De junho de 2013 à copa de 2014

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Agora que teve Copa, pelo que vamos bradar?

 

A expectativa sobre as manifestações na Copa pairavam nas conversas de botequim, a dúvida era se haveria ou não o quebra-quebra ou as passeatas assistidas em junho de 2013.

 

Junho de 2013
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Manifestação no Sete de Setembro do ano passado no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva – Agência Brasil

Motivados pelos abusivos 0,20 centavos, o Movimento Passe Livre foi capaz de mobilizar através das redes sociais milhares e milhares de pessoas nas cidades do país, um movimento que tomou proporções incontroláveis pelo MPL e se tornou apolítico e quase fascista. A proibir bandeiras de partidos políticos, as passeatas deixaram de ter um propósito eficiente e passaram a agir de forma apelativa, com exacerbado nacionalismo e infestada de patrulhas, cujas reivindicações válidas eram somente saúde, transporte, segurança e educação, não que fosse pouco. O hino nacional era o grito de guerra, a bandeira o manto sagrado e as palavras de ordem, como “o gigante acordou”, a motivação para levar o protesto digital para as ruas, cansamos de ouvir “vem pra rua que essa luta também é sua”.

Após e durante essa onda de manifestações qualquer desconforto virou motivo para pintar as caras, erguer cartazes e cantar palavras de ordem. Teve até grupo de estudantes da Pontifícia Universidade Católica do Paraná que resolveu lutar contra o abusivo preço da cantina e organizou manifestação com tudo que tinha direito, exceto black blocs, e alcançou por pouco tempo o objetivo de baixar o preço do salgado, pois meses depois aumentou, e veio mais caro que antes.

Junho de 2014

A partir do dia 12 de junho, abertura da Copa do Mundo, haveria duas possibilidades: o Gigante Acordado sentaria em frente à tevê e deixaria suas reivindicações de lado em favor do hedonismo futebolístico ou pegaria nas foices e martelos e partiria à luta. Repetir a façanha de um ano atrás era opinião quase unânime que não seria possível, porém os líderes dos movimentos sociais provavelmente esperavam mais adesão.

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Ativistas políticos participam de uma passeata contra a repressão e a criminalização das manifestações. Foto: Tomaz Silva – Agência Brasil

Mais uma vez os brasileiros apresentaram-se como tais: apáticos e de fácil manipulação. A televisão andava a transmitir somente futebol, Copa, Copa, Copa e mais Copa, e não se cansou em ver e assistir mesmo que seja um ordinário 0 x 0 entre Nigéria e Irã ou os venenosos e hipócritas discursos de Galvão Bueno, ora pró-Felipão, ora contra. Parece que o brado retumbante por saúde, transporte, segurança e educação foi posto no banco de reservas e o futebol vestiu a camisa de titular.

Em 19 de junho de 2013, de acordo com notícia do UOL, o Brasil juntou mais de um milhão de pessoas nas ruas em 388 cidades (22 capitais) a reivindicar seus direitos. Embora o número pareça alto, representa 0,5% da população brasileira, contudo em caso de Brasil tornou-se uma grande proeza. Um ano depois, no dia em que a bola rolou para Brasil e Croácia, foram registradas manifestações contra a Copa do Mundo, desta vez com decepcionante adesão. O “Grande Ato 12 de junho Não Vai Ter Copa” em São Paulo foi organizado em seis coletivos. O primeiro tumulto registrado foi na manhã do dia 12 na capital paulista e cabia em um ônibus o número de manifestantes (30), eram do Diretório de Física da Unicamp e berravam contra Alckmin e Dilma. Nesse ato, a jornalista da CNN, Barbara Arvanitidis, foi atingida por uma bomba da polícia e a foto de seu braço repercutiu na internet.

Jornalistas de outras partes do mundo, já com décadas de cancha em coberturas internacionais, chegaram a questionar se “é sempre assim aqui?”, tamanho foi o baque com a ação policial, que estava fortemente preparada para conter black blocs, manifestantes pacíficos ou não. Dez minutos antes do início da partida 29 pessoas foram detidas pela PM dentro da Unesp, elas estavam mascaradas, com vinagres e canivetes.

