Amerrissando na memória

aguia

O nome era até condoreiro como num verso de Castro Alves: a praça é do povo como o céu é do condor. Quantas vezes pronunciamos a frase em comícios como se ela detivesse uma energia do sempre novo. Pois o nome da primeira praia, mais urbana do que a da Costeira em Paranaguá, era a da Condor, nome da empresa alemã de aviação que operava com sua frota de hidroaviões que amerrissavam e também decolavam do rio Itiberê entre a ponta do istmo do Valadares e o fulgor próximo da ilha da Cotinga.

Com a supressão dos bens dos súditos do eixo, que se seguiu à declaração de guerra do Brasil, ela fechou, como também os clubes mudaram de nome, o Palestra Itália para Palmeiras, o Savoia para Brasil e depois Água Verde, o clube alemão mais antigo de Curitiba mudou para Concórdia, e, por algum tempo, acabou ocupado pelo Atlético Paranaense e hoje pertence ao Clube Curitibano.

Mas o que acabou com a prainha, que chamávamos de porto aéreo, foi o processo de ocupação urbana e, é claro, o assoreamento daquele braço de mar a receber esgotos de todos os lados. Também o acesso mais fácil às praias de Leste, de Matinhos e do Pontal foi diminuindo o uso do rio para abluções, como também perdeu seu significado mais forte na navegação e como ancoradouro.

 

O Zeppelin

Havia um trapiche no porto aéreo, que só operava corretamente em maré bem alta, destinado a receber pessoas e cargas que haviam amerrissado e que eram trazidas em botes. Os alemães, com sua compulsão imperial, até como revide da derrota na Primeira Guerra, a de 1914, como os americanos com as naves espaciais na Guerra Fria, usavam os zepelins como arma de propaganda e meio de transporte, e eu vi, ainda em Paranaguá, um deles, sobrevoando a cidade e que passou por Curitiba, numa das fotos perto das torres da Catedral na Praça Tiradentes.

Nadávamos até o outro lado do rio para testar nossas forças e quem não o conseguia era timbrado como “maricas’’. Por sinal que uma das lendas do Itiberê era a existência de um “turco’’, descendente de árabe, que padecia de cardiopatia e costumava dormir enquanto boiava e que o fazia, de uma extensão a outra do braço de mar, conduzido pela correnteza. Ia e voltava como um Sísifo sereno e marítimo, nada trágico. Claro que como lenda era menos épica do que aquela da ameaça de ataque pelos piratas (não sei se dentre eles não se achava o Zulmiro, que andou aprontando também em Curitiba), e tanto que os defensores da urbe teriam fundido o seu ouro e o colocado como uma serpente no subterrâneo que a atravessava. Pois nesse episódio quem expulsou os corsários foi a nossa madrinha, a Senhora do Rocio, que chorou tanto que levantou as águas do mar e afundou algumas das caravelas invasoras.

 

O túnel sem fim

Uma das passagens desse túnel passava na casa de Randolpho Veiga, meu avô materno, em que nasci, e localizada na rua Visconde de Nacar, que a mandou selar com receio de acidentes; outra referida era a do porto dos padres. Pena que sei pouco da presença de Heitor Villa-Lobos na terra em que realizou o seu primeiro concerto, no Teatro Santa Celina, registro hoje consagrado pelo instituto que lhe conserva a obra e sua história. Ele era amigo do meu avô e do João Elísio, que lhe arrumaram emprego na cidade em que viveu por dois anos.

Entre as fantasias de infância e a busca do documental, me lembro da carantonha de um demônio, fragmento arrancado de alegoria carnavalesca (meu avô era empenhado nessas celebrações tanto quanto Villa-Lobos), que tapava um alçapão do teto. Lá embaixo me faziam dormir na maior sala da casa no colo da babá ou de minha mãe ao traçar a mamadeira. Não poucas vezes sonhei com o fim do mundo: um rosto gigante o anunciando, certamente aquela alegoria do teto. Era uma soma de relatos revolucionários do Prestes e das revoluções de 30 e 32 a que se misturavam lances dos esgorjamentos da Federalista e dos choques entre pica-paus e maragatos no Contestado e também do que havia de fantástico nas referências da Segunda Guerra Mundial e os cuidados de não deixar passar uma só réstea de luz nos exercícios de defesa passiva dos blecautes e imaginários ataques agora dos caças temerários dos nazistas e não dos pacíficos hidroaviões da Condor, aqueles que amerrissavam no lírico Itiberê e justamente em nossa praia urbana. Era, sim, o fim desse mundo.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *