A disputa do 2º lugar

01-segundo

Neste momento da largada da disputa eleitoral, o confronto mais acirrado entre os candidatos ao governo do Paraná é pelo segundo lugar, ou seja, quem vai passar para o segundo turno para enfrentar Beto Richa. Gleisi Hoffmann ou Requião? Os marqueteiros das duas campanhas coincidem em algo: o governador Beto Richa, que tenta a reeleição, vai passar para a próxima rodada.

Dúvida atroz assalta os arraiais do PT de Gleisi Hoffmann. Em novembro passado ela aparecia como favorita em pesquisas de opinião, mas viu seu capital eleitoral se dissolver nos escândalos do Mensalão, de Pizzolato, de André Vargas, do pedófilo Eduardo Gaievski e mais ainda no passo errado do boicote federal ao Paraná.

Requião entusiasmou-se. Percebeu a oportunidade e passou a brigar pela sua candidatura no PMDB. Venceu a convenção por pequena margem de votos, sabe que não tem o apoio da maioria dos prefeitos de sua sigla, mas com seu estilo agressivo e aproveitando-se da fragilidade de Gleisi, logo entrou no páreo pelo segundo turno. Os marqueteiros do PT percebem que ele cresceu mais do que esperavam e agora ele ameaça Gleisi de passar por desmoralizante derrota que não a levará nem mesmo à segunda rodada, se ela acontecer.

Não será parada fácil. Beto Richa, do PSDB, saiu na frente de seus dois principais concorrentes em apoios, estrutura e tempo de televisão, que é mais que a soma dos demais, o que significa que vai ocupar mais da metade do tempo total do tempo destinado aos candidatos a governador.

Na condição de favorito, Richa tem o apoio de 640 candidatos a deputado e senador. Os outros candidatos, Roberto Requião (PMDB) e Gleisi Hoffmann (PT) têm o apoio, respectivamente, de 200 e 154 candidatos a deputado e senador. As chapas que apoiam Beto Richa somam 491 candidatos a deputado estadual e 158 a deputado federal. Nas chapas de Requião são 134 candidatos a deputado estadual e 65 a federal, e de Gleisi, 96 deputados estaduais e 57 federais.

Os outros cinco candidatos, além de Richa, Requião e Gleisi, são Túlio Bandeira, do PTC, Rodrigo Tomazini, do PSTU, Bernardo Piloto, do PSOL, Ogier Buchi, do PRP, e Geonísio Marinho, do PRTB. Somados, têm apoio de 71 candidatos às proporcionais. Na chapa de Túlio Bandeira são 17 candidatos a deputado federal e 36 a estadual; Piloto vai ter apoio de cinco estaduais e 13 federais; Buchi, de oito estaduais e dois federais; Marinho, dois estaduais e seis federais; Tomazini, conta com um federal e um estadual. O PCB, sem candidato ao governo, tem uma candidata a deputada federal, a professora Silvana Souza.

 

O drama de Gleisi

Ser candidata do PT era vantagem enorme até junho do ano passado. Desde que eclodiram as manifestações de rua contra o governo, despencaram o prestígio e a popularidade de Dilma Rousseff e seus candidatos. A senadora Gleisi Hoffmann, que foi chefe da Casa Civil até se desincompatibilizar para ser candidata ao governo do Paraná, teve sua imagem estreitamente ligada ao governo Dilma e agora paga por isso.

Ela carrega o fardo pesado de escândalos que envolveram o PT e o desacreditaram de vez como partido de homens incorruptíveis. O julgamento do Mensalão, espetáculo diário em transmissão direta, deteriorou a imagem do PT de maneira indelével. Há mais. Um dos homens centrais do Mensalão, Henrique Pizzolato, é homem do PT do Paraná, coordenador financeiro de todas as suas campanhas majoritárias, ele mesmo candidato a governador do Estado em 1990 e a vice-governador em 1994.

Eduardo Gaievski

Eduardo Gaievski

Isso já seria suficiente, mas o pior veio a seguir. O ex-prefeito de Realeza, Eduardo Gaievski, apresentado ao planeta como referência administrativa do PT, foi levado por Gleisi para ocupar um importante cargo de assessor especial da Casa Civil, encarregado de duas tarefas: articular a base de prefeitos para apoiar Gleisi ao governo e contribuir para melhorar as relações de Dilma e seu governo com os descrentes prefeitos que reclamam da falta de atenção e de recursos.