 

Curitiba

Em Curitiba as manifestações começaram em 16 de junho – dia do primeiro jogo da Copa na cidade. A convocação foi feita pelo Facebook através dos eventos “Vem pra rua contra as injustiças da Copa 2” e “Não vai ter Copa”, juntos os eventos contabilizaram 3 mil presenças confirmadas, no entanto não foi o que se viu, eram cerca de 200 pessoas a manifestar contra os abusos da Fifa e do governo. Marcharam da Boca Maldita (centro) até as imediações do estádio, onde foram impedidos de passar por um bloqueio policial, com pouca disposição para enfrentar a barreira da PM, voltaram ao centro. Na descrição de um dos eventos trazia o seguinte parágrafo: “O Brasil não precisa de uma Copa do Mundo e muito menos de tanto dinheiro sendo investido nela. O Brasil não precisa que uma corporação como a Fifa passe por cima de nossa Constituição em nome de um torneio de futebol. Não precisamos que um patrimônio cultural, ocupado por indígenas – o antigo Museu do Índio – seja demolido para dar lugar ao estacionamento de um estádio. Tampouco precisamos que milhares de famílias sejam obrigadas a deixar suas casas para dar lugar a prédios e comércios de grandes empresários…”. Os manifestantes se revoltaram por dois principais motivos: a criminalização dos movimentos sociais e que a Copa privilegia o interesse privado, a deixar o público à mercê.

 

7 x 1

Depois de a Seleção Brasileira ser boicotada do sonho de ser campeã em casa por uma brilhante atuação alemã e uma “pane” de seis minutos, a selvageria tomou o lugar dos protestos. Movidos a álcool para afundar as mágoas da humilhante derrota, pessoas na Praça da Espanha causaram tumultos e a polícia teve que intervir com balas de borracha. Sem contar o insucesso de um rapaz que tentou atear fogo num ônibus, porém quem acabou com 45% do corpo queimado foi ele. Além de a Prefeitura de Curitiba registrar 21 ônibus danificados por atos de vandalismo.

As críticas sobre a Fifa e o governo brasileiro se acentuavam quando o calendário decrescia cada vez mais rápido e o acúmulo de declarações que pareciam brincar com a cara da nação, desde “Não se faz Copa com hospitais”, de Ronaldo, até “O que tinha que ser gasto, roubado, já foi”, de Joana Havelange. Sobre estes aspectos há duas situações: o Brasil quis sediar a Copa do Mundo e a Fifa expôs suas exigências; o outro é explicado pelo sociólogo José Guilherme Pereira Leite: “dizem com muita frequência que, na Alemanha, a Copa de 2006 correu de maneira mais branda porque os alemães são em tese mais organizados do que nós em matéria de contas públicas e construção civil. Por isso, dizem, a Copa entre os alemães foi apenas um evento para quem gosta de futebol, não foi essa calamidade tão ampla e vexatória pela qual estamos passando”; e ainda completa: “Uma Copa no Brasil… De que modo uma Copa no Brasil poderia ser feita, se não à brasileira? Por isso me pergunto muitas vezes, em face das polêmicas que se avolumam: qual é afinal o nosso maior problema? A Copa ou o Brasil?”

 

Futuro

Agora que já passamos pela Copa e não é mais possível se esconder no discurso “Imagine na Copa”, como os brasileiros vão lidar com o futuro? Com as manifestações? Com os roubos de dinheiro público que sempre houve?

Com a apatia, descrença no amanhã, ou, ainda, a falsa crença no Brasil, o país do futuro?! As manifestações que protestavam contra a Copa, dizendo que não aconteceria, soavam aparentemente ingênuas, pois ainda somos o país do futebol. Impossível que as pessoas preferissem gritar contra o PT ao invés de gritar gol do Neymar. No período dos jogos a única coisa que revoltava era a má atuação do Hulk, a demora do Fred para estufar a rede e o porquê da não punição de Zúñiga. O junho de 2013 entrou, de fato, para o banco de reservas e se calhar foi excluído do jogo. O junho de 2014 não conseguiu mobilizar a nação para clamar que “Da Copa eu abro mão! Eu quero dinheiro pra saúde e educação”, como foi feito um ano atrás. Todavia, ambos entraram para a história. O primeiro, como o primeiro acontecimento brasileiro mobilizado pelas redes sociais. O segundo, como a maior goleada já sofrida em toda a história da Seleção Brasileira.

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Manifestação em Curitiba-PR. Foto: Orlando Kissner

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