Preparem o estômago

Começou a temporada de ofensas e linguagem chula. A campanha eleitoral chega às ruas

 

Sai o futebol, entra a política. Quem não tem ânimo forte e o estômago saudável, não se aproxime. A partir de agora e em crescente até o dia 5 de outubro, teremos o grande circo da campanha eleitoral a dominar corações e mentes. Aí teremos o confronto de candidatos carregado de ofensas, linguagem chula e factoides. Mais que em eleições anteriores, calculam os analistas, pois o tempo será curto demais para os que precisam alcançar os ponteiros.

Todos conhecem o processo. Política, sempre digo, é jogo para gente adulta. Um jogo frequentemente bruto e muitas vezes dominado por sentimentos e paixões que se podem chamar de negativos. O ressentimento, a mágoa, a inveja, o orgulho ferido.
As grandes palavras, os programas, as ideias, os altos propósitos patrióticos ou impatrióticos servem para mover e até arrebatar partidários e admiradores, mas o que realmente anima chefes e chefetes, com demasiada frequência, são motivos pessoais nem sempre assim tão grandes ou estimáveis.

Aqui, Roberto Requião, do PMDB, já deu o ar de sua graça. Bate abaixo da linha da cintura em Beto Richa, do PSDB, e em Gleisi Hoffmann, do PT. Sem cerimônia. Como o diabo gosta e como nenhum outro sabe fazer melhor do que ele. Pauleira pura.

Haja Engov. O mal, entretanto, é que a política, mesmo nos seus piores momentos, é sempre importante e sempre decisiva, e isso não só para os atores em cena, mas para todos nós, que acabamos pagando o pato. Virar as costas não é remédio.
Assim caminhamos para uma eleição decisiva na República, com o PT a apostar todas as suas fichas no quarto mandato consecutivo. Eleição pesada no Paraná com o insistente Requião em esforço para acumular o quarto mandato de governador e com vontade de chegar ao quinto em 2018.

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O governador Beto Richa é o principal alvo de Roberto Requião, que já começou o ataque, e de Gleisi Hoffmann. Valdir Rossoni o apoia: “governo livre de corrupção”

Há sinais de segundo turno nas duas arenas. Dilma enfrentaria Aécio Neves, segundo as pesquisas. Aqui, na terrinha, há briga feia para ver quem poderá disputar a segunda rodada com Beto Richa, que tenta a reeleição.

Há, no PT, uma corrente de críticos ácidos da estratégia adotada por Gleisi Hoffmann que se transformou em tiro no pé. Desce o sarrafo no apedeuta petista que fez de tudo para garantir a candidatura de Requião pelo PMDB, na presunção de que isso levaria o pleito para o segundo turno, quando Gleisi teria chances melhores de vencer Beto Richa. Pois, pois, acontece que agora é Requião que pesquisas internas indicam que irá para o segundo turno. Gleisi deu tiro no pé.

O certo é que a campanha está nas ruas com nove candidatos a governador. Mas apenas três em condições de chegar ao trono; Beto Richa, do PSDB; Roberto Requião, do PMDB; e Gleisi Hoffmann, do PT. O resto é coadjuvante. Figuração. Micropartidos que, em sua maioria, servem de linha auxiliar dos três grandes partidos. Estão no jogo para bater, de preferência abaixo da linha da cintura. Para isso terão tempo de televisão e rádio.

 

Montanha russa

Gleisi Hoffmann sabe hoje o que é essa montanha russa da política nativa. Em novembro estava no auge, favorita para a disputa deste ano. Oito meses depois virou abóbora, com todo o respeito. Não consegue nem mesmo organizar e disciplinar a turma que lhe segue. Os partidos que a apoiam, pequenos, fracativos, têm poucos votos, mas sobra presunção.

Gleisi tinha dois cargos majoritários para negociar. Um entregou ao PCdoB e em troca recebeu o aval do partido mais leal ao PT na República. Ricardo Gomyde foi ungido candidato a senador. Logo surgiram os protestos internos. O nobre vereador, como Jorge Bernardi gosta de ser chamado, queria ser senador e perguntava: por que não eu? Dentro do próprio PT há gente que engrossa o coro. O que Gleisi Hoffmann mais ouve desde que se lançou candidata é isso: por que não eu?

 

Política é Um jogo frequentemente bruto e muitas vezes dominado por sentimentos e paixões que se podem chamar de negativos. O ressentimento, a mágoa, a inveja, o orgulho ferido

 

Além de uma cadeira no Senado, o outro cargo que ela negociou foi a vice. E aí o enrosco foi mais sério, pois é espaço do PDT e havia no PDT 382 candidatos à vice, quase o mesmo número de filiados. Ela teve de definir tudo isso e sabe que vai para uma campanha com um exército em cacos, em que cada pequeno grupo atira contra os outros na própria trincheira. O interessante é saber que tirando Gleisi não há outro nome em condições de disputar o governo. Mas como disse, sobram presunção e soberba onde faltam razão e prestígio eleitoral.

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Requião aceita todos os apoios. Terá comitês heterodoxos, com dobradas com todos os principais candidatos à Presidência. Vai de Dilma, Aécio e Eduardo Campos. Mesmo que qualquer um deles não queira. Manobra que deu certo e por isso vai repeti-la.

Terminou que o pedetista Haroldo Ferreira é o candidato a vice-governador na chapa de Gleisi Hoffmann (PT). A decisão, tomada pela Executiva Estadual do PDT, confirma a reedição da aliança entre os dois partidos, que em 2012 culminou com a eleição de Gustavo Fruet (PDT) como prefeito de Curitiba. Ferreira é o presidente estadual do PDT. Haroldo Ferreira é médico. Presidente em exercício do PDT do Paraná. Foi secretário municipal de Saúde em Araucária e deputado estadual.

Assim, a coligação de Gleisi Hoffmann contará com o apoio de cinco partidos: PT, PDT, PCdoB, PTN e PRB. A decisão desagradou alguns pedetistas que queriam o vereador Jorge Bernardi (PDT) como candidato ao Senado. De acordo com a Executiva, essa foi a única maneira de garantir a viabilidade da chapa. Agora, falta apenas decidir os candidatos a suplente de senador. Gleisi destaca que a coligação reúne partidos que estão em sintonia com as propostas de recuperação do desenvolvimento do Paraná.

 

Requião o superpragmático

Requião, do PMDB, é o mais pragmático dos candidatos. Não se faz de rogado e aceita todos os apoios. Vai mais longe, para não arrumar dissensões com quem quer que seja, terá comitês heterodoxos, com dobradas com todos os principais candidatos à Presidência. Vai de Dilma, Aécio e Eduardo Campos. Mesmo que qualquer um deles não queira. Deixa isso por conta de candidatos a deputado, que podem lhe proporcionar as chapas mais incríveis.
Em eleições anteriores, Requião chegou a montar comitês com os candidatos tucanos a presidente — José Serra e Geraldo Alckmin — e deixou de comparecer a comícios do candidato a presidente Luis Inácio Lula da Silva, do PT. Manobra que deu certo e por isso vai repeti-la.

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Gleisi Hoffmann vai para a campanha com um exército em cacos. Entregou um dos cargos majoritários ao PCdoB – Ricardo Gomyde é candidato a senador. O vereador Jorge Bernardi queria ser senador e perguntava: por que não eu? O outro cargo que ela negociou foi de vice. O enrosco foi que este espaço é do PDT e havia no PDT 382 candidatos à vice. O escolhido foi Haroldo Ferreira

Requião bate, mas seus adversários aprenderam a dar o troco. Eles fazem circular nas redes sociais a lista de projetos que integram o programa de governo do peemedebista. Puro deboche. “Se não pode vencer o pedágio, una-se a ele” entra no lugar do “baixa ou acaba” depois que Requião se uniu a Marcelo Almeida, candidato a senador, e dono de duas concessionárias de pedágio. É claro que é uma piada, mas tem mais.

Outro item do programa é o “Cavalo Solidário”, já que o peemedebista gastou R$ 5 milhões para manter a manada de 88 cavalos durante oito anos no Canguiri. Há ainda o “Boa Viagem”, que tem relação com as constantes viagens internacionais de Requião. Os roteiros sempre buscam locais chiques e glamorosos, os melhores restaurantes e vinhos, como o senador costuma comentar em sua conta no Twitter.

A propaganda contra Requião diz que ele também prepara o “Dólar para Todos” para que o paranaense possa ter a felicidade do irmão, Eduardo Requião, que comandou o Porto de Paranaguá, e soube multiplicar os dólares no armário de seu apartamento – um fenômeno investigado pela Polícia Federal na Operação Dallas.

