Prateleira. Ed. 154

67-capa

Cena do documentário "Uma noite em 67"

Cerejeiras em flor

Dico Kremer

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O filme é alemão, dirigido por Doris Dörrie. O título é duplo: Hanami, Kirschblüten. Hanami, palavra japonesa, consiste de dois kanjis: o primeiro, hana, é flor e o segundo, mi, é do verbo miru, ver. Ver as cerejeiras em flor. Die Kirschblüte, plural em n, flor das cerejeiras, florescência. É a sakura, cerejeiras floridas que tanto significado têm para os japoneses.
O filme começa em uma pequena cidade do interior da Alemanha, com um funcionário com doença terminal e as preocupações de sua mulher, que lhe esconde seu real estado. Filhos em Berlim e outro no Japão. Viagem para visita dos filhos em Berlim e, depois, o homem só, hóspede do filho em Tóquio.

A estória de autoria da diretora é sobre o amor, a convivência, a perda, o remorso, a libertação e, principalmente, o tempo. O tempo do agora, do porvir e do passado. O tempo da memória, o tempo a ser superado com a morte e aquele tempo sem horas do qual falou Octavio Paz. O tempo do início do filme, do funcionário a trabalhar em sua cidade, tempo que parece imóvel, o tempo dos filhos em Berlim, que não tem tempo para os pais. O da morte da mulher, o do filho em Tóquio e o tempo efêmero das flores das cerejeiras. E o tempo de Yu, jovem japonesa de 18 anos, o da dança Butô. E, finalmente, a ausência de tempo ou a eternidade.

Esse lindo e profundo filme teuto-nipônico fala de uma coisa sempre presente em nossa vida. O tempo, sobre o qual falava Santo Agostinho: “Se não me perguntam o que é eu sei. Se me perguntam já não sei”. E, também, a convivência com amor é o motivo apresentado na abertura do filme. A voz em off da mulher: “Eu sempre quis ir ao Japão com ele. Só para ver o Monte Fuji e as flores de cerejeira com ele. Não me imagino vendo nada sem o meu marido. Seria como não ver”.
Assistir Cerejeiras em flor faz-nos ganhar o tempo.

Uma noite em 67

Dédallo Neves

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Na década de 1960 as novelas ainda não tinham a força de hoje, força que já estão a perder, as pesquisas de audiência mostram, o que predominava na telinha eram os musicais, tendo em vista esta tendência, a Rede Record produziu um bom programa de televisão que culminou no Festival de Música Brasileira. O primeiro aconteceu em 1965 e o último vinte anos depois. Contudo, o grande Festival foi o de 1967. E para contar a história desse dia, Renato Terra e Ricardo Calil dirigiram o documentário Uma noite em 67.

Foi um festival de muitas novidades, com bandas de rock, trajes não a rigor, violões quebrados. A vaia institucionalizou-se neste ano, mais especificamente na música Beto bom de bola, de Sérgio Ricardo, que decidiu de última hora mudar o arranjo e levou uma vaia monumental, irritadíssimo decide não cantar, quebra o violão e joga para a plateia. Curiosamente, a música vencedora daquele ano – Ponteio, interpretada por Edu Lobo e Marília Medalha – trazia o seguinte estribilho: “quem me dera agora eu tivesse a viola pra tocar”.

Caetano Veloso, mais paciente que Sérgio Ricardo, e também mais ousado, entrou com uma banda de rock argentina – os Beat Boys – que pouco agradou ao público, a onomatopeia da vaia era geral, porém com cardinales bonitas inverteu a situação e terminou aplaudido, até pelos seus concorrentes como conta Nelson Motta no documentário.

Além deles, também é possível ver Gilberto Gil e Os Mutantes, Chico Buarque e MPB-4, Roberto Carlos, etc., etc. Depoimentos, imagens, músicas, extras, de todos, do técnico de som Zuza Homem de Mello ao diretor da TV Record Paulinho Machado de Carvalho. São boas imagens, bons depoimentos, boas músicas. Não tinha como Uma noite em 67 – ou aquela noite em 1967 – dar errado.

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