O homem cordial brasileiro

capa-cordial

Ocorreram 56.337 homicídios no Brasil em 2012

 

Conseguimos em um mês esconder todas as facetas negativas do Brasil. Bom? Sim, bom! Afinal, roupa suja se lava em casa… Mais de um milhão de turistas circularam no período da Copa no país, ficaram em média 13 dias e 95% dizem que querem voltar; os maiores índices de aprovação foram: hospitalidade (98,1%), gastronomia (93,1%) e segurança (92%). Turistas e seleções passaram por aqui a dizer bem do Brasil e do brasileiro, porém a matéria a seguir mostra que segurança estar com 92% de aprovação é obra pra inglês ver.

 

Sérgio Buarque e o homem cordial
Sérgio Buarque de Holanda. Foto: Divulgação

Sérgio Buarque de Holanda. Foto: Divulgação

Em 1936 estávamos a receber Raízes do Brasil, livro de Sérgio Buarque de Holanda, figura que vai além dos cargos acadêmicos, necessária para a evolução da espécie. Poucos livros definiram com a exatidão de um arqueiro a sociedade. Ainda hoje é o principal referencial para entender a minha, a sua, a nossa mentalidade num mar de gente de um país continental. Depois de Sérgio Buarque os brasileiros nunca mais foram o que ele próprio denunciou em seu livro: “uns desterrados em nossa terra”.

O capítulo cinco do livro perpetuou nas falas dos corredores das universidades a concordar, a discordar, a duvidar. O homem cordial até hoje traz enigmas e equívocos. Sérgio Buarque mostrou que o brasileiro com sua afabilidade no trato, hospitalidade de cozinha, generosidade gratuita, características invejadas pelos gringos, tornou-se brasileiro de fato. Ele deu a identidade faltante para nós. Mas quando publicou seu livro nos trouxe outra notícia, todas essas características nos afastam da civilidade, pois o homem cordial é o que age pelas suas emoções, mais ou menos como a relação de amor e ódio, ora para o bem, ora para o mal.

 

Pesquisa

A prévia do estudo da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) divulgada recentemente mostra que o homem cordial brasileiro está odioso. As estatísticas do ano de 2012 revelam que 56.337 pessoas foram assassinadas, dez anos antes o número era de 49.695, ou seja, houve um aumento de 13,4%. A taxa para cada 100 mil habitantes é de 29,0 homicídios.

Para termos uma base de comparação se matamos muito ou não, tomemos como exemplo os números de dois países do relatório da ONU divulgado neste ano com informações oficiais de 2012: Honduras, com taxa de 90,4 homicídios a cada 100 mil habitantes, é o país que mais mata no planeta, e a Islândia, com 0,3, tem uma das menores taxas do mundo (sempre para 100 mil habitantes). Podemos argumentar que o Brasil é um país continental, etc., etc., constatação frágil, pois se tomarmos a China como modelo a taxa é de 0,5 (dado de 2011). E se os chineses não convencerem pelo fato de serem orientais e estarem distantes do mundo ocidental, nosso quase vizinho Chile é capaz de mostrar que o homem cordial brasileiro está com algum problema, a taxa dos chilenos é de 3,1. Sem contar que estamos acima da taxa mundial que atinge a casa dos 6,2.

 

Contradição

As taxas do relatório das Nações Unidas e da FLACSO divergem, se aceitarmos o que a ONU diz, o Brasil, entre os países latino-americanos, ocupa a sétima colocação no número de homicídios com 25,2 para 100 mil habitantes, no entanto, se o estudo da FLACSO for o usado, esta taxa sobe para 29,0, e, dessa forma, o Brasil ganha a posição de Porto Rico (26,5 mortes), passa a ser o sexto país latino-americano mais assassino, à frente apenas Colômbia (5º), Guatemala (4º), El Salvador (3º), Venezuela (2º) e a líder, já citada, Honduras.

 

Trânsito e suicídio

A FLACSO vai além, analisa também as mortes em acidentes de trânsito e suicídio. As ruas e estradas parecem ser mais selvagens ainda, está longe do processo civilizacional proposto por Sérgio Buarque. Na década 2002/2012, o aumento de mortes no sistema viário brasileiro foi de 38,3%, bem acima dos homicídios. E para quem pensa que suicídio é coisa de estudante japonês, os dados do Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde mostram que ele cresceu na mesma década 33,6%. Curioso observar que o aumento mais preocupante no número de suicídios é em Brasília (23,8%), terra dos políticos, e Goiás (18,5%), berço de muitas duplas sertanejas. Porém, de acordo com matéria do portal de notícias UOL, a Agência Nacional de Polícia Japonesa afirmou que 27.858 pessoas suicidaram-se em 2012 e entre jovens de 20 a 29 anos a taxa é de 47%. O número no Brasil para o mesmo ano é de 10.321.

 

Paraná

Nós, curitibanos, ou os que cá vivem, estamos cansados de ouvir que Curitiba é a capital europeia do Brasil, arquétipo de educação e civilidade. Nem tanto. Não vamos nos esquecer de Sérgio Buarque de Holanda, o homem cordial brasileiro que age com o coração vai contra a civilidade, logo Curitiba ser exemplo de civilidade parece contraditório, pois a tomar como base as taxas de homicídio da FLACSO de 2011, entre os 5.565 municípios reconhecidos pelo IBGE, Curitiba ocupa a 198ª posição e está entre as dez capitais mais violentas do Brasil, esses dados se distanciam muito da civilização.

Se ampliarmos a lupa para a Unidade Federativa a situação não melhora muito, em números absolutos somos o terceiro Estado que mais mata em acidentes de trânsito no país, ficamos atrás de São Paulo com 7.306 e Minas Gerais com 4.692; o Paraná registrou 3.646 mortes.

Em homicídios, somos os primeiros da região Sul, no cenário nacional ocupamos a sexta posição. Todavia, a notícia pode melhorar, temos a 12ª menor taxa para cada 100 mil habitantes. (E o eixo Rio-São Paulo que ainda hoje toma conta do espetáculo midiático vem a apresentar melhorias, estão com taxas inferiores ao Brasil (29,0) com 28,3 e 15,1 respectivamente, além de a Terra da Garoa ter a segunda menor taxa a cada 100 mil habitantes.)

Sobre os suicídios, o Paraná tem a menor taxa (6,0) da região Sul, muito embora a parte meridional do país apresente a maior (8,5), índice elevado por causa dos gaúchos (10,9). E os paranaenses estão à frente das médias das regiões Norte (4,2), Nordeste (4,3) e Sudeste (4,9); a única região, além da Sul, que tem taxa maior que a do nosso Estado é a Centro-Oeste (6,5), e também está acima da média brasileira (5,0).

Esses dados todos comprovam a teoria de Sérgio Buarque de Holanda, já comprada por todos nós com o discurso que somos um povo acolhedor e tudo de bom já dito antes, porém mostra a coroa da moeda, a face do mal do homem cordial brasileiro, que segue agindo pela emoção, segue a se afastar da civilidade. Cordial vem do latim cordis, que não quer dizer hospitaleiro, generoso, alegre, significa coração. E rispidamente Sérgio Buarque garante que “Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez [civilidade]. Ela pode iludir na aparência”. E assim vivemos, iludindo – os gringos – e deixando-nos iludir.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *