Contradições – os mutantes da MPB

01-Secos_Molhados

“O senhor mire e veja. O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. […] Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza. Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.”
(Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa, 1956)

 

Quem consegue passar a vida dentro de uma exatidão de estátua, olhos fixos numa direção, cabeça obcecada por ideia imutável, certeza única de conceito? Não dá! O tempo passa, as coisas se deslocam e vamos caindo em outros expedientes.

Talvez por isso quem enche o peito e grita aos quatro ventos suas certezas definitivas pareça tão ridículo e extraviado. Ah sim!, temos os incontestáveis death and taxes de Franklin, mas isso é outra história.

Na música, o vai e vem é constante também. Swami Jr e Paulo Freire sabem disso e escreveram versos que podem ser repetidos todas as santas manhãs, independente da febre:

“Um dia quero mudar tudo/ No outro eu morro de rir /Um dia tô cheia de vida/ No outro não sei onde ir /Um dia escapo por pouco/ No outro não sei se vou me livrar /Um dia esqueço de tudo/ No outro não posso deixar de lembrar”.

Caetano Veloso, perspicaz sedutor de camaleoas, e ele mesmo um transmutável maluco que ao mesmo tempo em que afirma já lança a dúvida, foi também o que melhor passou para o campo das ideias nossa condição mutante. Ou não. Ele descreve como expectativas podem ser quebradas quando projetadas no outro, principalmente se o outro tem consciência de todas as nuances que é capaz de vestir:

“Onde queres o ato, eu sou o espírito/ E onde queres ternura, eu sou tesão/ Onde queres o livre, decassílabo/ E onde buscas o anjo, sou mulher/ Onde queres prazer, sou o que dói/ E onde queres tortura, mansidão/ Onde queres um lar, revolução/ E onde queres bandido, sou herói”.

O jogo de antíteses manda pelo ralo os quereres específicos; cada brasa pode queimar um tipo de canavial e quem sabe viver na amplidão da própria liberdade não se preocupa muito em fazer papel imóvel diante da vontade alheia. O melhor é querer o que há e o que não há, é ser e não ser, é isto e aquilo, como um total quebrado, uma obra em construção, uma mudança constante.

Dentro desse mesmo filme de contradições, de ser e não ser, de ser e mudar, de se jogar na causa desgrudado de ascendentes, Guinga e Aldir Blanc compuseram Catavento e Girassol, que até que eu mude de ideia, tem na interpretação de Leila Pinheiro a melhor:

“Quando eu respeito os sinais vejo você de patins vindo na contramão/ Mas quando ataco de macho, você se faz de capacho e não quer confusão/ Nenhum dos dois se entrega, nós não ouvimos conselho/ Eu sou você que se vai no sumidouro do espelho / Eu sou do Engenho de Dentro e você vive no vento do Arpoador/ Eu tenho um jeito arredio e você é expansiva, o inseto e a flor/ Um torce pra Mia Farrow, o outro é Woody Allen/ Quando assovio uma seresta você dança havaiana”.

Cacaso

Cacaso

E quem é aquele que muda a ordem geral dos ditos? O brasileiro de estatura mediana contrário ao vigente conhecido? É o personagem inventado por Cacaso em música de Edu Lobo:

“Porque no amor quem perde quase sempre ganha/ Veja só que coisa estranha, saia dessa se puder/ Diz um ditado natural da minha terra/ Bom cabrito é o que mais berra onde canta o sabiá/ Desacredito no azar da minha sina/ Tico-tico de rapina, ninguém leva o meu fubá”. Dono do próprio nariz, não há força popular que o domine.

E o Candeia, hein? De tanto rolar pra lá e pra cá, saltar de um lugar pro outro, acabou que se perdeu de si. O fato não é raro e os de gênio mais sensível acabam em perigosa arapuca ao investigar explicações, pensamentos, ideias. A diligência de Candeia é atrás dele mesmo, de alguma originalidade intrínseca, filosófica, e essa busca é tão profunda que ele vai fazê-la no que há de menos apurado e modificado por outro, a natureza:

“Quero assistir ao sol nascer/ Ver as águas dos rios correr/ Ouvir os pássaros cantar/ Eu quero nascer/ Quero viver […] Se alguém por mim perguntar/ Diga que eu só vou voltar/ Depois que me encontrar”.

Há na nossa MPB aqueles que sabem da transitoriedade dos momentos e quando a situação aperta, pulam fora logo de uma vez. Antônio Carlos e Jocafi não se fazem de rogados, se o jogo muda, eles mudam também, mesmo afirmando nunca mais mudarem:

“Mudei de ideia / vou rifar meu violão/ Mudei de ideia / manias do coração/ Mudei de ideia / cansei de você, vou me desatar /Mudei de ideia / por isso vim lhe avisar/ Mudei de ideia / palavra, eu não volto atrás/ Mudei de ideia / eu digo até nunca mais!”.

rRaulComo é que dá pra gente fincar pé feito raiz de árvore grande numa ideia se até o que é de improvável mudança acaba por surpreender? Quando a lua ilumina a dança, a roda e a festa, tudo pode acontecer, como bem nos ensinou João Ricardo e Luhli naquela maravilha dos anos 70, nos já etimologicamente excludentes e complementares, os paradoxais Secos e Molhados:

“O gato preto cruzou a estrada /Passou por debaixo da escada./ E lá no fundo azul na noite da floresta./ A lua iluminou a dança, a roda, a festa / Vira, vira, vira/ Vira, vira, vira homem, vira, vira Vira, vira, lobisomem”.

Toca Raul! Chegou o dia em que esta coluna se curva ao antigo pedido. Raul Seixas escreveu, ao lado do misterioso e alquimista Paulo Coelho, Metamorfose Ambulante, que é a composição que melhor descreve o tema da vez e com ela fechamos a encomenda. Essa inconstância da dupla figura por aí desde 1973, a arrancar poderosos coros nos barzinhos de todas as noites desde então, aperte o play, aumente o volume e até a edição que vem:

“É chato chegar a um objetivo num instante / Eu quero viver nessa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo / Sobre o que é o amor / Sobre o que eu nem sei quem sou / Se hoje eu sou estrela / Amanhã já se apagou / Se hoje eu te odeio / Amanhã lhe tenho amor”.

 

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