Rubem Alves perto dos professores ainda longe das salas de aula

rubem-alves

Uma vida dedicada aos estudos de teologia, filosofia, psicanálise e educação, assim Rubem Alves marcou a existência por aqui. Seus 80 anos provavelmente virarão uns 300 em nossa vida brasileira, a semeadura é para mais tarde; nossa sociedade ainda não caminhou o suficiente para encontrar na prática os conceitos de suas teorias. E com o passar do tempo elas foram se afunilando para educação e dentro das salas de aula procurando, ainda em vão, o eco para suas palavras.

Ele, em seu site (www.rubemalves.com.br), tratou de se explicar. O conceito é simples no discurso e pra lá de complexo em nossa escola que ainda teima nas fórmulas do século retrasado:

Rubem-alves2“Minha estrela é a educação. Educar não é ensinar matemática, física, química, geografia, português. Essas coisas podem ser aprendidas nos livros e nos computadores. Dispensam a presença do educador. Educar é outra coisa. De um educador pode-se dizer o que Cecília Meireles disse de sua avó – que foi quem a educou:‘O seu corpo era um espelho pensante do universo’. O educador é um corpo cheio de mundos... A primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O mundo é maravilhoso, está cheio de coisas assombrosas. Zaratustra ria vendo borboletas e bolhas de sabão. A Adélia ria vendo tanajuras em voo e um pé de mato que dava flor amarela. Eu rio vendo conchas, teias de aranha e pipocas estourando... Quem vê bem nunca fica entediado com a vida. O educador aponta e sorri – e contempla os olhos do discípulo. Quando seus olhos sorriem, ele se sente feliz. Estão vendo a mesma coisa. Quando digo que minha paixão é a educação estou dizendo que desejo ter a alegria de ver os olhos dos meus discípulos, especialmente os olhos das crianças.”

Os mais diversos temas passaram pelos seus textos, e eles foram frutos das leituras combinadas com a vida. Rubem Alves fez espécie de tradução dos grandes nomes da filosofia para um cotidiano simples, sem as sumptuosidades acadêmicas ou o pensamento pernóstico de formar clubinho exclusivo de leitores.

Por conta desse leque tão aberto de assuntos e da possibilidade de comunicação com públicos de leituras menos abrangentes, o escritor deixou a marca definitiva nas escolas do país. Conseguiu o grande feito de mesmo sendo crítico à prática atual da maciça escolar, ser amplamente aplaudido. As professoras do Brasil se perturbam com suas colocações e ao mesmo as admiram. Foi o algoz e o herói das salas de aula.

O tom poético de seus textos e o jeito galante da voz que lhe davam ares de cristal que reflete a luz das boas possibilidades humanas. Um sedutor. Mas sabemos que apenas isso não sustenta um espaço tão respeitado na intelectualidade brasileira. Rubem Alves lapidou um currículo relevante e isso sim é a conservação, confirmação e apoio a tudo que produziu.

 

“Suspeito que nossas escolas ensinem com muita precisão a ciência de comprar as passagens e arrumar as malas. Mas tenho sérias dúvidas de que elas ensinem os alunos a arte de ver enquanto viajam.”

 

A particularidade do legado que ele deixa à Educação é relação direta com o seu olhar para a vida. Os seus textos não têm assuntos estanques, engavetados isoladamente, tratam do todo, como é o ser humano.

Pregou que uma criança é um universo inteiro, capaz de fazer perguntas e que a partir das questões geradas é que as respostas aparecerão, coerentes, naturais, na barca do aprendizado. Para ele, o grande lance da educação é saber provocar as perguntas. O estudante não tem que saber dar respostas, tem que saber fazer perguntas e a partir delas encontrar o conhecimento. A receita que parece simples é o grande nó da educação atualmente. Do ensino fundamental ao vestibular, todo o sistema está baseado na relação contrária, nos questionários imensos de mão única e no professor como fonte do saber. Era essa a grande questão que Rubem atravessou a vida combatendo e lutando para ser ouvido.

