O Papa entre lobos

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Para quem pegou os tempos do século passado em que era muito difícil o acesso a jornais e revistas estrangeiros, que vinham por avião, demoravam a chegar e custavam caríssimos, uma leitura do Nouvel Observateur pela internet é como abrir uma janela para o mundo e uma bem-vinda exceção ao império do pensamento único, cuja hegemonia nos priva, no Brasil, de informações que nos permitiriam uma visão mais nítida do que acontece no resto do planeta.

Nesta leitura, encontro uma notícia que não encontrei no noticiário da UOL, que é, basicamente, o da Folha de S.Paulo, nem nos sites de O Globo, do Jornal do Brasil e do Estadão: a de que nesta nova fase armada e sangrenta do conflito árabe-israelense aviões não-tripulados (drones) do Hamas palestino já sobrevoaram o edifício do Ministério da Defesa de Israel, em Tel-Aviv. É um fato relevante: se sobrevoaram, os drones poderiam ter despejado ali algumas bombas, radicalizando ainda mais essa guerra que, na opinião de Jean Daniel, fundador do Observateur, já não oferece alguma esperança de paz. Detalhe ainda mais relevante: seriam drones fabricados na própria Faixa de Gaza, não contrabandeados por algum invisível mercador multinacional de armas.

Gostaria de ir adiante com a discussão desse assunto, a partir do conhecimento de que os palestinos, como em geral os povos em desgraça, são na atualidade o povo que mais estuda. Sendo assim, nada mais natural que alguns de seus cientistas e engenheiros se dediquem aos drones, que podem substituir com vantagem os descartáveis homens-bomba e causar mais danos do que estes.
Gostaria, mas não vou adiante, porque quero roubar outra informação desse número do Nouvel Observateur. É sobre um livro recém-lançado em tradução francesa e que deve estar dando o que pensar aos franceses, assim como aos italianos, que tiveram o privilégio da edição original.

03-LivroTrata-se, em tradução brasileira, de O Papa entre os lobos, ou Francisco entre os lobos, do vaticanista (como na Itália chamam os jornalistas com boa experiência de cobertura da sede Papal) Mario Politi. Ele já trabalhou na cobertura dos Papas João Paulo II e Bento XVI e não brincou neste ano e pouco do Papa Francisco: além da informação local, no Vaticano, esteve na Argentina para investigar as raízes do outrora cardeal Jorge Bergoglio.

O Papa – diz o livro – está cercado de lobos, os lobos da Cúria e outros não claramente identificados, apenas sugeridos. Naturalmente o artigo do Observateur, assinado por Marcelle Padovani, colaboradora de muitos anos da revista, não esgota o conteúdo do livro. Mas é instigante. Há sinais de que o Papa está esgotado. Afinal, deu o número assombroso de 12 mil audiências em um ano, o que significa a média de mil por mês, ou mais de oitenta por dia. Qual terá sido a média diária da jornada de trabalho para o Papa conseguir tudo isso?

O livro pergunta se não acabará sendo bem curto o pontificado de Francisco, mas não compara seu ano e pouco de Papa com os 33 dias de João Paulo I, em 1978.

Assim como João Paulo I, o Papa Francisco atreveu-se a mexer no Banco do Vaticano, essa máquina de negociatas, fraude e corrupção, cujos feitos (ou malfeitos, como preferiria a presidente Dilma) estão suficientemente documentados e acima de qualquer teoria conspiratória.

Pior que João Paulo I, Francisco, no avião que o trazia ao Brasil no ano passado, respondeu à pergunta da jornalista brasileira Ilze Scamparini sobre o que achava dos gays, com outra pergunta, que deve ter causado escândalo entre os lobos da Cúria: “Quem sou eu para julgar?”.

Diante da ferocidade teológica do antecessor, o Papa Ratzinger, o Papa Francisco lembra as ousadias não só de João Paulo I, como as de João XXIII, há mais de meio século. E deve encantar aqueles católicos que sofriam com o rigor dogmático de punições como as impostas em nosso tempo ao franciscano Leonardo Boff, e no passado, sob outras formas, a leigos católicos ou não, por não pensarem de acordo, estritamente, com a versão ou leitura mais conservadora dos princípios da Igreja.

Nem é preciso recuarmos a Freud, Darwin, Giordano Bruno ou Galileu, que por tudo isso ou quase tudo a Igreja já se penitenciou, mas aqui mesmo, em Curitiba, na adolescência, aluno do Colégio Santa Maria, tive de rezar, junto com os colegas, para que o eleitorado da Bahia, em 1950, não reelegesse o deputado Nelson Carneiro, autor de um projeto de lei de divórcio.

Anos depois, na Faculdade de Direito, aprendi que Nelson não era apenas autor de um projeto de divórcio, mas o grande reformador de nosso Direito de Família. Foi Nelson, por exemplo, o principal autor das leis que permitiram o reconhecimento dos filhos adulterinos, abrindo caminho a que hoje não haja aquela distinção absurda e cruel entre filhos legítimos e ilegítimos.

Na trilha aberta por Nelson Carneiro é que vieram depois outras reformas tanto da legislação civil quanto da legislação penal. Nas leis antigas, que causam enorme vergonha, era considerada adúltera a mulher que tivesse qualquer relação sexual fora do casamento. O homem só era adúltero se tivesse, fora de casa, mulher teúda e manteúda, isto é, sustentada por ele. O homem podia pedir a anulação do casamento se descobrisse que sua mulher não era mais virgem. A mulher não podia invocar a não-virgindade do marido. Aliás, nem se esperava, naquele mundo machista, que o homem casasse virgem.

O Papa Francisco não se surpreenderia ao saber que no Brasil a Igreja resistiu muito à reforma do Direito de Família. E não se surpreenderá com as resistências que suas propostas para a Igreja enfrentarão, assim como tem consciência de estar cercado por verdadeiros lobos e, pelo que se depreende do artigo do Nouvel Observateur, de que seu pontificado venha a ser bem curto. Ele tem consciência disso, mas parece certo de que, graças a alguns fatos consumados antes do fim, suas ideias triunfarão.

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