Não aceitamos dinheiro

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A partir de 1º de agosto, 62 linhas de ônibus aceitarão somente o cartão-transporte

 

A história do transporte público de Curitiba é de longa data. Pelo menos desde 1955, quando foi determinada, por intermédio do Decreto 503/55, a concessão para 13 empresas operarem a locomoção dos curitibanos. À época a cidade contava com 50 ônibus e 80 lotações. De lá pra cá, as empresas, os trabalhadores, usuários e governantes já travaram muitos conflitos e discussões. Em 1986, por intermédio do Decreto 195/86, a Urbs (Urbanização de Curitiba) torna-se a gerenciadora do transporte público e as empresas passam a ser permissionárias.

O ano de 2014 iniciou turbulento, em 26 de fevereiro ocorreu a greve dos motoristas e cobradores de ônibus, que buscavam reajustes salariais de 16% e 22%, respectivamente. Porém, após duas propostas da desembargadora Ana Carolina Zaina, a categoria aceitou o aumento de 9,28%, a primeira era de 10,5%. Naquele momento, o Sindicato de Motoristas e Cobradores de Ônibus de Curitiba e Região Metropolitana (Sindimoc) ficou sem operar os ônibus entre os dias 26 de fevereiro e 1º de março. A demora para entrarem em acordo se deu, pois os empregadores afirmavam que com o aumento salarial proposto inicialmente pela magistrada a tarifa técnica subiria 0,32 centavos, sem alterar o valor da tarifa do usuário, e causaria um rombo mensal de quase 14 milhões de reais, oito só da região metropolitana.

A outra greve causou mais tensão na cidade, os cobradores se rebelaram dia 26 de junho, dia do jogo entre Rússia e Argélia na Arena da Baixada. Como dessa vez somente os cobradores entraram em greve, a solução encontrada pela Urbs foi fazer “catraca livre”, para a cidade não ficar caótica. No dia seguinte, no entanto, não foi liberada a saída dos ônibus das garagens sem cobradores, e, de acordo com notícia divulgada pela Gazeta do Povo, 70% das cirurgias realizadas no Hospital Pequeno Príncipe tiveram que ser adiadas. Além de a “catraca livre” dar um prejuízo de 2,5 milhões de reais em apenas um dia.

O último episódio que protagonizou as manchetes dos jornais envolvendo sindicato, empresas e usuários foi a determinação da Urbs em acabar com a cobrança em dinheiro nos micro-ônibus – a partir de 1º de agosto será permitida somente a bilhetagem eletrônica em 62 linhas. O projeto de lei é do vereador Felipe Braga Côrtes (PSDB). Ele diz que o pagamento com o cartão evitará a dupla função do motorista.

Em 23 de novembro de 2012 foi sancionada, pelo então prefeito Luciano Ducci, a Lei 14.150/2012, a trazer na ementa o seguinte texto:

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A Urbs disse na altura para os motoristas pararem o ônibus para realizar a cobrança, no entanto, não é isso que se vê no dia a dia. Os ônibus têm hora de partida e chegada, portanto muitos optam em correr o risco e fazer o troco com o veículo em movimento. Tiago, que opera aos sábados a linha Itupava/Hospital Militar, disse que foi orientado a não se preocupar com o horário, “mas a minha hora de entregar o carro é 18h08, se eu não me preocupar com o horário, vou entregar 18h40, e ninguém me paga hora extra”. Então fica o dilema. A medida também vai na contramão do que o Sindimoc esperava, que era a contratação de cobradores nos micro-ônibus. O Artigo 2º, da respectiva lei, diz que as empresas que forem flagradas com a prática de dupla função poderão receber multa de R$ 10 mil reais e, caso continuem com o descumprimento da regra, a Prefeitura de Curitiba poderá cassar a permissão.

03-transDe acordo com a assessoria de imprensa da Urbs, o objetivo da medida é trazer mais segurança e praticidade aos motoristas e usuários. Mesmo com algumas pessoas insatisfeitas com a decisão, o número de cartões-transportes em dois dias aumentou em três vezes, o fato é decorrente da instalação de postos pela cidade que fazem o cartão. Antes, era possível adquirir somente na Rodoferroviária e nas Ruas da Cidadania, agora foram criados mais três postos: no Cabral, em Santa Felicidade e na Travessa Nestor de Castro, no centro.

A Urbs informou também que, embora pareça, a mudança na cobrança de tarifas nos micro-ônibus não é uma medida tão brusca, uma vez que dos 70 mil usuários do veículo, 60% já usam o cartão-transporte. E 23 bancas espalhadas pela cidade venderão cartões avulsos, para aquele cidadão que não usa ônibus todo dia ou teve algum problema com seu cartão.

Não foi dito, no entanto, como vão fazer com as intempéries, com os possíveis desavisados, com os que têm todo o dinheiro do mundo para pagar, mas não poderão entrar, pois não haverá motorista que aceite, com aqueles mais revoltosos e resistentes às mudanças e quebras de paradigmas, com os turistas.

Parece que 23 bancas disponibilizarem cartões avulsos para quem não possui o cartão titular é pouco eficiente, de solução passa a problema, pois se a pessoa estiver num lugar que não tem banca, ou que a banca não seja credenciada, ou algo mais provável ainda, se for noite (bancas fecham)? Caso tudo isso não aconteça e haja uma banca aberta, o cartão avulso será vendido com até 25 créditos – o que significa R$ 67,50 –, haverá, entretanto outros valores? Cartões com um crédito? Quantos? As bancas vão suportar a demanda? E quem não tiver o suficiente para pagar pelos créditos que há na banca? A Urbs disse que sim, haverá outros valores, não informou, entretanto, quantos e quais, mas disse que será mais ou menos como cartão telefônico.

Esta é a primeira medida – a de 1º de agosto. Está programado para até o fim do ano o cartão pré-pago. Este cartão, diferentemente dos outros dois, não é recarregável, haverá variadas ofertas de créditos, isto é, passagens, assim que a pessoa encerrar o valor comprado o cartão pode ir pra lata do lixo, pois não terá mais nenhuma serventia. E cogita-se a possibilidade de diferenciação na tarifa por horários, pois será implantada, também em 1º de agosto, a tarifa domingueira para cartões, até então o usuário só conseguia pagar o valor de R$ 1,50 aos domingos com dinheiro.

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