Dentro de suas perspectivas, a escola tem que proporcionar a abertura do olhar, o estímulo das reflexões, o incentivo à originalidade de pensamento de cada um. A essência da liberdade.

 

“Faz tempo que para pensar sobre Deus não leio os teólogos, leio os poetas.”

 

Os estudos de teologia e filosofia formaram o caráter de Rubem Alves. Para ele, a religião deveria acontecer na vida das pessoas também no campo do prazer, a revelar um sobrenatural que estivesse mais próximo do deleite que do sacrifício.

rubem-alves1Queria um tipo de comunhão com o sagrado que melhorasse a vida no agora, no dia de hoje. Nunca aceitou que, por exemplo, uma pessoa em cumprimento de promessa oferecesse subir centenas de degraus de joelho, “por que é que não promete que, se a graça for recebida, todas as sextas-feiras irá ler em voz alta um poema do Fernando Pessoa?”.
Também não queria pensar em céu ou inferno, mas apenas no próximo, no mais próximo. Foi assim que pregou a palavra, sem tentativa de conversão, só a doação silenciosa às atitudes que poderiam transformar, de maneira prática, o caos de miséria que vivia seu rebanho.

Escreveu sobre a Teologia da Libertação, brigou com Frei Beto, foi caçado pela ditadura. A Igreja não o suportou e ele não suportou a Igreja.

 

“A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A ‘reverência pela vida’ exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir.”

 

Rubem Alves morreu aos 80 anos, de um jeito que não queria: no hospital, na UTI. Em seus comentários sobre o assunto sempre disse que os últimos momentos de um homem deveriam ser em casa, perto daqueles que ama, da família, dos amigos: uma despedida e um convite ao espetáculo do círculo completo da existência. Não houve possibilidade. Mas, ainda assim, terá alguns últimos pedidos atendidos.

Em carta que escreveu há alguns anos sobre como gostaria que conduzissem sua morte, fez declarações, pedidos e saudações. A vontade de cremação com as cinzas espalhadas sob um ipê-amarelo enquanto os mais próximos lêem seus poemas preferidos se tornou pública e trouxe comoção diferente ao país por sua perda: Rubem cultivou a beleza nos mínimos detalhes, do começo ao fim. Aos pés da árvore, renascerá flor a encantar e maravilhar aqueles que têm olhos de perceber o belo.

Por esses dias todos vimos recados de amor e admiração de educadores de todo o Brasil para ele. O que o coloca como um dos teóricos mais próximos da prática, do cotidiano e da vida do nosso país.

Que seus ensinamentos, na vida e na arte, nas escolas e nas ruas, nos livros e vídeos, nos jornais e revistas continuem a nos habitar e iluminar, como os ipês-amarelos que sempre florescem depois do inverno.

 

 

 

Um pouco de sua biografia

1953 a 1957 estudou Teologia em Campinas.
1958 a 1963 foi pastor em Lavras, Minas Gerais.
1963 Mestrado em Teologia pelo Union Teological Seminary de Nova York.
1964 volta para o Brasil.
1968 foi denunciado pela Igreja Presbiteriana como subversivo, se refugiou nos Estados Unidos.
1969 Ph.D. em Filosofia pelo Princeton Theological Seminary.
1970 no Brasil e começou a dar aulas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, em São Paulo.
1971, nova volta aos EUA, agora como professor no Union Teological Seminary.
1973 professor na Universidade Estadual de Campinas; ocupou várias cadeiras e permaneceu até sua aposentadoria.
Início da década de 1980: psicanalista pela Sociedade Paulista de Psicanálise.
1988 foi professor na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e depois fez residência na Bellagio Study Center, na Itália.
Entre títulos infantis, crônicas, educação, teologia, biografias, tem mais de 150 livros publicados.
Também escreveu para jornais e revistas.
Colecionador de prêmios, congratulações e homenagens no Brasil e exterior.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *