Editorial. Ed. 153

Mais uma eleição e os brasileiros vão às urnas sem dar crédito aos políticos e às instituições da área. Ninguém acredita em discursos cheios de promessas repetidas à exaustão e jamais cumpridas.

A mentira reina. Diz sabedoria antiga, à qual logo aderiram os nossos sábios da política nativa, que o que importa não é o fato, é a versão. A rigor, não há fatos. Em qualquer confronto de ideias há versões. Em política, o processo é ainda mais livre e primitivo, mas a conclusão é a mesma: o que importa é a versão que consegue impor-se, no momento preciso, aos olhos da maioria, e não aquela que poderia ser a mais fiel ou a mais exata.

Bem feitas as contas, a matéria-prima da política nativa não são nem os fatos, nem sequer as suas versões possíveis, mas a reação dos setores interessados e da opinião pública em geral diante deles.

Esse é um dos ônus que devem pagar os cronistas políticos e todos aqueles que se obrigam a ver de perto a chamada coisa pública e a acompanhar o dia a dia dos seus variados atores e personagens.

Como quase tudo que os homens fazem, a política não é muito bonita quando vista de muito perto. Ela é feita para ser vista da plateia, a uma distância apropriada, e não para ser esmiuçada ainda nos bastidores. Quem não tem estômago forte, sofre. A nossa política justifica a comparação com uma bacanal partidária, onde ninguém é de ninguém. O PTB, que abandonou o barco governista aos 45 do segundo tempo, tenta vender apoios isolados à candidatura Dilma, exatamente o mesmo que o PMDB fez no sentido contrário, isto é, apoiando a reeleição da presidente a nível nacional, mas abrindo dissidências regionais.

Quem com ferro fere, com ferro será ferido, não há ninguém a salvo das múltiplas traições que devem acontecer. Os partidos vendem o tempo de televisão, mas não a alma de seus componentes. A alma, essa é negociada isoladamente um a um.

Criou-se um mercado secundário nesse comércio eleitoral, onde as coligações regionais ganharam vida própria, independente da decisão das convenções nacionais. Há ainda a negociação da neutralidade. PP e PR estão em meio a essa transação, que retiraria pelo menos dois minutos de televisão da candidatura petista.

O PR retirou seu apoio ao ministro César Borges e ameaça se bandear para o campo oposicionista, apoiando o candidato tucano Aécio Neves. Quando se imaginava que nenhum partido estivesse negociando lugares no atual Ministério, num governo que termina em pouco mais de seis meses, descobre-se que o PR transaciona o apoio futuro por um novo ministro no presente.

Estes são exemplos do sórdido tomado como normal na vida política brasileira. A política é um jogo de adultos, mas o ideal é que seja, tanto quanto possível, um jogo limpo. Estamos longe disso. E não há sinal de que os nossos atores estejam dispostos a mexer nas regras atuais, que os privilegiam e fazem do Congresso Nacional essa casa da mãe Joana.

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