A mais justa queixa contra a Fifa

Não creio que tenha tido a repercussão e as consequências merecidas a mais justa das queixas de que tive conhecimento contra o papel e o papelão, na Copa do Mundo, desse polvo insaciável que é a Fifa.

Não foi a queixa contra a intromissão da Fifa em questões privativas do governo brasileiro, não foi a queixa dos donos de botequins em volta do Maracanã, proibidos de vender suas cervejas habituais e obrigados a trabalhar com as cervejas acertadas com a Fifa, nem foi a queixa de quem não conseguiu comprar ingresso pelos canais oficiais. Isso para não falar no povão expulso dos estádios tanto pelo preço dos ingressos (talvez mais caros que os das temporadas do Metropolitan Opera House de Nova York), quanto pela redução dos lugares disponíveis: os estádios, agora arenas, tornaram-se privilégio das elites, mais até que os hipódromos, reduto tradicional da aristocracia dos jóqueis clubes.

Sabíamos, há pelo menos quatro anos, que seria assim. Na Copa anterior, na África do Sul, alguns casos tiveram boa repercussão na mídia brasileira. O caso, por exemplo, de um dono de restaurante que há muito tempo colara na janela de seu estabelecimento um recorte de revista alusivo à Copa ainda futura, como a avisar que ali os adeptos do futebol seriam bem recebidos. Foi multado pela fiscalização da Fifa, por não ter pago a esta as taxas que não sabia devidas. Ou a das duas torcedoras dinamarquesas que viajaram de tão longe, gastando tanto em passagens, hospedagem e ingressos, expulsas do estádio por vestirem camisetas com a logomarca de alguma cerveja dinamarquesa não acertada com a Fifa. Nem tiveram a chance de trocar a camiseta por alguma de cervejaria consentida.

Ao ler sobre isso na época, lembrei-me da simpática cordialidade brasileira. Dois restaurantes cariocas, pelo menos, exigiam paletó e gravata de seus frequentadores: o da Associação Comercial e o do pequeno Yankee-Brasil, numa pequena rua, a Rodrigo Silva, perto da Avenida Rio Branco. Quem tivesse saído de casa de roupa esporte podia ir aos dois, porque os garçons explicavam a exigência e ofereciam a esses clientes o paletó e a gravata exigidos. Vi várias vezes isso acontecer e uma vez pelo menos aconteceu comigo. Estava na rua, de blazer, mas sem gravata, quando encontrei um amigo, combinamos de almoçar na Associação Comercial, e lá o garçom, até constrangido, levou-me uma gravata, já com o laço feito, mas frouxa o suficiente para passar pela cabeça e chegar ao pescoço. Findo o almoço, o maître aproximou-se e me ofereceu a gravata, como cortesia da casa, de presente. Mas a gravata era de um amarelo hediondo. Com jeito consegui livrar-me dela, o maître ficou visivelmente constrangido, não sei se pelo amarelo, se pelo provincianismo da exigência numa cidade tão descontraída e cosmopolita como o Rio. Hoje não sei se a Associação Comercial ainda exige gravata, não creio. E o Yankee-Brasil fechou há muito tempo.

No caso das dinamarquesas seria menos antipático oferecerem camisetas alternativas. Do modo como agiram seus prepostos, a Fifa impôs às duas o prejuízo das despesas de viagem e do custo do ingresso. Não sei se reclamaram na Justiça, mas acho que deveriam ser indenizadas. De qualquer maneira, permanece esse clima de mandonismo e insensibilidade, pelo fato de que o freguês paga, mas nunca tem razão.
Aqui no Brasil, nesta Copa, o clima é o mesmo. Das muitas queixas que tive conhecimento, uma causou-me maior impressão.

Projetos como o da equipe de Miguel Nicolelis têm muito mais importância que a que pretendem ter os senhores da Fifa

Projetos como o da equipe de Miguel Nicolelis têm muito mais importância que a que pretendem ter os senhores da Fifa. Foto: Nick Pironio

Há anos o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis dirige um projeto internacional de reabilitação de portadores de deficiência física – algo tão grande, importante e promissor que, perto dele, iniciativas como as paraolimpíadas parecem subsidiárias. Generosamente, como era da índole do projeto, Nicolelis ofereceu um espetáculo que seria emocionante e exemplar – um paraplégico daria o chute inicial da primeira partida da Copa, graças a uma roupa semelhante à dos astronautas. Essa roupa seria um exoesqueleto, ou seja, um esqueleto por fora do corpo e que o faria movimentar-se para o chute inicial. O mais importante é que esse exoesqueleto seria comandado por nada mais que o cérebro do paraplégico. Não seria preciso o paraplégico usar as mãos para acionar algum interruptor ou computador: ele usaria apenas o cérebro. O espetáculo de um paraplégico fazendo isso seria apenas uma amostra do alcance do projeto de Nicolelis, que vai muito mais longe e coloca a neurociência na vanguarda do avanço do conhecimento humano. Esse espetáculo poderia ser visto pela TV pelas centenas de milhões, talvez pelo mais de bilhão, de espectadores da Copa em todo o mundo, poderia informar e mobilizar muita gente.

Quem lê o livro de Nicolelis sobre as potencialidades do cérebro humano percebe o quanto a ciência pode fazer em futuro próximo e deve sentir muito orgulho por um brasileiro liderar parte substancial das experiências que a neurociência está possibilitando. Mas os senhores da Fifa, que controla minuciosamente até as transmissões de televisão, não perceberam a importância do oferecimento de Nicolelis e praticamente suprimiram a cena do paraplégico do evento da abertura da Copa. Quem viu os poucos segundos da aparição daquela figura não entendeu nada, a não ser que soubesse previamente do que se tratava.

Nicolelis queixou-se da Fifa. Com toda razão. A Fifa proibiu que o paraplégico desse o chute inicial no meio do campo, e confinou o evento a 29 segundos de televisão. Deve ter sido a primeira vez que um chute inicial foi dado na lateral e não no grande círculo. Os senhores da Fifa, decididos a mandar tanto no Brasil, não se deram conta da importância do trabalho de Nicolelis, para o Brasil, sim, mas também para todo o mundo. Isso não espanta. Eles não devem ter qualquer familiaridade com os livros e a ciência, ou não seriam tão arrogantes.

Pois a arrogância é produto sobretudo da ignorância. Nessa ignorância, eles não devem saber sequer da origem nada edificante da popularidade do futebol. Segundo Eric Hobsbawm, grande historiador inglês que conhece também a história do esporte, o futebol passou a ser oficialmente promovido na Inglaterra quando, no século XIX, uma lei do Parlamento proibiu os enforcamentos em público e foi preciso descobrir um novo entretenimento para o povo. O futebol foi o entretenimento escolhido. Isso não o diminui, mas faz pensar na escala de nossos valores. Nessa escala, feitos como os da equipe de Miguel Nicolelis têm tanta importância quanto um campeonato de futebol. E muito mais importância que a que pretendem ter esses senhores.

Deixe uma resposta