A cereja do bolo do programa de Requião é o programa “Aposentadoria Rica”, um direito para todo paranaense receber complementação salarial de R$ 26,5 mil, valor que Requião recebe mensalmente a título de pensão como ex-governador. O senador, até se aposentar, era um crítico feroz desse tipo de benefício, mas depois brigou na Justiça para receber, inclusive, os valores atrasados.

 

Richa, alvo principal

O governador Beto Richa deverá ficar com metade do tempo de televisão e rádio. Tem uma penca graúda de partidos que podem lhe doar bom tempo de televisão. A outra metade será dividida entre Gleisi Hoffmann, do PT, Requião, do PMDB, Silvio Barros, do PHS, e demais partidos pequenos. Richa será o principal alvo do tiroteio que virá de Requião, do PMDB, de um lado, e de Gleisi Hoffmann, do PT, de outro. Ele sabe disso. Em convenção que reuniu cerca de 5 mil pessoas em Curitiba, o PSDB do Paraná confirmou o governador Beto Richa como candidato à reeleição.

“Quero continuar a fazer um governo democrático, justo, honesto, um governo que não precisa usar da truculência para se impor. Não podemos deixar que o Paraná caia de novo em mãos erradas”, afirmou Richa, ao lado de sua esposa, Fernanda, de seus filhos, Marcello, André e Rodrigo, de seus irmãos, Adriano e Pepe Richa, e da mãe, Arlete. Após a convenção, Richa recebeu o candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves, em almoço em restaurante no bairro de Santa Felicidade.

Richa citou os avanços conquistados pelo Paraná em menos de quatro anos de governo, como a redução da pobreza ao menor nível já registrado no Estado, as conquistas na educação, na saúde e na segurança e a volta dos grandes investimentos ao Paraná. “Tenho orgulho por tudo o que já conquistamos, por conseguir devolver ao Paraná a autoestima e o desejo de retomar o progresso”, afirmou Richa. “Conseguimos fazer, em três anos e meio, muito mais do que se fez nos oito anos anteriores.”

O presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, deputado Valdir Rossoni, destacou que o Paraná voltou a ter credibilidade e que Beto Richa está fazendo um governo livre de corrupção.

 

Eleição pesada no Paraná com o insistente Requião em esforço para acumular o quarto mandato de governador e com vontade de chegar ao quinto em 2018

 

O embate na República

Pesquisa Datafolha mostra Dilma Rousseff (PT) com 38%, Aécio Neves (PSDB), com 20% e Eduardo Campos (PSB) com 9%. No mês passado, a soma de todos os concorrentes de Dilma alcançava 32%, ante 34% da presidente. Agora, Dilma empata com os opositores, com 38% contra 38%. Brancos e nulos somam 13%, ante 19% em junho. Os indecisos ainda são cerca de 11%, ante 13% no mês anterior.

Nesse cenário, que inclui as candidaturas de partidos nanicos, o pastor Everaldo (PSC) aparece com 4% (ante 4% em junho). José Maria (PSTU) tem 2%, e Eduardo Jorge (PV), 1%. No levantamento de junho, cada um tinha 1% das intenções de voto. Mauro Iasi (PCB) e Luciana Genro (PSOL) também somam 1% das intenções. Levy Fidelix (PRTB) e Eymael (PSDC) não pontuaram.

A taxa de rejeição da presidente Dilma Rousseff é de 32%, abaixo dos 35% do levantamento anterior. Aécio Neves e Eduardo Campos têm, respectivamente, 16% e 12% de rejeição. Em junho, a porcentagem de entrevistados que disseram que não votariam de jeito nenhum em um dos dois candidatos era de 29% para ambos.

Apesar da recuperação de Dilma Rousseff (PT) no Datafolha, Aécio Neves (PSDB) aparece à frente pela primeira vez na simulação de segundo turno entre eleitores que vivem em cidades grandes e médias. Nos municípios com mais de 500 mil habitantes, o tucano vence por 45% a 40%. Em cidades com população de 200 mil a 500 mil, lidera com 45% a 34%.

O levantamento do Datafolha foi feito entre os dias 1 e 2 de julho, com 2.857 eleitores em 177 municípios do país. A pesquisa foi registrada no TSE sob o protocolo BR-00194/2014 e tem margem de erro máxima de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

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