Tannat, parrillas e trapaças

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Que infeliz momento para desembarcar em Montevidéu, o país enlouquecido pelo gancho imposto no dia anterior pela Fifa a Luisito Suárez. No caminho para o hotel, ao perceber a nacionalidade dos passageiros, o motorista do táxi elevou o volume do rádio, expondo a fúria de locutores que denunciavam uma suposta trama arquitetada pelo Brasil para descartar de seu caminho a gloriosa celeste. E no hotel foi igual, recepção seca e inamistosa. Ainda bem que Daniel Pisano não se deixou envolver pela comoção nacional. Em meio ao centenário vinhedo que a família cultiva no distrito de Canelones, próximo à capital, a preocupação é manter em alto nível os vinhos ali produzidos. Já o conhecia dos encontros promovidos pela Mistral, a importadora da Pisano. Daniel é expansivo, caloroso, seu entusiasmo pela vinicultura do país contagia. Falar da uva Tannat quase o põe em transes de arrebatamento.

Tem seus porquês essa devoção. Francesa de origem, mas pouco apreciada na terra natal, a Tannat chegou ao Uruguai em meados do século 19 e logo arrasou. Fizeram-lhe um bem danado as estações definidas, o clima temperado, as noites resfriadas pelas brisas do Mar del Plata. O país hoje é líder mundial em vinhas dessa uva. Mas há outra razão para tanto sucesso. Como o próprio nome sugere, os vinhos Tannat são pródigos em taninos, componente que resulta em certeira harmonização quando aliado à proteína das carnes grelhadas, as ditas parrillas. Prato e bebida fazem, por isso, um par constante.

A parrilla é o feijão com arroz dos uruguaios. Com pouco mais de três milhões de habitantes, o país possui rebanho bovino de 15 milhões de cabeças, praticamente cinco per capita. Em Montevidéu, o antigo mercado portuário virou espécie de catedral das carnes greladas, as instalações ocupadas por dezenas de estabelecimentos especializados.

foto-1O La Chacra foi o primeiro em que estive. Espantoso como o Tannat Maderos Gran Reserva 2011, da vinícola Los Cerros de San Juan, valorizou o excelente ojo de bife. Aromas francos de frutas maduras (figo, ameixa), notas de especiarias, no paladar suculento e intenso sem perder a elegância. O mesmo perfil tinham o Bouza Tannat 2010, provado em outra parrilla do mercado, a El Palenque e o Catamayor Reserva Tannat 2009, que fez dupla com o carrê de cordeiro do El Perdiz, estupenda cozinha do bairro de Pocitos. E quer saber o que torna esses vinhos melhores? Pois nenhum custa, na conversão, mais que R$ 50, preço de carta de restaurante. A verdade é que o vinho platino livrou-se da antiga rusticidade. Daniel Pisano comenta que os mercados, cada vez mais exigentes, forçaram a modernização das vinícolas. Os vinhos ficaram mais amáveis, complexos e sutis.

Foi uma surpresa provar na Pisano o Espumante Brut Nature feito com a uva Tannat pelo método tradicional. Vermelho escuro na cor, frutado nos aromas, na boca seco, boa acidez, um parceirão para nossa feijoada, imagino. Outra surpresa foi o branco da casta argentina Torrontés. A Pisano é a única bodega uruguaia que a utiliza. Daniel conseguiu alguns bacelos de Mendoza e não cede mudas para ninguém. O Torrontés Rio de los Pajaros 2014 tem estimulante frescor, aromas de limão, grama cortada, corpo cheio e vivaz.

E chegou então a vez da Tannat, a variedade mais plantada pela vinícola. O Rio de los Pajaros Tannat 2011 prima pelo equilíbrio e fineza, uvas maceradas a frio durante sete dias para extração de cor e aromas, seguindo-se, por mais 22 dias, uma fermentação lenta, a 22° de temperatura. Vieram, então, o Pisano Tannat Reserva Personal 2011, de bela estrutura, marcado pelo estágio em barricas de carvalho, e o Pisano Arretxea Gran Reserva 2009, o rótulo principal da casa, oriundo de parcelas especiais do vinhedo. Tinto suntuoso, muito aromático, espesso, profundo e generoso nos taninos. Deve ser decantado pelo menos uma hora antes de servir.

Ao deixarmos Montevidéu, o papelão que aprontamos diante da Alemanha havia relaxado as tensões. De incorrigíveis trapaceiros passamos a companheiros de infortúnio.

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