A restauração de um acervo

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Dois anos de trabalho e 41 obras restauradas

 

Em 1928 ergueram um casarão no centro de Curitiba, no comecinho da Rua Desembargador Westphalen, era para abrigar o Departamento de Saúde Pública. Décadas adiante, reformaram-no, desta vez o cotado a ocupar o espaço era o Museu de Arte Contemporânea do Paraná, criado em 1970 por um decreto.

Porém, as portas foram abertas ao público em 1971, na Rua 24 de Maio, as reformas não haviam sido concluídas e clamavam a abertura do MAC. A mudança veio em 1974, uma formosura de um prédio que não poderiam derrubá-lo de forma alguma. Por isso que em 1978 tornou-se Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Paraná, pra ninguém tirar, nem por e a história ser preservada.
De 1970 até agora já passaram por lá onze diretores e vivemos a décima segunda gestão. Walter Zanini, que faleceu em janeiro do ano passado, à época era diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e acreditava nos jovens e influenciou o nosso noviço MAC a apoiar as manifestações dos que começavam suas carreiras e as novas tendências. Fernando Velloso, o primeiro diretor do MAC/PR, trouxe o que se fazia nos museus do mundo de mais recente e criou a cara do nosso Museu de Arte Contemporânea, um espaço tradicionalmente ligado à educação.

Hoje, 44 anos depois da criação, as exposições são as mais diversas, a trazer o suspiro de contemporaneidade, do novo, de linguagens que de tão novas são visionárias, estão sempre um passo à frente, pouco compreendidas por alguns que chegam até a recusar a arte, mas a arte contemporânea é isso, é a arte pela arte, discussão velha no mundo da estética que ainda não é consensual.

João Osorio Brzezinski e Jozele Penteado

João Osorio Brzezinski e Jozele Penteado

Há muitos que querem levar adiante a importância social do MAC e das artes e não deixar que envelheça algo genuinamente jovial. Por isso que Jô Penteado e Ângela Zampier empenharam-se na causa da restauração e conservação das telas do Museu de Arte Contemporânea do Paraná.

Tudo começou em 2009, quando o projeto Conservação e Restauração de Telas do Museu de Arte Contemporânea do Paraná foi escrito e a labuta atrás de patrocínio havia começado, após aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura em 2011. Era um projeto caro, que necessitava dos mais requintados materiais, foi aí que as duas encontraram Baldo, Copel e Goemil. Patrocínio garantido, era hora de pôr a mão na massa, nas telas, em tudo.

Contudo, Jô Penteado já trazia uma bagagem de projetos na área, “esse é meu terceiro projeto, o primeiro foi para a Biblioteca Pública do Paraná, depois fiz o primeiro projeto para o MAC, que eram 248 obras em suporte papel, e em sequência dei início a esse projeto, que a princípio seria só tela, mas resolvemos unir nossos conhecimentos e dialogar as experiências das áreas de restauração, foi muito diferente do que nos propusemos inicialmente, ficou melhor e mais rico […] e tornou-se um projeto, de fato, de obras contemporâneas”, afirma.

Quando elas começaram o trabalho efetivo do restauro – fevereiro de 2012 –, a lista que contava com 41 obras havia sido modificada, Jô Penteado explicou que “algumas obras estavam na parte de Quarentena, lugar em que elas ficam porque estão com algum problema de contaminação, ou fungo, ou cupim, etc. Então a gente acabou retirando obras de lá e da lista original acabaram ficando algumas obras”. Caso da obra do Palatnik, Relevo Progressivo (ver imagem), que estava na Quarentena e foi introduzida no projeto, porém não na exposição “A obra do Palatnik, por exemplo. Ficou muitos anos sem ser exposta, por causa da deterioração e acabou que nem pra nossa exposição ela foi, já está no MAC de São Paulo”, afirma a restauradora.

Diretora do MAC e equipe do projeto. Da esquerda para a direita: Lenora Pedroso (diretora MAC) / Jozele Penteado / Renata Domit / Allan Hanke / Maria Cecília Cavalcanti Germano / Ângela Zampier

Diretora do MAC e equipe do projeto. Da esquerda para a direita: Lenora Pedroso (diretora MAC) / Jozele Penteado / Renata Domit / Allan Hanke / Maria Cecília Cavalcanti Germano / Ângela Zampier

Se envolver no restauro de obras é um desafio dos grandes, embora haja certo glamour na profissão de resgatar ou conservar obras de consagrados artistas. “O projeto de restauração não traz uma visibilidade como uma peça de teatro, como um show de música, mas o legado que deixa para o patrimônio é muito mais durável”, quase em tom de queixa diz Jô, mas reconhece o privilégio e as dificuldades técnicas. “[Não alterar a obra] é um dos critérios básicos, você tem que fazer a intervenção sem descaracterizar a arte, porém em alguns casos, como a obra do Oswald Lopes (ver imagem), foi feita toda uma mudança no rosto, pois alguém, não se sabe quem, nem porque, pôs uma barba que não era dele e nos exames de luz e limpeza foi visto que tinha uma carnação muito íntegra embaixo. Resolvemos tirar, pois o artista não iria fazer um trabalho perfeito do queixo e colocar uma barba por cima.”
O critério para selecionar as obras do projeto flutuou entre deterioração e importâncias local e nacional, seja de artista ou obra, além de Jô Penteado e Ângela Zampier orientarem o carnaval, Maria Cecília Cavalcanti Germano assumiu a coordenação técnica. A equipe de restauradores conta com as três, mais Allan Sostenis Hanke e Renata Domit.

Os cinco anos de projeto se concretizaram na exposição MAC – um acervo restaurado, aberta 24 de julho e que irá até 26 de outubro. Quem visitar o museu poderá ver como as obras estavam antes da restauração e como ficaram depois do fino trato dado pelos cinco restauradores. Após a exposição as obras ficarão uma parte na reserva técnica do Museu de Arte Contemporânea e outra parte na reserva do Museu Oscar Niemeyer.

Serviço: O Museu de Arte Contemporânea fica na Rua Desembargador Westphalen, 16, Centro. Abre de terça a sexta das 10h às 19h; sábados, domingos e feriados das 10h às 16h. A entrada é franca.

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