguém deveria impedi-los. O time passou fácil pela Escócia, fazendo quatro gols, e em outro jogo eliminou o Brasil por 1 a 0, confirmando assim ser o adversário da Itália em uma semifinal.

 

As semifinais

A partida, como era o esperado, foi bastante violenta. Os alemães abusavam das faltas maldosas acobertadas pelo juiz escancaradamente corrompido. Para justificar a violência, um jogador, ainda vivo, declarou:

“Naquela época, nós, alemães, éramos soldados, não filósofos.”

No segundo tempo, os alemães reclamavam que os italianos haviam jogado pimenta em seus olhos e não podiam enxergar direito e por isso sofreram os gols de empate. Os italianos se desculpavam e atribuíam o caso a dois de seus jogadores que trabalhavam no refeitório da obra e poderiam estar com as mãos contaminadas de pimenta. Apenas um infeliz acidente, afirmavam os “inocentes” italianos.

Os dois tempos terminaram empatados com 3 gols, e depois de consultar o conde, decidiu-se por uma prorrogação de trinta minutos. Um pouco antes do fim dos acréscimos, a Alemanha faz um gol e ganha o jogo. Os italianos inconformados partiram para a briga, que só terminou com a explosão de um tiro do Colt 45 do juiz “Bill” Cassidy.

Os jogadores alemães e o juiz comemoraram esfuziantemente a vitória no prostíbulo local.
Na outra chave, no dia 12 de novembro, os Mapuches começaram goleando a Espanha. Quatro a zero. Em seguida, pegaram a França e ganharam por três a zero em uma partida fácil. Na verdade, os franceses ofereceram pouca resistência por conta do seu estado de saúde; os estrangeiros tinham contraído uma febre acompanhada de forte diarreia.
O jogador mais jovem dos índios, Sarkento, fazia a festa driblando com arte e criatividade, jogando com a alegria de um garoto que era. Sabia que representava seu povo, quase que extinto pela ganância e colonização predatória. Mapuche quer dizer “Gente da Terra”, mas em 1904 o governo argentino concedeu dois milhões e meio de hectares na Patagônia para apenas 137 fazendeiros ingleses. A grande maioria dos peões era da tribo Mapuche, que viviam em regime de semiescravidão.

Sobre o futebol arte dos índios, um jornalista chileno escreveu:
“A técnica individual que imita a ilusão, uma espécie de tática anárquica, um orgulho incrivelmente atlético que se combina com poder e agilidade. Um estilo tão irregular que parece infantil, um estilo onde é difícil distinguir entre a ingenuidade e pura magia.”

E a magia continuou vencendo. A semifinal foi contra os inventores do futebol; os ingleses. A Inglaterra estava tão confiante que ganharia, que nem quis jogar as partidas anteriores. Ao contrário do que todos pensavam, a partida foi duríssima, embora com pouca violência. Um novo juiz, marechal Parlow, foi escolhido, pois Cassidy estava de ressaca da noitada anterior.

Embora a escolha de um juiz inglês para apitar um jogo contra a Inglaterra fosse uma decisão temerária, o “fair play” dos britânicos foi confirmado em uma situação inusitada.
Nos últimos minutos da partida empatada em zero a zero, Sarkento chuta em gol; a bola bate no travessão, desce verticalmente, bate no chão e é agarrada pelo goleiro inglês. Alguns comemoram e outros reclamam dizendo que a bola não entrou. Correria e empurra-empurra sobre o juiz que permanecia em dúvida no lance.

Consultando o conde Otz, Parlow decide recorrer a um artifício inédito; interrompe a partida e pede que Sandrini revele o filme para que seja tirada a dúvida. Algumas horas depois, o filme denuncia que a bola entrou um pouco para dentro da linha de gol, confirmando o time Mapuche na final do Mundial de Futebol.

Na véspera do grande dia, o trem chega lotado de torcedores para a partida final. O estádio construído pelo conde ficou pequeno para tantos torcedores. Mesmo ampliado às pressas, não havia lugar para tanta gente. As árvores e construções improvisadas ficariam cheias de torcedores ansiosos pelo desfecho do evento. Os Mapuches, um povo alegre por natureza, festejava dia e noite.

Já os soldados alemães, incomodados com a suposta provocação, interromperam a festa com tal violência que Sarkento teve a clavícula quebrada e não pode jogar no dia seguinte.

