A propósito de ti

As palavras existem fora de ti. Entre os rios e a fala, no céu reflexo de seus olhos, no viés da calça que insiste em desarrumar as meias, no tropeço do paralelepípedo solto da calçada, no gesto distraído de olhar para a rua. As palavras inventaram um amor, escorregaram em suas mãos, caíram no esquecimento. As palavras calaram naquela noite em que a nuvem roubou a lua, em que o vento silenciou seus cílios.
Fecho os olhos.

As palavras surgiram no sonho oblíquo do nosso encontro em que tudo era possível acontecer. Acordo com a febre da tristeza, delírio que me faz desabar cada vez que penso que não está mais ali. A palavra que não foi dita, a aniquiladora vontade de não existir.

O pensar que não cessa o partir. Preciso da palavra para inventar essa fronteira invisível da memória gasta das tuas horas. Queimar a ferro e fogo cada segundo do que tento esmagar com meus dedos o que existiu. Preciso da palavra, letra por letra, para lembrar de mim.

Para formar uma narrativa que faça algum sentido, para que não seja em vão. Para que o oceano prolongue a onda, para que o dia que vimos anoitecer pausadamente seja mais uma lembrança, para que a paisagem subtraia a dor.

A palavra dita ao acaso, levada pelo tempo, abafada, pálida, invisível entre os meus espaços em branco. A falta dela quando engasga na garganta, a que despenca pela janela. A que não é dita. Quando se desloca no ar, verbo úmido, como chuva no telhado, feito música. Silêncio no momento que pousei meus olhos nos seus. Não há palavra que valha.

Palavras para medir o que houve algum dia. Para o encontro, para a partida, para que seja memória. Para marcar como cicatriz na pele. O que nos separa dos animais, o que nos aproxima do outro, o que está à margem de tudo, o que nos faz atravessar a ponte.

Grito, como se a palavra não estivesse aqui, para que não me abandone, para seguir essa trilha surda do esquecimento. A palavra, irremediável, cruel, inventada, dita, esquecida.
Para lembrar que o sim é para sempre, a propósito de ti.

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