Reginaldo

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O problema é que não quero mais viver desse jeito. Passar os dias a esperar que você volte? Ah! Isso não é vida!

Eu vivo triste, vivo sozinha. Minhas tardes são de tricô, minhas noites de novela. Tá certo, Reginaldo, você está trabalhando, eu sei, e o caminhão traz o nosso sustento, mas você podia pensar em outra coisa.

E tem mais, essa gente só faz cuidar da minha vida. Quando Silas entrou aqui pra tratarmos da obra do banheiro, peguei Rose na janela, a espiar e maldar o encontro. Tenho certeza que ela já foi falar isso pra você.

Não posso mais ficar aqui trancada, a espera do seu retorno, Reginaldo. Eu tenho vida, também tenho vida, sabe? Lembra que antes da gente casar eu tinha o meu trabalho? Não era muito o que eu ganhava e eu nem gostava do seu Arnaldo, mas tinha o meu trabalho, o meu dinheiro. E agora, Reginaldo? Eu tenho tristeza e solidão.

Ah! Quero aproveitar e te contar também que o Marcinho, que embora não seja meu irmão de sangue é como se tivesse nascido da minha mãe, de vez em quando fica aqui comigo. Ele diz que é perigoso eu passar muito tempo sozinha. E vai ver que é mesmo, tenho mais medo de endoidar que de ladrão. To te falando isso, porque um dia desses tua mãe veio aqui e disse que não estava certo Marcinho em casa sem a presença do meu marido. Coisa de gente antiga, mas vai que ela te inventa alguma coisa.

A solidão da casa é mais sofrida que a solidão da estrada, Reginaldo. Porque você vai passando, vai mudando, vai vendo outras paisagens. E eu? Eu acordo e durmo e passo dia e noite a olhar pro tricô e pra novela.

Ainda bem que a Tere apareceu por aqui um dia desses. Você não gosta dela, não sei por que. Ela fez aniversário, fez festa e me convidou. Eu fui, Reginaldo. Se você estivesse aqui, não iria, mas entre ficar em casa sozinha e conversar com gente, achei melhor dar uma passada por lá. Eu não estava muito feliz, mas até dancei, por educação. O Cicinho me tirou, e você sabe, não dá pra negar. Só te conto isso, porque seu cunhado também estava lá e ele, do jeito que é, é capaz de falar de mim. Foi uma dança só, por obrigação, e depois vim embora. Pedi pro irmão da Tere me trazer pra casa, porque você sabe do perigo de andar por aí sozinha…

A nossa vida é boa, né Reginaldo? Pena essa solidão toda entre nós. O que eu queria mesmo era poder subir no caminhão com você e ganhar o mundo. Mas você acha que a boleia não é lugar pra mim…

Sabe que um dia desses eu dei uma volta de caminhão? O Juca chegou aqui e eu pedi pra ele me levar. Já era tarde, ele resmungou, mas fomos até a serrinha. É tão bonito lá em cima, mas dá uma tristeza na gente. Você já foi até lá? Tem uma casinha abandonada, não mora ninguém, mas ainda tem uma ou outra mobília. Eu e Juca entramos…
Ah! Reginaldo, é difícil viver sozinha, a gente tem que ir inventando coisa, motivo, jeito pra aguentar a vida, os dias, as noites, o tricô e a novela.
Boa viagem!

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