 

A final

04-genteMesmo sob um tempo nublado e com previsão de chuvas fortes, em 19 de dezembro de 1942 acontece a grande e impensável final do quarto Campeonato Mundial de Futebol; Alemanha x Mapuches.
O conde Vladimir Otz, emocionado, faz o discurso antes do jogo e declara:

“A Fifa não reconhece; o mundo, tampouco, e o Vaticano não reconhece. Mas, Deus, se existe, reconhece este torneio.”

Helene Otz, a filha do conde, cumprimenta os jogadores de ambos os times sob o olhar do apaixonado Sandrini, que filma Klaus e o goleiro Mapuche. Em um momento constrangedor, ficam lado a lado os três rivais na atenção da linda fotógrafa.

O jogo se inicia e o tom da partida já fica evidente. O caráter do juiz não deixava dúvidas sobre seu passado. O bandido Cassidy havia sido subornado e não marcava nenhuma falta contra os alemães. Já contra os Mapuches, em qualquer entrada mais dura, a penalidade máxima era aplicada. A chuva aumentava de minuto a minuto.

De um lado o gigante de óculos redondos, Klaus Kramer, o alemão goleador. Do outro, “El Tigre” Nahuelfuta, o goleiro que hipnotizava seus adversários com seu olhar animal (além de atirar pedras nos adversários). O arqueiro índio pegou todos os pênaltis cobrados por Kramer. Como um tigre mágico, o índio previa o canto e se lançava no espaço para bloquear a entrada da bola.

Em um momento inspirado, o atacante Mapuche dribla os zagueiros alemães, marca um gol e a torcida vai à loucura. Inconformados, os alemães se dirigem todos para o ataque e cavam um pênalti, prontamente apontado por Cassidy.

Desta vez, Kramer tira os óculos, em claro sinal de desprezo e superioridade, e cobra a penalidade de forma inusitada e não prevista nas regras. O tiro sai indireto para o lado, de tal forma que outro atacante alemão empata a partida.

O treinador Mapuche, Lolol Pataka, e Nahuelfuta, partem para cima do juiz para protestar sobre aquela forma desonesta e indefensável de cobrança de penalidade. As coisas esquentam e Cassidy expulsa o goleiro Mapuche, que só vai para o vestiário sob a mira do revólver do perverso juiz. Felizmente, Helene segue o índio ao vestiário, e o consola carinhosamente.

 

O campeão de 1942

O jogo continuou, mas até a poucos anos não havia registro do resultado final da grande partida, até que uma escavação arqueológica encontrou uma câmera cinematográfica ao lado dos restos mortais de Guillermo Sandrini.

Depois de recuperada a câmera e a película, alguns privilegiados sobreviventes e parentes de alguns envolvidos no evento assistiram o trecho de filme perdido há mais de 70 anos.
As imagens aéreas feitas no teleférico de Sandrini mostram o conde Otz entregando a taça Jules Rimet para o capitão da equipe vencedora. Os perdedores inconformados iniciam uma briga e a confusão torna-se generalizada. Em meio a ela, vê-se claramente Willian Cassidy saindo sorrateiramente com um objeto de ouro nas mãos.

A vibração contagia a todos enquanto a chuva torna-se uma tempestade. Pelo que se percebe, o dique rompeu e inundou toda região, destruindo completamente o estádio. Sandrini e seu equipamento foram levados pela correnteza e o cinegrafista afogou-se, sem, no entanto, largar da câmera estanque que havia inventado.

Perdido entre as imagens da tragédia, vê-se o placar sendo derrubado pela força das águas, mas ainda legível a vitória de 2×1 para a equipe dos índios Mapuches; os Campeões de Futebol do Mundial de 1942.

 

* * *

 

Este foi um campeonato que não consta de nenhum livro de futebol e jamais foi reconhecido pela Fifa. De fato, isto pouco importa quando se trata de uma história tão interessante. Na matemática de um bom caso, podemos acreditar que 30% é lenda e 90% é verdade.

Este conto foi baseado no excelente documentário “A Copa Esquecida”, de Filippo Macelloni e Lorenzo Garzella, aproveitando o extenso material colhido por Guillermo Sandrini e o conto “O filho de Butch Cassidy”, de Osvaldo Soriano.

Deixe uma resposta