Gaievski foi preso. Continua preso. A polícia e o Ministério Público, depois de meses de investigação a partir de denúncias das vítimas, levantaram o seu passado como pedófilo. Ele usou a condição de prefeito para abusar de menores, algumas meninas de apenas 13 anos, crime que respingou em sua protetora e ajudou a rebaixar ainda mais o prestígio de Gleisi Hoffmann.

 

O fator André Vargas

Quando o PT nativo começava a acreditar que o pior tinha passado, explodiu nova bomba no colo de Gleisi Hoffmann. Seu amigo e companheiro de partido, o ascendente André Vargas, foi flagrado pela Polícia Federal em conversas com o doleiro Alberto Youssef, consideradas evidências de corrupção.

03-segundo

André Vargas. Foto: Geraldo Magela – Agência Senado

A mais escandalosa diz respeito ao uso de um jatinho patrocinado pelo doleiro e lobista que levou Vargas e a família para férias no Nordeste.
Desde que os jatinhos tornaram-se símbolo de poder e conforto, hierarcas de todos os partidos recorrem a amigos para não voar com a patuleia. Vargas tentou justificar-se e o resultado foi pior. Disse que cometeu uma “imprudência”. Teria sido imprudência se tivesse entrado por engano no avião fretado pelo doleiro, depois de ter sido chamado para embarcar num voo comercial. Não foi imprudência, mas onipotência.

Tentou novo argumento: pediu o jatinho a Youssef porque os voos comerciais estão muito caros. Certo. A escumalha que vai para a rodoviária por esse mesmo motivo merece o desconforto porque não tem doleiro amigo.
O momento mais pífio de suas alegações deu-se quando revelou que conhece Youssef há mais de 20 anos, mas não sabia com quem estava se relacionando. Seria então a única pessoa que não sabe a atividade de um amigo com quem se relaciona há mais de 20 anos. Youssef fornece jatinhos para amigos poderosos desde 2001. Anos depois, frequentou o noticiário do escândalo do Banestado, passou pela cadeia, refrescou-se colaborando com o Ministério Público, mas não se livrou de uma condenação.

Quem não se lembra desse episódio talvez se recorde da cena em que o comissário Vargas, vice-presidente da Câmara, saudou seus companheiros com o punho cerrado, estando ao lado do presidente do Supremo Tribunal Federal. Parecia um Pantera Negra dos anos 60.
Numa troca de mensagens com Youssef (cuja atividade comercial Vargas desconhecia), o companheiro tratou de um interesse da empresa Labogen junto ao comissário Carlos Gadelha, do Ministério da Saúde. Por coincidência, essa pequena empresa teria sido usada pelo doleiro para remeter US$ 37 milhões ao exterior.

O fator André Vargas, como os marqueteiros do PT denominam o escândalo, pesou na destruição da imagem do partido com sérias consequências sobre Gleisi Hoffmann.

 

Requião no ataque

Ninguém esperava outro comportamento de Requião, candidato da metade do PMDB. Partiu para o ataque contra Gleisi Hoffmann, sem deixar de mirar no favorito, o governador Beto Richa, que tenta a reeleição. Este sempre foi o estilo de Requião, rebaixar o debate eleitoral ao ponto de transformá-lo em guerra de babuínos e tentar vencer pelo golpe mais duro feito de ofensas e factoides. Disse que a candidata do PT não entrará em órbita e que levará o partido ao desastre total.

Ao mesmo tempo, Requião tenta recompor a base de apoio no PMDB onde tem grande barreira de desafetos e inimigos, boa parte identificada com a reeleição do tucano Beto Richa, sem esquecer que a bancada estadual do PMDB foi aliada de Richa e ocupou duas secretarias durante o seu governo. Requião diz que não tem mágoas e quem quiser voltar ao aprisco será perdoado. Ou seja, para alcançar a vitória, todos são bem-vindos. As pendengas ficam para depois. Alguém confia.

