Prateleira. Ed. 154

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Sándor Márai. Foto: Bokförlaget Tranans pressrum

A literatura de Sándor Márai

Dico Kremer

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Foto: Divulgação

Na medida em que o tempo avança, pelo menos para mim, mais é a vontade que tenho de reler do que descobrir novos escritores. Não que não haja bons livros de ficção escritos hoje em dia, mas fazendo sem querer (ou querendo) comparações, onde ficam, então, James Joyce, Marcel Proust, Franz Kafka, Honoré de Balzac, Eça de Queirós, George Eliot, Machado de Assis, Jorge Luis Borges, só para citar uns poucos?

Graças a um presente de meu irmão conheci um escritor maior do século 19: o húngaro Sándor Márai. O primeiro livro que li, As Brasas, traduzido da versão italiana por Rosa Freire D’Aguiar, é uma obra-prima. Dois amigos que se reencontram depois de 40 anos e a versão de cada um de episódios vividos há tantos anos: um duelo verbal, entremeado com silêncios, acusações e evasões,com uma fina profundidade psicológica.

A seguir, li Divórcio em Buda, com tradução direta do húngaro de Ladislao Szabo. Depois os com tradução também direta do húngaro por Paulo Schiller: Rebeldes, Libertação, De verdade, O legado de Eszter, e o chamado romance de formação Confissões de um burguês. Leio agora Mémoires de Hongrie, edições Le Livre de Poche, tradução do húngaro de Georges Kassai e Zéno Bianu.Esse livro dá um panorama da ocupação soviética no país entre 1944 a 1948.

É estranho, para dizer o mínimo, que Márai não seja citado nas edições (1963 e 1984) da Enciclopédia Britânica, nem na Larouse du XXe Siècle, no Chambers Biographical Dictionary, na The Cambridge Biographical Encyclopedia e, para meu pasmo, na História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux. Somente no Dictionary of Writers da Larousse se encontra uma pequena biografia.Outras informações consegui na internet, nem sempre confiáveis. Número de livros escritos? Uns dizem 46, outros 60.

Sándor Márai (Sándor Károly Henrik Grosschmied de Mára) nasceu no império Áustro-Húngaro em 1900 em Kassa, hoje Kosice, na Eslováquia. Na curiosa divisão por classes baseada em poder aquisitivo ele pertencia à classe média alta, rica. Saiu cedo de casa e perambulou pela Europa de entre guerras: Berlim, Paris, Frankfurt. Voltou à Hungria e passou lá a Segunda Guerra Mundial. Um dos primeiros escritores a denunciar Hitler, era profundamente antifascista, correu riscos durante a guerra. Em 1948, foge para os Estados Unidos por discordar igualmente do comunismo. O crítico marxista Georg Lukacs o atacou furiosamente, acusando-o de burguês. Em 1934 escreve Confissões de um burguês. Não é impossível que Lukacs, estalinista, visse nele um defensor daquilo que havia de melhor nas conquistas da humanidade, contrário a uma revolução que destruiria tudo, para um recomeço triunfal da humanidade. Sabemos no que isso deu. Márai suicidou-se em San Diego, Califórnia, em 1989, ao saber-se condenado por um câncer. Deixou um profundo legado entre romances, memórias, ensaios, poemas, peças de teatro, traduções. Escreveu sempre em sua língua nativa, o húngaro, apesar de dominar perfeitamente o alemão.

Seus romances são preciosamente escritos, há o domínio da narração, profundidade psicológica e um legado humano, profundamente humano. E como disse o escritor Tibor Fisher: às vezes sua pretensa clareza engana. Dez minutos depois de termos lido uma frase nos perguntamos: “O que realmente ele quis dizer com isso?”.

Há, porém, um detalhe que não gostei em seus livros, principalmente nos de ficção: a enormidade de palavras entre aspas. Qual o motivo? Indicar que o sentido é outro? Ironia?Mas com aquela abundância? Pois que procure a palavra certa, le mot juste, como preconizava Gustave Flaubert. Para ter a certeza que as tais aspas constavam do original fui consultar traduções francesas. E lá estão as diabólicas aspas em profusão.
A Companhia das Letras editou oito de seus livros. Com ou sem as aspas vale a leitura.

 

A estreia, no romance

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Foto: Divulgação

Rodrigo Garcia Lopes quis descobrir outros caminhos, outras paisagens. É jornalista, compositor, tradutor de autores como Walt Whitman e Arthur Rimbaud e poeta. Com a poesia já escreveu muitos livros, qual o quê, com seu terno mais bonito, o livro Estúdio Realidade chegou à finalíssima do Prêmio Portugal Telecom de 2014, mesmo ano em que abriu a janela para o romance. Editado pela Record,O Trovador é o título da estreia. E as palavras de Paulo Leminski, no Correio de Notícias, mostram a ousadia de Garcia Lopes de se arriscar em novos mares: “Me impressiona a falta de provincianismo, a abertura cosmopolita, a coragem da informação difícil, o extremo atrevimento desse londrinense...”.

Ariano Suassuna

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Foto: Paulo Sérgio Sales - SEI

Ariano Suassuna ocupava a Cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras desde 1990, dedicou-se à prosa em Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971) e História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao Sol da Onça Caetana (1976), chamado por ele de “romance armorial-popular brasileiro”. O Movimento Armorial foi fundado por ele em 1970 na capital pernambucana, cujo interesse era o reconhecimento e desenvolvimento das formas de arte mais populares e tradicionais. Não à toa, sua peça Auto da Compadecida, de 1955, foi considerada o texto mais popular do moderno teatro brasileiro. E foi assim que Suassuna se projetou no cenário nacional, com suas peças teatrais, principalmente com o Auto da Compadecida, a qual foi dos palcos para as telas. Em 23 de julho, Ariano Suassuna faleceu aos 87 anos, mas ficam seus livros, suas peças, suas obras.

João Ubaldo Ribeiro

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Foto: Manu Dias - SECOM

João Ubaldo Ribeiro não foi escritor de um só livro, redator de um só jornal, cabeça de uma só ciência, por trás do romancista e cronista tinha o administrador e professor, tudo isso com sua formação no Direito, mas da advocacia passou longe. Publicou diversos livros e colaborou para vários jornais, não só os daqui, mas teceu seus textos pela Alemanha, Portugal e Inglaterra.

Quando abriu os caminhos literários aos 21 anos foi deveras contrariado, editores sempre a dar pitacos em seus títulos; Setembro não tem sentido, seu primeiro livro, por ele seria A Semana da Pátria. Depois veio uma de suas grandes obras, Sargento Getúlio, de 1971, marco no romance moderno, que a crítica entendeu como a síntese do que há de melhor entre Graciliano Ramos e Guimarães Rosa; por ser recheado de regionalismo nordestino, em particular o sergipano, ficou a cargo do próprio Ubaldo a tradução. Três anos adiante publicou, novamente contrariado com o nome, Vencecavalo e o Outro Povo, para ele era A Guerra dos Paranaguás. Além destes, Viva o povo brasileiro é citado frequentemente entre os melhores romances brasileiros do século 20.

João Ubaldo era baiano de Itaparica, foi durante vinte anos o sétimo ocupante da Cadeira nº 34 da Academia Brasileira de Letras e faleceu no dia 18 passado aos 73 anos.

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