O maior problema de Requião é outro. As suas taxas históricas de rejeição não recomendam apostas em sua candidatura. O PT sabe que é por aí que poderá derrotar Requião e procura acentuar esses índices. A campanha de Gleisi Hoffmann mira em Roberto Requião para passar ao segundo turno e enfrentar Beto Richa. O slogan da campanha da petista é claro: “mudar é olhar pra frente” com Gleisi estampada com seus dois principais cabos eleitorais, a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. O mote provoca Requião que tenta o quarto mandato.

Em seu quarto evento de lançamento como candidata ao governo do Paraná, a senadora Gleisi Hoffmann, do PT, deu sinais claros que deve pautar boa parte de suas críticas na campanha ao senador Roberto Requião e aos seus dois últimos governos (2003-2010).
Gleisi fez referências ao governo passado e falas amplamente ligadas a Requião, como as ameaças a adversários e a falta de apoio ao empresariado. “O Paraná, tenho certeza, não quer olhar para trás. Passou o tempo do jogo de cena, das ameaças”, disparou.
“O Paraná não quer o passado, não quer o atraso. O Paraná é empreendedor, é inovador, é trabalhador e quer novos tempos. Quer ser aberto, quer ser um estado que olha o Brasil como um imenso lugar de oportunidades”, disse.

Gleisi disse ainda que pretende “inaugurar o fim das gestões que governaram apenas para aqueles próximos ao poder, que são beneficiados pela troca de favores políticos-eleitorais”. No PT mais avesso a Requião, defende-se a tese de que a candidata e o partido devem devolver no mesmo tom as críticas e aleivosias de Requião. Esse time começou pela declaração de bens que Requião apresentou ao TRE, onde não aparecem os bens mais apreciados pelo senador: os mais de 80 cavalos que manteve por oito anos no Canguiri, que transformou em residência oficial.

Maurício Requião

Maurício Requião

Não aparecem na declaração os cavalos Proletário, JG, 110 e as éguas Bolivariana e Benedita, favoritos de Requião. A omissão talvez se deva ao fato de haver uma investigação sobre uso de pessoal, estrutura e recursos da Polícia Militar para tratar os cavalos de Requião quando ele era governador. Segundo um policial militar, ao longo de oito anos a PM cuidou de 88 cavalos pertencentes ao ex-governador ou a pessoas próximas a ele, ao custo de R$ 5 milhões, pagos com dinheiro público.

A campanha de Gleisi Hoffmann foi mais longe. Lembra os escândalos que envolveram os irmãos de Requião em investigações sobre grande quantia em dólares encontrada na residência de Eduardo Requião, que foi superintendente do Porto de Paranaguá e depois, por exigências da lei, secretário. Lembra também o escândalo da compra de aparelhos de televisão laranja comprados aos milhares pela Secretaria de Educação para distribuir às escolas estaduais. Foram adquiridos por preço muito superior aos de mercado. O secretário de Educação que ordenou a despesa era Maurício Requião, irmão do senador. O PT divulgou nota convocando os militantes do partido a defender Gleisi Hoffmann e a contra-atacar Requião, acusando-o de maquiar sua declaração de bens.

 

Quem ganha com esta guerra?

Esta guerra pelo segundo lugar é benéfica para o candidato que está na ponta de todas as pesquisas divulgadas até sob registro na Justiça Eleitoral. Enquanto os adversários entram em guerra intestina, ele segue a sua campanha com a apresentação dos feitos de seu governo e os planos para a segunda gestão. Sem esquecer-se de dizer que o Paraná vem sendo prejudicado justamente pelos que agora querem o poder.

Além de boicotar os recursos federais para o Estado, de impedir a contratação de empréstimos internacionais a juros subsidiados para dar prosseguimento a programas de grande alcance social, mostra que as obras do PAC 2 não andaram no Paraná. Cerca de 42% das obras previstas ainda nem saíram do papel, especialmente as que foram propostas por municípios pequenos. Os dados estão no último balanço do programa divulgado pelo governo federal e representam o que foi feito até dezembro do ano passado.

Dos 2.381 projetos que constam, 1.004 ainda estão com o status de ação preparatória ou em licitação. Muitos desses não têm previsão de custo no documento, já que há uma ressalva de que podem ser realizados por meio do Regime Diferenciado de Contratação (RDC). Ou seja, o Paraná e seu povo continuam vítimas da politicagem. Uma história que vem de longe e parece não ter fim.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *